Alex Cecci, 34 anos, o prodígio por trás do DJ Don KB e dono do destacado clube paulistano Jive, é daqueles que não hesitaria em levar seu notebook Apple para trabalhar no banheiro. Sua disposição férrea para os negócios levou a Jive, que em 2000 era uma festa semanal no bar do hotel Cambridge, a adquirir endereço próprio naquele mesmo ano, sob a distinta referência de “casa dos grooves raros”; já seu afiadíssimo faro musical faz dele pesquisador e executor de verdadeiras pérolas – soul brasileiro, latin flavours, balanço black.

Don KB deixa recado na minha secretária eletrônica, está chegando para tocar no Rio de Janeiro no final de semana. No dia seguinte envio e-mail dando as boas vindas, mi casa es su casa, quanta honra. Desde setembro do ano passado tem sido assim, toda vez que nos cruzamos no meu apartamento eu aproveito para espiá-lo em seus atarefados bastidores. A curiosidade jornalística me morde, mas evito desviar a atenção de Alex para conversas, ele sempre parece estar cuidando de assunto de importância exclusiva. No entanto, finíssimo cavalheiro que é, faz uma ou outra pausa para falar sobre a noite carioca da vez, de projetos vindouros ou da família: há quatro meses ele e a mulher ganharam o adorável Enzo, de quem mantém fotografias em prontidão. O click mais famoso do álbum mostra o bebê no colo de Africa Bambaatta, dinossauro que Alex Cecci himself trouxe quatro vezes ao país. A última, em outubro do ano passado, foi para celebrar os três anos da Jive – e ainda entraram na pilha de encarar mais vinte dias de espetáculos extras em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Ao cabo do inverno passado, quando se apresentava no 00 às segundas-feiras, Don KB já premeditava que, em cidade praiana, é no verão que as noites repercutem com força. Tirou a prova no último sábado de janeiro, ao ser recebido na Casa da Matriz pelos mooders e residentes Lucio K e Fábio Maia. Trouxe o andar de cima abaixo com black music old school e ferveu o térreo com rock n´soul. Os também mooders Bernando Medeiros e Alexandre Travassos apareceram e dançamos todos até o fim da madrugada.

Na volta para casa, após regozijar-se com a ebulição da pista carioca, Alex assinalou que “os DJs do Rio têm muita técnica. Lucio K é fera, altíssimo gabarito, as produções dele são incríveis. E o Fabio lida com um público eclético, difícil de dominar, e sempre manda bem”. Revelou, ainda, sua intenção de se mudar para nossas praias: “Quero criar meu filho aqui”, e abrir uma filial: “O Rio de Janeiro tem tudo a ver com a pegada da Jive. Pretendo trazê-la para cá”. São Paulo, no entanto, não sai do mapa: ali está o horizonte mais largo do país, na medida das sofisticadas projeções de Don KB. Fora do país, quer turnê pela Europa – Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, Portugal, Espanha, Dinamarca – de preferência em parceria com o amigo B Negão.

Acordou no início da tarde de domingo e já saltou pro notebook, resmungando não ter tempo para ligar para os amigos cariocas e avisar sobre sua apresentação daquela noite, num dos agitados quiosques à beira da bela Lagoa Rodrigo de Freitas. Ensaiei oferecer uma ajuda e ele foi logo aceitando de bom grado. Eu atacava no telemarketing e ele, às voltas com mil e-mails, ainda tinha cabeça para monitorar o status do quem vai/ linha ocupada/ deixa recado. Aproveitei que seu foco recaiu sobre mim, puxei discretamente o bloco e a caneta e finalmente obtive as informações que precisaria para escrever esta matéria. Toda delicadeza nesta hora.

Desta vez não haveria pick-ups disponíveis, Alex pegou os CDs e deixou seu case de vinis em casa. Aliás, está mais para baú do que para qualquer outra coisa: estamos falando de um grande e pesado cubo com alça e rodinhas, guardiã de um verdadeiro tesouro composto por mais de mil bolachas. Tem que botar no seguro, Don maluco, aí dentro só tem relíquia.

Na Lagoa em noite de verão foi aquela delícia, meia lua no céu, paisagem de tirar o chapéu. Mais mooder na parada, Joca Vidal fez um set de respeito, seguido da banda Cinco no Brinco e por último Don KB. A platéia repetiu, em parte, a da noite anterior (todo mundo querendo bis) e incluiu o ilustre Bebeto, pai do samba-rock. KB, com tatuagens até os cotovelos e charutão Josefina no canto da boca, cantando e dançando de headphones, era a própria sensação local.

Como acontece nos dias seguintes, Alex deixou um bilhete de agradecimento em cima do piano da sala. Do jeito que a conexão anda forte com o Rio, já, já ele está de volta.