Tem que ser legalizada porque, de cara, está tudo errado: não é para ser um problema de polícia mas sim de saúde pública. É como se o álcool fosse ilegal e começassem a mandar os alcoólatras para a cadeia ao invés de mandá-los para clínicas de reabilitação – nonsense.

De modo que os hipócritas que apontam os consumidores como patrocinadores do tráfico é que são o verdadeiro problema, já que são os primeiros a se opor à legalização. Ora, é uma discussão tão ridícula.

Aos hipócritas, a ilegalidade da maconha é confortável: ignorantes das origens da proibição (que pouco tem a ver com o fato de que a erva dá barato) e apreensivos sobre como coexistir com os maconheiros libertos, agarram-se aos velhos preconceitos e à circense política de repressão.

Civilidade ao invés de barbárie, inteligência ao invés de violência: legalizar é normalizar; normalizar é absorver; absorver é controlar. Modelo holandês:

“Um dos resultados mais evidentes da quieta revolução Provo na sociedade holandesa é o reconhecimento, não jurídico mas factual, do uso de drogas leves e a política de contenção e ´redução do dano` das drogas pesadas. Uma experiência que já tem trinta anos e que demonstrou inequivocamente a própria eficácia (diminuição constante do consumo, separação do mercado das drogas leves do mercado das drogas pesadas, banalização do fascínio do ´proibido` e ELIMINAÇÃO DE SUA PERICULOSIDADE SOCIAL). (...) Atrás da tolerância oculta-se uma arma forte. As sociedades mais fracas e mais inseguras também são as mais intolerantes e menos respeitosas para com quem não pensa como elas. (...) Bem sabemos que a normalização é a forma mais insidiosa de controle social. Absorvendo as formas e as práticas desviantes, incorporando-as ao esquema dominante, tornam-se parte integrante do status quo”
“Provos – Amsterdam e o Nascimento da Contracultura”, Matteo Guarnaccia, editora Conrad

Proibição é palhaçada, mas uma vez legalizada, controle é indispensável: maconha não é uma substância inócua. Mesmo na Holanda, onde é permitido, seu consumo não é permitido nas ruas: apenas em casa e locais autorizados.

Se a erva não for legalizada hoje, cedo ou tarde será: ou como última e desesperada saída para a violência galopante ou como reflexo natural de uma sociedade que está, por baixo dos panos, incorporando cada vez mais o hábito do uso da maconha.

Questão de tempo.