Os CDs lançados pelo selo Cardume (EMI) trazem uma inovação para a indústria fonográfica. Em tempos de crise, uma das tentavivas plausíveis para tentar salvar o mercado é gastar menos na produção do disco, possibilitando a venda de um produto mais barato para o consumidor final. Pois os quatro CDs do Cardume apresentam duas bandas mais ou menos novas e dois cantores estreando em carreira solo, com seis músicas cada. São eles que estão de frente nesta experiência.

O diretor artístico Bruno Levinson (do festival Humaitá Pra Peixe) acertou no formato: os discos são vendidos em alguns sites por menos de R$ 10. Nas grandes lojas não ultrapassa os R$ 13. Isso aí já é meio caminho andado para fisgar o consumidor musical. O problema é se esse consumidor vai gostar das bandas. Aí já é outro papo.

O que me pareceu ao terminar de ouvir cada disco, passadas algumas vezes, foi que algo faltava. Sim, poderia ser o número de músicas - pequeno para o padrão brasileiro, que não está “acostumado” a singles e a EPs. Mas o que pega mesmo é que os CDs não se comparam aos shows que estes mesmos artistas fazem, muito mais empolgantes. Vide a apresentação de cada um na edição deste ano do festival.

O Bangalafumenga lança “Vira Lata” depois de alguns registros independentes - depois de sair do underground como uma simples roda de samba que, em 1998, agitava as noites do Planetário da Gávea; virar um bloco de carnaval; e passar a ser, um ano mais tarde, uma ‘banda de verdade’. Acontece que essa ‘banda de verdade’ ainda não conseguiu uma identidade capaz de atingir o grande público. Estranho isso porque os shows do Banga são sensacionais, super animados, poderosos, apesar de escassos. E passar esse punch de show para CD acabou se tornando uma tarefa complicadíssima, que nem a ótima produção de Chico Neves conseguiu por completo. As seis faixas e algumas dezenas de minutos de “Vira Lata” tem seus altos e baixos, como a excelente “Pare” e a fraca “Ciranda Nova”. A conhecida “Baile da Pesada”, já gravada por Fernanda Abreu, é interessante e poderia ser o carro-chefe do álbum, mas não decola. Mandar bem o Banga mandou, mas sua hora ainda não chegou. Quem sabe quando rolar um disco gravado ao vivo, com mais músicas, o baile possa esquentar de verdade.

Já o Jimi James foi a banda que, com o seu “Não Feche os Olhos”, se aproximou mais da sonoridade ao vivo. O experiente produtor Rafael Ramos conseguiu fazer um disco coeso, pronto para atingir as camadas mais jovens, a mesma que venera artistas como Pitty e CPM 22. Talvez este tipo de público esteja pronto para músicas como “Na Cabeça Confusão”, que abre o disco como um inspirado arrasa-quarteirão, assim como a já (bem) tocada “Um Dia de Paz”, a melhor do álbum.

Provavelmente a artista que criou a maior expectativa no lançamento do disco foi de fato Thalma de Freitas. Depois de uma arrebatadora apresentação no HPP, quando contou com a mesma banda que gravou este CD (Laércio de Freitas, Bebeto e Wilson das Neves), a (linda) atriz fez um disco sonolento, com espasmos de criatividade. Ótima intérprete, Thalma também entrou no bolo do “ao vivo é melhor”. Sua voz no CD nem de longe mostra o vigor que ela tem ao vivo, uma pena. Mas o disco se salva quando é ouvido no intuito de relaxar. As melodias precisas das músicas “Tranqüilo” (de Kassin, que junto com Berna Ceppas produz o álbum) e “O Samba Taí” (de Seu Jorge) fazem repousar com um sorriso no rosto o mais durão dos críticos. Tenho certeza de que o próximo disco da Thalma vai explodir.

China também criou uma grande expectativa para seu début “Um Só”. O ex-integrante do lendário Sheik Tosado contou com a produção de Dado Villa-Lobos e pariu um disco ok para uma estréia - isso sem comparar com um único CD do Sheik, bem superior. O recifense adaptou o seu som característico mangue ao frescor da bossa nova e se deu bem, principalmente por contar com uma banda que tem Rafael Crespo, excelente guitarrista. É Rafael que segura a onda e faz de “Ultravioleta” um clássico instantâneo. “Ainda Esquento o Barracão” e “Um Só” mostram a real de China, que é a saída do conceito carangüejo de Recife para explodir para o Brasil como um cantor pop n’roll. Se formos pelo lado da eficácia de sua voz, ele vai ter que ralar para deixar de lado o sotaque carregado. Nos shows, China destila a sua raiva e explode com o corpo. No disco, apesar de bem interessante, ele também não consegue, mas tem o mérito de ser o melhor entre os artistas escolhidos por Bruno. Mesmo assim, “Um Só” não consegue chegar perto de “Nadadenovo”, dos conterrâneos do Mombojó.

Links Úteis :

www.selocardume.com.br
www.jimijames.com.br
www.somdomangue.com.br/china
www.afilhadomaestro.blogger.com.br