Voltar ao Circo Voador é relembrar tempos de juventude, amigos eternos e noitadas sem fim. Mas logo na entrada deste novo Circo Voador é possível notar que muita coisa mudou desde que ele foi fechado há oito anos. Os operários ainda davam os últimos retoques quando a imprensa teve acesso às instalações. O ambiente clean, projetado nos mínimos detalhes, apontando para noites extremamente organizadas, deve deixar um gosto de nostalgia nos velhos freqüentadores. Afinal, a história do lugar sempre esteve associada à improvisação e à espontaneidade.

Ele chegou em 1982 depois de ter sido despejado pela polícia da praia do Arpoador. O barulho já era a razão da polêmica. Essa foi a desculpa usada em 1996 pelo então prefeito César Maia para fechar o local. No fundo, uma retaliação pelo fato de seu pupilo e eleito sucessor Luiz Paulo Conde ter sido vaiado pelo público que assistia ao show do Ratos de Porão. Conde, então no conservador PFL, por mais incrível que pareça, queria comemorar a vitória na eleição municipal daquele ano ao som de... João Gordo. Os dois políticos brigaram e, para voltar ao cargo, César Maia prometeu reabrir o espaço; mais do que isso, sancionou uma lei que reconheceu o Circo Voador
como patrimônio cultural e ainda destinou R$2 milhões para a reconstrução. De lá para cá vieram os projetos, as obras que se arrastaram por três anos e também uma briga judicial da qual pouca gente fala.

Quatro anos depois do fechamento, Perfeito Fortuna, um dos antigos proprietários, registrou o nome Circo Voador na justiça. Ele é o idealizador da Fundição Progresso, um prédio cedido pelo Governo do Estado que recebeu verba do BNDES para criar no local, ao lado dos arcos da Lapa, um grandioso projeto cultural que não foi adiante. Fortuna chegou a participar com Maria Juçá, atual administradora do Circo, de uma manifestação pela reabertura da mítica lona - os dois trabalharam juntos por vinte e dois anos - mas durante todo o tempo se mostrou contra o projeto de reconstrução do espaço. A razão? "Um ataque de tolice", disse a própria Juçá na coletiva.

Desavenças à parte, vamos às novidades. Quem procurar as antigas estruturas tubulares com assentos de madeira vai ter que voltar para casa atrás de fotos de arquivo. O palco de 12m x 7,8m, a pista e as arquibancadas são de tábua corrida. Os que foram em outubro de 1988 ver The Wailers talvez nem saibam que ali estavam seis mil pessoas, a maior bilheteria da história do Circo. Definitivamente, tal cena não vai se repetir. A capacidade foi reduzida para mil e duzentos lugares. Curioso foi ver seis ventiladores gigantes no alto - seriam "exaustores de marola" ? Enfim, tem acústica de primeiro mundo (feita em matelassê de lonas e lã de rocha), praça de
alimentação, um mega telão do lado de fora, iluminação cuidadosamente planejada, programação a cargo de 18 produtores, vai abrir espaço para a música eletrônica...

Sei não. É inegável que o Circo Voador ganhou um banho de loja. Resta saber se ele vai continuar com o mesmo charme de antes.

http://www.circovoador.com.br/


A aguardada pré-estréia do Circo Voador, além do "esquentando os tamborins" oficial, foi também um teste para as novas lonas: a chuva que insistiu em cair a noite toda atrapalhou um pouco (as encharcadas mesas da praça de alimentação que o digam) mas nem de longe tirou da galera a alegria e o clima nostálgico de poder pisar novamente no clássico picadeiro musical.

O público, variando desde coroas descolados a jovenzinhos nem tanto, apresentava um considerável contingente de pseudo-vikings, infelizmente mais interessados em digladiar-se por uma latinha de cerveja grátis do que em curtir um som. Som este que, por sua vez, não fez nem um pouco feio: o novo equipamento realmente esculacha e, aliado à nova estrutura acústica do local, não vaza pela Lapa inteira como antigamente.

A programação da noite de "pré-estréia" (achei que isso só existia nos cinemas) representou bem a diversidade musical característica do Circo Voador. Assim que cheguei lá, o guerreiro imortal Lobão estava se despedindo da galera. Seguindo o coiote do rock, foi a vez da Blitz saudar o público com todos aqueles hits que eles tocam há uns vinte anos... e que ninguém se cansa de cantar. A banda capitaneada pelo tricolor Evandro Mesquita mostrou sua nova formação, com destaque para as beldades Andréa e Luciana auxiliando nos vocais. Para completar o quadro, Arnaldo Brandão e Lobão se juntaram ao barco no baixo e na bateria, respectivamente.

Encerrado o "momento retrô" da noite, o palco do novo Circo Voador deu lugar ao som das novas bandas, começando pelos paulistas do República Djou, que apresentou um rock farofeiro sem muita personalidade e não empolgou muito o público, que por sua vez preferiu voltar para a guerra da cerveja ou encarar a fila do acarajé. Na seqüência, uma boa surpresa: a banda de rock-cogumelo Fazenda Modelo encarou com coragem a massa que se aglomerou em frente ao palco para se proteger da chuva e fez bonito. Com um som inspirado em Raul Seixas (que mereceu até uma cover) e nos contemporâneos Baia & Rockboys, a banda contou com a animação dos desafinados-mas-divertidos vocalistas Dudu e Pedro e com a virtuose do guitarrista Papel, fazendo com que a galera se acabasse em merecidos aplausos ao longo de todo o show.

A galera do reggae sempre foi muito bem representada no Circo Voador, e não só pelo odor jamaicano característico no ambiente - quem estava na clássica apresentação do The Wailers em 1988 sabe bem como é. Ficou, então, a cargo
da cultuada banda Natiruts a responsabilidade de encerrar a brincadeira, com
muita "good vibrations" e a promessa de um novo começo.

O que esperar do novo Circo Voador é uma pergunta que só o tempo responderá... o espaço símbolo dos diferentes estilos musicais do Rio de Janeiro continuará democrático e aberto a novas experiências? Ou será apenas mais uma vítima da enlouquecida política municipal da Cidade Maravilhosa? É esperar para ver.