POR JOANA COCCARELLI

Se eu estivesse sozinha em Barcelona, bem que curtiria as noites dançantes do Sónar. Diz-se que a edição brasileira do badalado festival espanhol, trazido ao país pela Nokia através de seu pacote Nokia Trends, teve muito em comum com o original, mas... I passed . Eu sou carioca e meu namorado é paulista. Uma vez em São Paulo, a saudade faz o quarto dele ser mil vezes mais atraente do que um set de Laurent Garnier - mesmo este que, na Bunker Rave de 2001, me deu uma das mais belas experiências em pista de dança. De modo que me absterei de falar sobre a ferveção do Credicard Hall. Mas o meu namorado, ele é músico, sempre envolvido em performances multiarte, eventos multimídia e oficinas musicais experimentais, e acordou no sábado cheio de intenções pela exposição de arte digital e shows diurnos do Sónar.

Era olhar para o Instituto Tomie Otake, com sua arrojada fachada ondulada e interior amplo, e jurar que a tarde seria promissora. Entretanto o edifício revelou-se a grande metáfora das atrações que aconteciam lá dentro: embalagem interessante, conteúdo raso - apesar do bom número de salas ativas. Cheio, mas superficial. Telões, monitores, capacetes e geringonças afins gerando efeitos comandados por telefones celulares... Nokia. Para cada bom videoclipe da sala de cinema, dois eram risíveis (hip-hop japonês é de lascar!). As bandas e DJs, alardeados como "tendência" pela organização, com poucas exceções, repetiam a mesma ladainha "independente/ alternativa" de sempre, o público apático diante das caixas de som.

Com exceção das lâmpadas dos canadenses Artificiel e da projeção Banho Turco, da dupla brasileira de DJs Tetine, o resto era inconsistente. Nada que te faça sair com aquela sensação de que viu algo que fez a diferença, típica das boas exposições, dos shows memoráveis. Tiveram a coragem de trazer o britânico Sodaplay, um passatempo geométrico que está há pelo menos dois anos na internet para entreter nossos dias vadios. Não era à toa que os lugares mais animados eram o bar, os corredores e saguões. A social, quem diria, foi o grande hype do Sónar diurno.

Mas o que se poderia esperar? A Nokia é uma corporação . Não está fazendo seu Sónar/Nokia Trends pela arte, mas para seduzir seus potenciais consumidores. A racionália adotada (e típica) é a de que, em se tratando de massa, não dá pra horrorizar muito, meter uma vanguarda, rebuscar. Como o próprio diretor de marketing da Nokia declarou em coletiva para a imprensa, "não sou um especialista em música eletrônica, nosso negócio é telefones celulares". Então eles contratam gente do meio cultural para cuidar do resto. Mas mesmo a curadoria, responsável pela programação do festival, presumivelmente sensível às inúmeras possibilidades da arte, duvidou que o público-alvo tivesse enzimas para digerir cultura digital mais elaborada. No mínimo, preferiu não arriscar.

No entanto quem já foi numa edição do FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica), que rola todo ano em Sampa e tem uma proposta similar a da programação diurna do Nokia Trends ("música e arte em interação com a tecnologia"), sabe que isto é perfeitamente possível. No ano passado o FILE teve três dias de duração e reuniu DJs, VJs, músicos, atores, bailarinos, artistas multimídia, bandas, cineastas, intelectuais - todo mundo pirando o cabeção, botando fé no ineditismo, fosse na pista, no palco, num telão, numa escultura holográfica ou numa sala de conferência. Teve música concreta, games, instalações interativas, performances exóticas, manifestos em curta-metragem. O público? O mesmíssimo: jovem, classes média-alta e alta, antenado, arrotando atitude - com a diferença que estava visivelmente envolvido com as atrações. Infelizmente só foi ao FILE quem ficou sabendo (evidentemente a divulgação foi muito menor que a da Nokia).

Mesmo considerando o "conservadorismo" da curadoria de eventos de música e arte eletrônica, a exemplo do Sónar/Nokia, minha dúvida é: se o sucesso já estava garantido com o estelar line-up noturno quebrando tudo no Credicard Hall (como o jornalista Marcelo Ferla bem observa, DJs de pista são agentes do entretenimento de massa), e continuará com a apresentação dos Chemical Brothers no Pacaembu em 20 de outubro (Nokia Trends Edição Especial), será mesmo que as salas do Tomie Otake não poderiam ofertar idéias ? Mas nem um pouquinho ?

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Por Luciano Sallun

O evento estava mais preocupado em parecer alternativo do que transmitir arte e criação de mundos.

As instalações, fraquíssimas, visavam a tecnologia e não sua unidade com a arte; visavam a plasticidade e não a expressão. Hoje, com recursos e qualquer idéia, é facílimo produzir o hype; infelizmente, criatividade e suavidade de manisfestação política não estão em pauta. Tava tudo tão cool que ninguém sentia nada.

Um evento com a proposta do Sónar/Nokia Trends poderia ir além. O sentimento comercial, de "vitrine", no Instituto Tomie Otake foi flagrante e desconfortável. Há muita gente produzindo arte tecnológica de conteúdo, realmente intensa. Em termos musicais, que é a minha praia, lembro de música eletrônica realmente experimental (eletroacústica de Flo Menezes); bandas que articulam música étnica com eletrônica (Projeto Cru, Makumba Cyber); instalações sonoras orgânicas (Fernando Sardo, GEM).

Não sou nem um pouco pessimista, mas arte que não passa expressão afirmativa, não busca movimentar a subjetividade e as potências, não passa de plástico. Destes que encapam telefone celular.