Por Joana Coccarelli

Eu olhava para o Kraftwerk no palco do TIM Festival (SP) como se a própria nave alienígena do filme de Robert Wise estivesse aterrissando.

Caros: existe a realidade antes e depois deste show. Se por um lado eu havia sido sugada para uma dimensão paralela onde as alegadas duas horas e vinte de cena significavam a eternidade, por outro estava perfeitamente consciente de que se tratava do auge musical último desta encarnação - aquela epifania que os mais afortunados levam uma vida inteira para ter. Com exceção de "Hymens", o concerto para auto-falantes de Stockhausen veiculado no Festival Internacional de Música Eletroacústica deste ano, jamais houve ópera, festival, DJ, clube, balada, banda de rock, big band, álbum, instrumentista. Nada. Esqueça. Até sexta passada minha jornada pela galáxia da música digital era recreação.

Interpol and Deutsche Bank, FBI and Scotland Yard

Time, travel, communication, entertainment

Computer World

- "Computer World"

A princípio não estou dizendo nada de novo aqui. Ralf Hütter, Florian Schneider, Fritz Hilpert e Henning Schmitz são os Fab Four da eletrônica. O que esperar de um espetáculo encabeçado pelo ícone máximo de um gênero? A cadeia de clímax para a qual nós, público, fomos arrastados, era mais que prevista. Mas havia o fator vanguarda. Desde 1968, pés lavados na música concreta de Pierre Schaeffer, Kraftwerk profetiza nossa atualidade Computer World. Musicalmente, é um manifesto intelectual do homem-máquina: um fluxo sonoro que faz seu cérebro urgir, equacionar, calcular as probabilidades que se camuflam no futuro permanente. Aqueles elegantes senhores da idade de nossos pais, vestindo terno, gravata e camisa vermelha, causaram, na semana passada, igual impacto atômico de trinta anos atrás, quando lançavam seus primeiros álbuns. Ainda possuirão o mesmo poder de fogo daqui a trinta - eis o princípio da atemporalidade do clássico.

Je suis l'opérateur du mini calculateur

Je fais les comptes et les décomptes

Je compose et décompose

En touchant ce bouton-ci

Il joue une petite melodie

- "Mini Calculateur"

A estoicidade do quarteto no palco é análoga a seu proverbial confinamento no lendário estúdio Kling Klang, Alemanha. Laminares como o metal das placas de computador, reclusos em si mesmos. Hütter, o "vocoderlista", movimentou quantidade de músculos ligeiramente maior que seus comparsas - os da face, toda vez que proferia versos tecnológicos. Contrastavam com a metralhadora de imagens do telão, com a aterrorizante mise-en-scéne dos andróides em "The Robots" (Daft Punk é o caralho!), letras em código Morse e com a audiência continuamente delirante.

Tschernobyl - Harrisburgh - Sellafield - Hiroshima

Stopt Radioaktivität

Weil 's um unsere Zukunft geht

Stop Radioaktivität

Für dich und mich im all Entsteht

Strahlentod und Mutation

Durch die Schnelle Kernfusion

- "Radioaktivität"

(Evidentemente sempre há os incríveis otários, que esperavam BOMBAR Kraftwerk como se faz com um DJ padrão. Os ignorantes! Naturalmente, não entenderam que aquele Main Stage era na verdade um museu de história musical onde reinavam os grandes dinossauros-robôs da eletrônica)

Retiraram-se um após o outro, provocando o fim gradual de "Music Non Stop". Desorientadas, eu e minha amiga Flavia cambaleamos para trás de uma parede, tentando recuperar o sentido das coisas enquanto a multidão de quatro mil desarvorados escoava. Minutos depois arriscamos caminhar, ainda catódicas, em direção ao village do Jóquei Clube de São Paulo. Tremíamos de cima a baixo, o plexo solar em autofagia. Naquela noite de TIM, e na seguinte, escutamos um sem-número de pessoas dizendo ter sido o melhor show de suas vidas. Eu inquiria sobre que música, que artista, que espetáculo seria capaz de me tirar de casa depois disso. No bojo da experiência kraftwerkiana mora a ameaça de uma posteridade musicalmente insatisfatória.

No momento eu e meus comparas organizamos uma sessão onde, a exemplo de Dark Side of the Moon e o Mágico de Oz, veicularemos o clássico do expressionismo alemão "Metropolis" (Fritz Lang, 1926, ficção científica) com Kraftwerk. Tive a idéia no ano passado e o resultado foi brilhante.


Por Isabela Alzuguir

Um público extasiado e boquiaberto por mais de duas horas. Esta seria uma boa, porém não suficiente, descrição para a impecável apresentação do quarteto Kraftwerk em São Paulo, calando de uma vez por todas qualquer pessoa que tenha feito pouco caso da escalação do Tim Festival desse ano. No primeiro dia do festival, o grupo alemão (fundado por Ralf Hütter e Florian Schneider) colocou tudo abaixo. Praticamente sem se mover.

Após a famosa introdução da banda com sua música tema (tomada por alguns como uma passagem de som), as cortinas do lotado Tim Stage foram abertas e todos puderam ver os alinhados integrantes do grupo, perfeitamente engravatados e dispostos em quatro plataformas, uma ao lado da outra, tendo em frente um laptop cada. Começava então um incrível show de tecnologia, que concluiu com perfeição a difícil tarefa de unir simetria à emoção.

Atrás do grupo, um enorme telão era tingido de vermelho (cor das camisas dos integrantes) e iniciava-se o hit "The Man Machine", que instantaneamente levou ao delírio os fãs e até mesmo quem não conhecia a banda - na ativa há mais de 3 décadas e responsável pelo surgimento de todas vertentes de música eletrônica que conhecemos atualmente. Num espetáculo de sons e luzes, o Kraftwerk tocou inúmeros clássicos, entre eles "Autobahn," "Trans-Europe Express", "Radioactivity", "Vitamin", "Computerwelt" e as duas versões de "Tour de France". Em sincronia perfeita com cada batida e com o tema das músicas, a mistura de retrô e modernismo projetada no grande telão funcionou como um fantástico mergulho pelo mundo do design alemão - especialmente pela estética de Bauhaus.

Quando as cortinas se fecharam, o público não apresentava sinais de cansaço e não parecia aceitar o fim do longo espetáculo. As cortinas logo se abriram e, no lugar dos músicos, surgiram quatro robôs, com movimentos obviamente duros e limitados, que imitavam os membros do Kraftwerk. Mais uma vez, todo o público ficou boquiaberto. As cortinas se fecharam novamente e os músicos voltaram ao palco, vestidos com roupas negras cobertas por quadriculados vazados, verdes fosforecentes, encerrando o show com "Music Non Stop".

Projetando mensagens de efeito no telão, questionando a tecnologia, instigando a discussão da questão homem X máquina e presentando os fãs com muitos dos maiores clássicos da música eletrônica, o Kraftwerk (nome que significa "força de trabalho") não deixou nada a desejar ao show realizado no Brasil em 1998. Mais uma vez, os alemães, seus computadores e seu "robot pop" conquistaram os corações dos brasileiros.