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Por Joana Coccarelli
É por causa da praia. Você passa o dia inteiro à beira mar, tomando cerveja, jogando bola, rindo com os amigos, olhando as meninas, e nem é preciso ter dinheiro. À noite, exausto, dorme. É por causa da praia. Só pode ser. Afinal, não existe outro motivo para tanta gente boa não vir se apresentar no Rio de Janeiro. Ou demorar tanto. Aqui a noite é sazonal - e até na alta estação, aquela que, calcula-se, vai de novembro a março, tem balada que pega e outra que não pega, mesmo se tratando de coisa fina. Tem madrugada que enche e madrugada vazia. Cabreiros, os donos de bares e casas noturnas hesitam em apostar. Em trazer, em pagar o cachê.
Por essas e por outras é que a banda paulista Pedra Branca, a estrela maior do lounge étnico do país, custou tanto a se apresentar no Rio. Várias cidades disputando a agenda do grupo à tapa, eles loucos para tocar por aqui, e nada. Precisou o núcleo de produção Senses decidir desafiar a nocauteada cena trance carioca com uma festa caprichada para mudar isso - para os chill-outs de eventos de e-music, há quatro anos Pedra Branca é o maior luxo que se pode oferecer. Dardos lançados, acertaram na mosca: várias pessoas trocaram a pista efervecente pelas almofadas e esteiras, o público aplaudiu de pé um sem-número de vezes. No final do show, alguns invadiram o palco para falar com Luciano Sallun, Aquiles Ghirelli e João Ciriaco, tirar fotos com eles.
O mito em torno de Pedra Branca é feito não só da mistura de atmosferas eletrônicas e instrumentos étnicos - cítara, tabla e tanpura indianas, alaúde árabe, udu africano, didgeridoo aborígene, chocalhos indígenas - como também das proverbiais participações especiais que pontuam as apresentações. O sábado 20 de novembro não poderia ter sido mais auspicioso para o espetáculo carioca, já que, por mera coincidência, dois artistas paulistanos de finíssima sintonia com a banda estavam na cidade: o sonoplasta Jorge Peña e a dançarina hindu e do ventre Zuzu Alvarez, que só ficou sabendo do show poucas horas antes. Sincronicidade pouca é bobagem. De qualquer forma o violinista Diego Alfaro, que mora no Rio e é amigo de Sallun, estava de prontidão para garantir o elemento outsider. Mesmo fora de São Paulo, onde o universo de Pedra Branca abraça o circuito off-eletrônico - teatros, casas de shows, festivais de arte multimídia - acabou sendo uma apresentação clássica.
Dentro dos padrões cariocas, Pedra Branca veio para provar que a Senses começou com a ousadia necessária para virar a mesa.
ENQUANTO ISSO, NO FLOOR.
Por Laila Vils
O armazém bomba com o som dark do Parasense. É sua primeira vez no Rio, mas minha cabeça não sai do fetival Trancendence 2003, quando o DJ encerrou lindamente o floor na madrugada de segunda-feira. Tocava para apenas cinqüenta pessoas, todas na vibe celeste de Alto Paraíso, private total. Apreciávamos a lua cheia, gigantesca, que se posicionara ao lado da pista. Foi uma noite mágica.
Desculpem-me o lapso nostálgico, mas são essas pequenas coisas que nos fazem ter certeza de que vale a pena continuar dançando. A despeito das minhas memórias, tudo também ia bem no Armazém 5: os VJs em sintonia, exibindo imagens psicodélicas, kama sutra, mensagens de cidadania e os elementos da filosofia trance - paz, amor, união e respeito. Conscientizar, numa época de distorção de valores, é uma iniciativa muito importante. A decoração, que jamais é um mero detalhe, estava super bem feita... infelizmente são poucas as festas cariocas de peso que investem nisto. É a peça chave, pois além de iluminar o ambiente, é o toque final da viagem.
O projeto israelense Fatali já havia se apresentado duas vezes no Rio de Janeiro mas este foi seu primeiro live PA. Aproveitou para lançar seu CD, empolgou muito a galera, uma ótima performace. Mas a melhor parte mesmo foi de manhã, quando as duas estrelas fizeram uma jam session. Nessa hora, me acabei de dançar, num clima total de festival.
Foi uma festa bem organizada, pensada nos mínimos detalhes. Eles contaram com a ajuda de um engenheiro de som, para melhorar a acústica do armazém. É bom saber que não foi só mais uma festa indoor.
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