Enquanto muitos artistas lançam seus trabalhos pela internet como um novo meio de divulgação, outros ainda lançam seus cds independentes ou através de grandes, médias ou pequenas gravadoras. Ignorando o fato de que muitas pessoas não estão nem aí para lançamentos e baixam músicas (cada vez mais) em programas como o Soulseek ou Kazaa ou até mesmo estão interessadas em músicas ou discos lançados há anos atrás, 4 cds que chegaram no apagar das luzes de 2004 aos meus ouvidos promovendo reações diferentes. Dois deles são de artistas que estão cada vez mais integrados no mercado fonográfico e outros, de forma independente, tentam chegar "lá". Será que conseguem ?

MARCOS VALLE - "CONSTRASTS" (FAR OUT RECORDINGS) Este disco, lançado na Europa e no Japão antes mesmo do que no Brasil, começa muito bem com "Besteiras de Amor", um samba iressistível de Valle com letra de outro expoente da Bossa Nova (também com maior reconhecimento no exterior), Joyce. A partir daí o que se ouve é um apanhado do que de melhor acontece na mente brilhante de Marcos Valle : fortes melodias e sofisticação harmônica aliadas a ritmos que sempre fizeram sua cabeça, como o já citado samba, mais o baião e o funk. A estrela principal deste disco lançado pela Trama arrasa nas 11 faixas que formam "Contrasts" cantando e tocando magistralmente seu violão além de piano acústico, Rhodes, Órgão Hammond e uma irresistível Melodica (mais conhecida por alguns como escaleta).
Mixado pelo DJ inglês Roc Hunter, também produtor do álbum, o disco ganhou bastante com os grooves eletrônicos que o DJ incorporou, como em "Água de Coco", parceria de Valle com seu irmão Paulo Sérgio. As batidas eletrônicas também têm destaque nas faixas bônus: a música "Valeu", outra parceria de Valle com Joyce (ela também canta), é remixada pelos hypados do 4Hero, alçando o tema ao ápice do chamado (lá fora) "Brazilian Beat". As outras duas faixas bônus "Parabéns (Dança do Daniel)" e "Nêga do Balaio" foram remixadas por mais 2 bam-bam-bans no assunto, o DJ Daz-I-Kue e o interessantíssimo projeto belga Buscemi, do produtor Dirk Swartenbroekx, respectivamente.
"Contrasts" foi gravado por Marcos para o selo inglês Far Out Recordings. O trabalho teve uma aceitação absurda lá fora junto com outros dois lançados anteriormente, "Escape" e "Nova Bossa Nova". Sua carreira vem crescendo desde o final da década de 80, quando sua música foi descoberta pela nova geração, principalmente na Europa. Com mais de 20 discos lançados, Valle cada vez mais consolida seu estilo suingado e dançante. "Samba de Verão" ("Summer Samba / So Nice") - recentemente regravada por Bebel Gilberto e que ele compôs em 1966, só perde em popularidade para "Garota de Ipanema" e foi coverizada por meio mundo, de Frank Sinatra a Homer Simpson.

BOSSACUCANOVA - "UMA BATIDA DIFERENTE" (CUCAMONGA) O Bossacucanova chega ao seu terceiro disco melhor do que nunca. O que começou como um projeto de remixes da bossa nova hoje em dia está incorporado á cena mundial como um dos grandes nomes brasileiros que inovam a cada trabalho. "Nosso primeiro disco ("Revisited Classics") foi uma brincadeira, era fazer para ver o que acontecia. Na verdade foi um projeto de remixes de clássicos da bossa nova que acabou dando muito certo lá fora", diz Márcio Menescal, filho de Roberto e responsável pelo baixo, vocais e as programações do Bossa junto com Marcelinho Dalua (scratches) e Alexandre Moreira (teclados).
"O segundo disco ("Brasilidade") foi algo mais amadurecido e contamos com o apoio do meu pai, o que foi essencial. A gente não apenas remixou músicas mas sim reconstruímos algumas em estúdio", diz Márcio. Com este segundo disco eles fizeram uma tour pela Europa, onde tocaram no lendário club londrino Ronnie Scott's : "Foi um show histórico, num lugar super tradicional, onde já tocaram os maiores nomes da música mundial. A gente não sabia o que esperar do show, todo mundo estava nervoso, mas acabou sendo maravilhoso. No final tinha gente dançando em cima da mesa! Foi aí que o meu pai viu que o nosso lance era sério e que estava agradando. Foi emocionante vê-lo tocando lá, um lugar almejado por vários artistas do mundo inteiro." - completa Menescal.
Tocando em vários festivais lá fora, tanto em raves como em eventos de música, o Bossa amadureceu e chegou ao ápice com o terceiro cd lançado este ano pelo selo Cucamonga e distribuído pela Distribuidora Independente. A evolução, como é de praxe no trabalho dos músicos, é ainda maior: "Neste terceiro disco criamos uma bossa nova orgânica e usamos a eletrônica como um meio de difrenciá-la". Em "Uma Batida..." são 4 as faixas escritas pelo trio em parcerias com outros compositores: "Bom Dia" (com Nelson Motta), "Previsão" (com Adriana Calcanhotto), "Just a Samba" (com Celso Fonseca) e "Queria" (com Marcos Valle). Além disso, feras como o Trio Mocotó ("Vai Levando", Orlan Divo (na clássica "Onde Anda Meu Amor"), Bebeto, Zuco 103 e Wilson Simoninha dão charme e credibilidade ao cd. Até Roberto Menescal, que não cantava há anos, soltou a voz na deliciosa  "Feitinha Pro Poeta", de Baden Powell e Lula Freire.
O avanço da bossa do Bossa é tão grande que em dezembro eles participaram de um evento clássico no Canecão (RJ) comemorando o sucesso da bossa nova no mundo ao lado de ícones como Carlos Lyra, Durval Ferreira, João Donato, Johnny Alf, Leny Andrade, Marcos Valle, Os Cariocas, Pery Ribeiro, Miéle e Wanda Sá, além de Roberto Menescal: "A gente nunca vislumbrou tocar com esta galera. O Miéle e o Carlos Lyra viram nosso show na Modern Sound e adoraram nosso som, sentiram a evolução. O importante é que o que fazemos é sempre com o maior respeito aos músicos. A gente mexe nas músicas mas só lançamos se eles aprovarem porque a gente respeita as músicas, os músicos, e não só porque é moderno", sintetiza Márcio.

FUNK U - "NAIPE" (INDEPENDENTE) Elogiado por autoridades no assunto como Nelson Motta, Sandra de Sá, DJ Corello e o mestre Cassiano que, inclusive, é o autor da música "Naipe" que dá nome e abre o cd de estréia dessas caras que estão desde 1995 na estrada mas só agora lançaram seu trabalho, de forma independente: "O Cassiano era um sonho. Alguns amigos em comum indicaram a gente, ele escutou um cd demo, gostou e disse que tinha uma música pra nós gravarmos. Engraçado que a gente chegou lá na casa dele e ele tava todo arrumado, disse que tinha comprado umas cervejas, mas como a gente tinha demorado muito ele tinha tomado tudo!", diz Jorge Aílton (baixista).
A música de trabalho "Festa" sintetiza bem o trabalho da banda, uma soul music brasileira com naipe de metais contemporâneo e bem encaixado, tanto que ela ganha um remix feito por Léo Guimarães no final do cd, mas prefira a versão original. "Livre Pra Viver" também tem um balanço bem bacana, o que os remete a uma geração que busca revitalizar a black music brasileira depois de um hiato nos anos 90: "Nos anos 70 rolava aquele lance do subúrbio, 'black is beautiful!' e nos 80 a black music chegou até as rádios, através de Sandra de Sá e Tim Maia, entre outros", explica o baterista Digão. Completam a banda Marcelo Mattos (voz) e Tuca Alves (guitarra), a mesma formação do início do Funk U. Todos os músicos estão na faixa dos 30 anos e já tocaram com gente como Lulu Santos, Toni Garrido e Sandra de Sá.
Hoje no mesmo patamar de contemporâneos da black music nacional como Seu Jorge, Funk Como Le Gusta e Zé Ricardo, o Funk U busca seu lugar ao sol: "Esse é o nosso cartão de visita, com uma linguagem diferente e que proporciona uma outra identificação de nosso som, que é bem espontâneo. Agradecemos muito a força de DJs como o Tubarão, Corello, o Grandmaster Ney e o Théo Werneck, que sempre deram um gás no nosso trabalho. Estamos também na coletânea 'Sintonia Fina', compilada pelo Nelson Motta e no DVD ao vivo do Zé Ricardo que está saindo agora", completa Jorge.

FRIZZY - "FRIZZY" (INDEPENDENTE) A proposta do Frizzy é bem diferente de Marcos Valle, Bossacucanova e Funk U. Buscando também um lugar ao sol, esta banda carioca de Madureira toca mais pesado. Com uma sonoridade que remete a bandas pop nacionais como Jota Quest e LS Jack, esses garotos conseguem ser melhores e mais autênticos. O peso das guitarras lembra algo perdido entre os riffs de Linkin' Park e outros nomes do nü metal. Sim, eles começaram como uma banda de metal chamada Mordeath.
No cd demo lançado agora, os rapazes abandonaram a identificação de "banda emo" caracterizada por grupos como CPM 22 e emo e se jogam na temática da "solidão adolescente", afinal, os membros da banda ainda não chegaram (ou mal chegaram) aos 20 anos. "Antes das Seis", que fala de amor, assim como a maioria das seis músicas do disquinho, é um rock 'n'roll adolescente com boa levada, deve alegrar algumas fãs. "Teu Abraço" - olha o "amor" aí - remete ao chavão clássico "balada pesadinha" que também agrada aos seguidores do estilo. Formada por Alex Peçanha (vocais, guitarra e principal letrista e arranjador), Zé Roberto no baixo, Michel Araújo nos teclados, Diogo Drummond na percussão, BG nas guitarras e o bom baterista Carlos Negão, o Frizzy pode vir a ter o seu lugar junto ás bandas que vem fazendo sucesso com um estilo semelhante, ou seja, um peso a mais na guitarra, uma letra falando do amor adolescente e muita vontade de sair por aí tocando.