O Abril Pro Rock é mestre em surpreender. Ao completar treze anos, o festival de música pop mais firme do Brasil trouxe bizarrices como a banda-piada Massacration, o one-man-band português Legendary Tiger Man e ótimas novidades do rock nacional, além de abrigar um outro festival dentro de si, o Claro Que È Rock, onde tocou a mega banda indie Placebo. Confira como foram os três dias do Abril Pro Rock 2005.


SEXTA FEIRA, 15: Is Fuckin Hot, Isn´t It?

Na sexta os fãs do Placebo e do Los Hermanos deram ao festival uma visão inusitada, reforçando o mito do eclético. De um lado, garotos maquiados e meninas com asas, saltos e visual totally glam; do outro, estudantes de Ciências Sociais, visual loser e camisas pólo esperando para soletrar todo o repertório dos três CDs do Los Hermanos. No meio, tinha um festival acontecendo, com cinco bandas disputando um lugar confortável no circuito pop-rock-e-outras-coisas-do-Brasil, com direito a tudo o que uma banda mega merece: gravadora, turnê, van, MTV... A Claro patrocinou e deu ares de primeiro mundo ao palco secundário do APR que, apesar de tudo, ainda segue independente, sem apoiar gravadoras - uma prova de resistência no mercado pop do país.

A platéia já ovacionava os cariocas dos Los Hermanos mesmo antes do show. A banda tem público cativo e não precisou fazer nada para que enlouquecesse. Abriram com "Todo Carnaval Tem Seu Fim" e tocaram dezessete músicas dos seus três discos, além de uma do repertório de Maria Rita. Independentes, mas sem deixar de ser mainstream, o LH coleciona fanáticos Brasil afora e parece que Recife é o maior pólo do culto. A banda caminha numa direção radiohediana, onde seus trabalhos atingem uma área impenetrável, longe de críticas. Portanto, adjetivos como "perfeito", "do caralho", "demais" não faltaram para o público que gritava canções como "O Vencedor", "Último Romance" e "Quem Sabe".

A maior expectativa da noite, a banda inglesa Placebo, demorou para entrar, mas os indies que estavam passeando nas tendas de tattoos e quadrinhos já corriam pra aumentar a aglomeração na frente do palco principal. Uma e meia da manhã, ao som de "Taste Man", numa introdução apoteótica, Brian Molko, Steve Hewitt e Stefan Olsdal entram no palco, com jeito de jogo ganho. Até porque no fundo a platéia sofria uma catarse, as feições de todos eram de "o Placebo está aqui". Divulgando seu álbum de singles "One More With Feeling", o grupo só tocou os hits, nada de covers ou surpresas. A única exceção foi o novo arranjo para "36 Degrees" e os efeitos em "Teenage Against". A banda mostrava entusiasmo, com Brian conversando um pouco, "Is fuckin´ hot!" - ele disse, longe de seu habitual abuso. Mas era o baixista Stefan quem mais queria aparecer, dançando, fazendo caras e bocas e dando a maior pinta. No repertório, hinos indie como "Every Me Every You", "Bitter End" e "Nancy Boy". Contudo, tentando parecer fácil, o Placebo decepcionou um pouco os antigos fãs que os acompanham desde o álbum homônimo de 1996. O show ficaria perfeito caso ousasse um pouco mais, fugindo de hits de consagração. Senti falta de covers tipo "Bigmouth Strikes Again" (Smiths), Where´s Is My Mind?" (Pixies) e "I Feel You" (Depêche Mode). Muitos críticos e alguns fãs classificaram o show como morno. Fato é que o grupo viera divulgar uma imagem que cada vez mais se afasta de seus primórdios. A maquiagem ainda está lá, mas o foco alternativo esta cada vez mais longe. Mesmo assim, Brian Molko ainda é o maior ícone glam em atividade e isso está no palco, mesmo assumindo o visual quase-careca. O show foi estonteante, absurdo, mas no final ficou a impressão de que a banda estava seguindo muito à risca uma programação.

SÁBADO,16: "Não Quero Ninguém Parado Nesta Porra!"

Sábado é o tradicional dia de metal, e ainda não consigo chegar a um consenso sobre se esta segmentação é boa ou ruim. De fato, o dia dedicado aos camisa-pretas tem um dos maiores públicos do festival, confirmando Recife como uma das mais sólidas cenas heavy do Brasil.

De Pernambuco veio a Silent Moon com seu peso melódico, nem um pouco preocupada com o desbunde de clichês do gênero. A Silent Moon pegou o público no início do segundo dia, mas muitos não estavam preocupados com eles. Exagero nos solos, a banda não chega a ser um poço de originalidade: segue à risca os mandamentos de seus mestres Angra, Helloween e afins. A Caosphere mostrou um rock mais pesado, destilando influências do Metal mais alternativo como o Slayer. O público vibrou e foi um dos momentos altos antes das big bands chegarem. Um provável renome está chegando no mundo metaleiro do país, pois os pernambucanos não ficam atrás das bandas de heavy metal por aí.

O rock encontrou a resposta mesmo com o show do Dead Fish. Com um apelo MTV fortíssimo, surtiu efeito mais do que esperado nos adolescentes. A banda tem mais de dez anos de estrada mas seu som não cresceu muito. A mistura de hardcore com punk às vezes ganhava um status farofa que diminui a banda. Fizeram um shoe longuíssimo mas o fervor do público era enorme; neste caso, ponto pra eles. Vale destacar a desenvoltura e energia de palco dos caras, que já tinham tocado antes no festival, mas desta vez voltaram consagrados.

O Retrofoguetes estava deslocado neste dia tão pesado. Abriram com "Surf-o-matic" e confundiram o público, que assistia a todo o primor com cara de desconfiança. O surf-noise-music dos caras deram ao festival uma ótima surpresa, foi um dos melhores shows da noite. Mas o povo não se entusiasmou com as guitarras alienígenas do palco 2... muitos que estavam no show do Dead Fish, aguardando a vez de Massacration e/ou não entenderam muito bem a viagem sonora e sem vocais do Retrofoguetes.

O Massacration era a incógnita da noite e fez um dos shows mais bizarros e hilários da história do Festival. Os integrantes do Hermes e Renato levantaram o público e o vocalista Detonator mostrou todo o poder do metal, como diria o próprio. As músicas "Metal Milk Shake" e "Metal Bucetation" fizeram o público cantar em coro. Foi muito curto mas reuniu um dos maiores públicos desde Placebo. A aura cult que o grupo assumiu se confirmou no APR e a banda saiu bastante aplaudida, com rodas de pogo e muito barulho. Ótimo!

O Matanza tentou fazer um excelente show no palco 2, com o vocalista conversando com o público entre quase todas as músicas. Mas a apatia das pessoas e o conseqüente esvaziamento era notório - excetuando a turma perto do palco que fazia roda de pogo, gritava e cantava todas as músicas country-hardcore. Quase sempre relacionadas a birita, as músicas da banda ainda não foram totalmente assimiladas pelos metaleiros. Destaque para os dois singles "Pé Na Porta E Soco na Cara" e "Bom È Quando Faz Mal". A banda ainda se despedia quando desligaram as luzes do palco para a entrada do Shamaan.

O Shamaan é chato, chato. Mas muita, muita gente gosta. O único mérito da banda é conseguir misturar todos os clichês do heavy metal em um mesmo show. O vocalista Andre Matos é irritante, abusa dos agudos e massacra os ouvidos com seu rock melódico que mais parece um Bon Jovi menstruado. Nem o pessoal que descansava as idéias na tenda dos quadrinhos ou no stand dos playboys conseguia se salvar, pois parecia que a banda tocava no volume mais alto pra parecer mais pesado. Céus.

O MQN fez o melhor show do segundo dia. Até melhor que o Sepultura. O próprio demônio entrou no palco quando os caras de Goiana adentram o palco 2. Depois de quase duas intermináveis horas de show do Shamaan, o MQN mostrou que é preciso ter peso e atitude pra fazer um espetáculo de rock de verdade. Mesmo sem muita gente (muitos estavam cansados e preferiram esperar pelo Sepultura), o MQN fez o pavilhão retumbar com seu stoner-rock do inferno em músicas como "Cold Queen".

Acometido pela dor de dente de meu amigo e acompanhante da noite metaleira; e depois de presenciar dois atropelamento seguidos, decidi não assistir o show do Sepultura. Tá bom, eu achava que o dia já tinha acabado depois do MQN, mas o show do Sepultura é uma experiência insólita e necessita de muita preparação.

DOMINGO,17: "Yeah I´LL Be A Cow For You"

Onde está o público? Na última noite do festival, o dia mais variado, o público parecia cansado - considerando os que vieram! Mesmo com platéia reduzida, o dia três teve muitas surpresas, com bandas oscilando entre o tédio e a avalanche total.

A começar pelos paulistanos do Gram. Confesso que não vejo necessidade no Gram - uma banda que tenta ser um brit-pop tristinho e bem-feito mas acaba sendo um filhote de Los Hermanos. O momento-coro veio no hit "Você Pode Ir Na Janela", e a banda ainda tentou evoluir um pouco com covers dos Beatles e do Ira. Admito que fizeram um ótimo show, explícito em sua cara de felicidade. Saíram do Abril pro Rock como uma "promessa".

 A Superoutro, de Pernambuco, mistura estilos tão diversos que fazem a banda ir do abismo pop ao rock virtuoso e tecnicamente perfeito. Chegaram até a empolgar o palco 2, tão morgado naquele domingo. Falando em bandas promissoras de Pernambuco, a Volver já chegou com pinta de comtemplada. Vencedora do Festival Microfonia, que lhe deu o passe para o APR, a Volver começou mostrando que seu pop é uma das coisas mais digeríveis e inteligentes atualmente. Falam de amor como se fossem britânicos mas com pés fincados no retrô rock dos anos 60. Chegaram a citar Del Rey como influência. Muitos detratores a chamam de "a melhor banda gaúcha de Pernambuco"; no entanto, com a comparação com bandas como Cachorro Grande, a Volver tem o apelo Strokes bem menor. Com singles nas rádios, empolgou fãs e não fãs e fez um show que atendeu às expectativas do público e, sobretudo, da banda.

 No quesito bizarro, que não poderia faltar, o português Paulo Furtado fez uma apresentação que misturou jazz, blues e rock dos mais dementes. Ótima novidade para o último dia. Era uma one-man-band, mas mais parecia um circo, tanto eram os aparatos que usava. Lembrava um Jack White enlouquecido ou um Duke Ellington junkie. Estranho! O músico ainda afirmou que a platéia estava compreensiva, mesmo com as milhares de interrogações pairando sobre o palco 1.

No palco 2 veio Daniel Belleza e os Corações em Fúria com seu teatro glam. As músicas não são a melhor representação que teríamos em glitter rock, mas a banda soube mostrar-se livre e desenvolta no palco. Animou a galera cantando músicas de seu primeiro disco, além de uma canção com a participação de Ortinho (ex-Querosene Jacaré), que parecia um tanto deslocado vestido como uma quase-drag. No fundo, a encenação do seu personagem - Daniel Belleza - demora um pouco para engolir. Mas o grupo levou dez no quesito diversão, se bem que Daniel se divertiu bem mais, andando por entre a platéia, tirando a roupa e outras atitudes posers.

 Agora, o prêmio chatice-mor do Festival vai para a banda Mombojó, que inventou de se unir ao Arto Lindsay para fazer um dos shows mais maçantes do dia. Arto e Mombojó foram a pior parceria já vista em palco até hoje. O dinamismo de palco era insosso e a banda pernambucana ainda colaborou com o marasmo tocando músicas inéditas. As mombojetes adoraram tudo mas pediam por hits, que vieram em doses mínimas (apenas quatro), concluindo com a quase clássica "Deixe-se Acreditar". O som bossa-mangue do grupo, que consagrou a banda como uma das melhores novidades do Brasil, teve com Lindsay um ar de "inteligência cult e medonha" que acomete os MPBísticos do país. Pena. Ah, e as músicas novas estavam longe do som lombrado com peso do primeiro disco.

 

DJ Dolores : Aparelhagem fez bonito. Suas apresentações são quase uma experiência antropofágica. Dispersou o público, deixando no centro apenas os apreciadores da banda, que até fizeram uma enorme ciranda. A um show de Dolores é necessário se entregar. A voz de Isaar França cantando de salsa a brega, misturado ao eletrônico sofisticado do DJ fazem do conjunto uma das maiores invenções do estado nos últimos tempos. No entanto, o som de Dolores ainda continua agradando mais aos europeus.

De volta ao palco 2, a banda Leela, da militante indie Bianca Jordhão, teria feito um show melhor se não fosse a penúltima atração da noite. Muitos estavam acabados e os que tinham ido embora preferiram esperar pela Orquestra Manguefônica. O som do Leela ia do pop-Malhação a guitarras punk. Poucos viram Bianca registrar sua alavanca para o mainstream. Mas espere a trilha da novela chegar.

Pra finalizar, a Orquestra Manguefônica recebeu um público fanático por Chico Science. O projeto, que começou em janeiro, visa unir as duas bandas inventoras do mangue: Nação Zumbi e Mundo Livre AS. O show oscilou entre momentos de tédio e muito groove, com Fred Zero 4 tocando músicas arrastadas. Muito do pessoal já tinha ido e ficou a impressão de falta de necessidade para um projeto tão ambicioso. Além disso, o show foi muito longo, o que aumentou o cansaço. Mas a Orquestra mostrou que o Mangue ainda continua bastante atual e assimilável. Ponto.

Por Calvin Curtis
calvincreep@gmail.com