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Esqueça as críticas que o filme está recebendo. Pense em Elizabethtown
como, digamos, uma história contada por um amigo - Cameron Crowe. Ele irá
falar-lhe de Drew Baylor, um jovem projetista de tênis que leva sua empresa
(um simulacro da Nike) a um prejuízo de quase 1 bilhão de dólares. Logo
depois, sua namorada, que trabalha na empresa, lhe dá um pé na bunda. Não
melhora; mais tarde, ele recebe a notícia de que seu pai morreu. Você começa
a se interessar pelo relato; claro, tanta desgraça alheia faz-nos
confortáveis pelo simples motivo de que não aconteceu conosco - e essa é uma
das primeiras lições do filme, proferida por um Alec Baldwin gordo e meio
velho.
Elizabethtown? Uma pequena cidade no interior do Kentucky, a terra do frango
frito de Col. Sanders. É lá que cresceu e morreu o pai de Drew. É para lá
que ele vai, com um terno azul e uma gigantesca vontade de morrer também.
Então, num vôo noturno totalmente vazio a caminho do funeral, Drew conhece
Claire, a aeromoça insuportavelmente dedicada.
A partir desse ponto, personagens e subtramas começam a espocar por todos os
lados. Orlando Bloom, no papel principal, é o urbanóide workaholic sendo
forçado a um choque de realidade com suas raízes: subitamente ele se vê
cercado de tios amalucados, crianças histéricas, primos exóticos - além de
estar hospedado num hotel possuído por um casamento barulhento e
irresistivelmente brega. E não esqueçamos de Kirsten Dunst, vivendo Claire,
uma mulher luminosa e interessada - até demais, em alguns momentos. O herói
fracassado e a garota perfeita formam um casal pós-moderno encontrando-se no
interior do interior; descobrindo-se ao mesmo tempo em que insistem no fato
de que não há nada acontecendo entre eles, e que nada pode acontecer.
A crítica norte-americana vem descendo o malho na película por causa do plot
- ou dos buracos dele, ou dos excessos de subtramas. O filme tem sido
acusado de inconsistente, bagunçado, perdido. Estranharia, não se soubesse
que tais críticos estão acostumados a linearidade e a "redondeza" de scripts
pré-fabricados hollywoodianos; eles nem assistem aos filmes, ficam marcando
cruzinhas em checklists. Em Elizabethtown, nem todos os personagens e ações
se justificam. Muitos deles são apenas elementos de cena, como objetos ou
locações. Não é um filme fechadinho; algumas pontas ficam soltas e podem
irritar os mais obsessivos. Tudo isso é fato.
Mas vamos, relaxe. Quando um amigo lhe conta uma história, ele vai falar de
muitas pessoas que passaram pelo caminho, embora ele não saiba os rumos que
elas tomaram logo adiante. Cenas serão citadas só porque foram inusitadas ou
divertidas, mesmo que não tenham importância vital para a trama. Ele vai
contar tudo isso porque é bom e divertido, não porque tudo se encaixa e
justifica (à moda de witty scripts como Ocean's Eleven). Fãs de blockbusters
e seguidores de Syd Field, o mentor dos roteiros hollywoodianos
pré-fabricados, terão espasmos com os três ou quatro picos de clímax da
película. Afinal, são quase 140 minutos, com andamento e ritmo perfeitos -
aliás, essa é uma das armas secretas do maestro Crowe, que orquestra tantas
histórias e personagens com uma tranqüilidade invisível. Em poucas pausas e
bastante ação, há muitas risadas. A reunião de tipos pitorescos gera humor
em diferentes vertentes. Há o humor involuntário, dos interioranos; há o
escracho do casamento cafona no hotel onde está hospedado; há o humor
cândido e por vezes dolorido dos diálogos afiados que tornaram-se
característicos dos filmes de Crowe.
Além disso, há Susan Sarandon histérica e hilária, dando o show habitual. Há
casas explodindo e um pássaro em chamas. E há a trilha sonora excelente, até
excessiva em alguns momentos (principalmente de troca de cenas com crossfade
entre as músicas, o que passa a impressão de um Top20 MTV sulista e passado
em 1975). É difícil parar de dizer o que "há" na película. Como os demais
filmes do diretor, eles duram até a terceira, quarta vez em que se assiste:
há sempre algo novo e diferente que não havíamos notado na primeira vez.
Um crítico do Charlotte Observer disse que Crowe é daqueles caras que
arrumam a árvore de Natal enchendo com camadas e mais camadas de bolinhas e
luzes e fitas e penduricalhos, até que não se consiga ver a folhagem. A
descrição é perfeita. Tudo é lindo e brilha, mas a planta está lá, sim. Só
que tem que prestar atenção.
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