Por Alexandra Marchi

Escrever sobre um tema tão vasto como este não é tarefa das mais fáceis. Navegando pela internet em busca do alternativo estive diante de inúmeras páginas sobre assuntos diversos e, de acordo com quem bolou o conteúdo de cada uma, alternativos. Encontrei zines alternativos, terapias alternativas, circuitos alternativos, movimentos alternativos, chats alternativos, cultura alternativa... Parece que tudo tem a sua versão "normal" e a "alternativa". Não seriam, as duas, alternativas? Muitas pessoas deixam se levar por meros signos para aplicar este rótulo. De repente você encontra uma menina vestida com roupa da adidas e cabelo verde e logo pensa "essa garota é alternativa". Rodrigo Lariú, produtor do selo de bandas independentes Midsummer Madness, tem uma teoria sobre o uso abusivo do termo. "O alternativo é usado como muleta, por falta de uma definição melhor e até por uma necessidade da mídia de simplificar e às vezes emburrecer tudo. O desgaste tira boa parte de seu significado real mas ao mesmo tempo confere um significado novo, tipo, leigos começarem a chamar tudo de alternativo", afirma.


Érika Palomino, editora de moda da Folha de São Paulo e ícone da cultura clubber, concorda com Rodrigo. "As pessoas precisam criar gavetas para colocar as coisas. Quando elas não sabem direito o que é, jogam logo um alternativo, daí parece resolver tudo...", diz ela, que acredita que o termo está apenas um pouco "encardido". Mesmo assim, ela conta que pensa duas vezes antes de usá-lo.

Quem não conhece a proposta do Midsummer Madness pode até acreditar que se trata de um selo só de bandas alternativas. Rodrigo tem um ponto-de-vista pessoal sobre o assunto. "Não acho que o termo "alternativo" defina as bandas do meu selo. Principalmente porque não considero que alternativo seja um gênero musical como é rock, pop, música clássica, frevo, forró. Embora eu às vezes use o termo, só o faço quando sei que a pessoa com quem estou falando não vai entender outra coisa a não ser que eu diga que é alternativo".

Ainda no contexto musical, o baixista da banda PELVS, Rafael Genu, fala sobre sua banda referindo-se a ela como uma banda alternativa. Não é apenas um rótulo e ele tem várias razões para chegar a esta conclusão. "Seria um contra-senso dizer que uma banda que só toca composições próprias, no máximo uma ou outra cover obscura, canta em inglês, pouco se dirige ao publico, só toca em buracos ou esquemas mambembes e continua assim por quase dez anos tenha uma proposta ou ambição comercial definida", analisa.

Rafael também acredita que o rótulo "alternativo" se adequa bastante ao linguajar coloquial. Se ele tivesse que definir a música alternativa em termos de marketing e negócios, ele a definiria como "rock segmentado". "Independente da política, vejo o alternativo como um mercado auto-suficiente, muito bem manejado. Acontece lá fora, veja o Yo-la-Tengo, o Pavement... E nem precisamos ir muito longe: o sul do Brasil tem uma estrutura muito bem montada para o alternativo. Pelo menos sempre que vamos tocar lá vamos de avião ", brinca.

Deixando toda essa análise de lado, o que é de fato alternativo? Segundo Rodrigo, o "alternativo" deveria ser apenas uma opção, não necessariamente original ou diferente. No caso da noite carioca, existem lugares para todos os gostos. "Mesmo para mim, uma festa do Saddam é alternativa pois não é o tipo de festa que eu normalmente freqüentaria, mas tenho esta opção. O rótulo de "alternativo" depende do ponto de vista de cada pessoa. Assim, existe de tudo um pouco na noite do Rio, do samba ao jazz, do rock ao pop, do funk ao bate-papo".

O "alternativo" pode de fato ter se banalizado e, na cabeça da grande maioria, talvez encontre um sentido cada vez mais confuso. Depois de desgastá-lo ainda mais neste texto, quem sabe não surge por aí o "pós-alternativo", com um sentido altamente novo e diferenciado? Rodrigo até pensa nesta possibilidade, mas com uma única e singular condição. "Só se o Raul Seixas ressuscitar!", ironiza.