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Por Clarisse Cunha Encontrei muita dificuldade em encontrar algo que determinasse o que foi o Baixo Leblon. Parece que o tempo entre seu "término" e os dias de hoje não foram suficientes para documentar esse hábito tão carioca. Como não vivi essa época, contei com a ajuda do Gamba Júnior e sua maravilhosa memória boêmia. Pois bem, dando continuidade ao que chamamos de "história da boêmia carioca", podemos constatar que esta passou por diferentes momentos e influências. Tudo uma questão de moda. Os cariocas acabaram por eleger diferentes ambientes para suas agitações. A geração de 70 fazia muvuca ali no Baixo Leblon. Diagonal, Pizzaria Guanabara, B.B. Lanches, Real Astoria, Jobi, Gatão e Luna foram alguns dos pontos de encontro entre os personagens da época, como os escritores Ana Cristina César e Caio Fernando Abreu. Segundo Gamba Jr., o Baixo representava o convívio de tribos diferentes. Os gays e os mais moderninhos ficavam mais em frente à Pizzaria Guanabara. Do outro lado, no BB Sucos estavam os playboys da época e, às vezes, um ou outro "hell´s angel". O hábito noturno já contava mais fortemente com a presença das mulheres, a boêmia entrava cada vez mais madrugada adentro. O Baixo fazia parte da vida de todos, era ponto de encontro fixo, possibilidade de se (re)encontrar as pessoas a cada dia. Como canta Caetano em "Lua e estrela": "...deixe ao destino, deixe ao acaso. Quem sabe eu te encontro, de noite no Baixo...". O que aconteceu é que, aos poucos, uma parte foi migrando para o Baixo Gávea, o público foi se transformando. De heterogêneo por natureza, o quadrilátero do Leblon passou a abarcar mais o público gay. Continuava sendo balada e motivo para se sair de casa mais cedo e chegar mais tarde. O Luna, por exemplo, era ponto de encontro entre as pessoas antes e depois da noitada na Papagaio (onde atualmente funciona a Méli Mélo), época áurea do dancin´ days. Durou ainda alguns anos, até que o Leblon ficou intransitável com as obras de César Maia. Foi como a gota d´água para um espaço que já vinha minguando. Os gays migraram totalmente para Botafogo, onde fundaram o Baixo Botafogo (na Visconde Silva). Durante algum tempo, quem era GLS só tinha esse ponto como referência (infelizmente, os já tradicionais guetos urbanos). Atualmente, Botafogo divide a coroa com Ipanema (trecho entre a Farme de Amoedo e Teixeira de Mello). Mas o Baixo Leblon realmente acabou. Mesmo depois das obras do Rio Cidade, as pessoas não voltaram para lá. Os ícones do lugar estavam se esvairam. No lugar do Real Astoria foi tomado pelo Pizza Inn. A Diagonal Grill não tinha mais o barzinho da varanda. Não se tomava mais tanto chopp na rua. A Pizzaria Guanabara deixou de ser point. É claro que o Baixo ainda existe e tem muita gente que não abre mão do que o lugar oferece entre pizzas e sucos. Mas o mito Baixo Leblon acabou, perdeu o charme do espaço com seu novo público. Com certeza ficou na lembrança de muita gente, participou de muito movimento, espalhou frutos para todos os lados. Firmou um jeito carioca de ser boêmio. »»»
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