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Por Clarisse Cunha Não podia ser sem paradoxos próprios. Uns amam, outros odeiam, mas estão todos sempre lá. Todos têm histórias e memória naquelas esquinas tronchas, naquela mistura aconchegante de gente. Gente conhecida, gente esquecida, gente desmedida. José Almino, escritor de "Baixo Gávea - diário de um morador", da coleção Cantos do Rio (Relume), fala de "lugares que não são lugares, mas estados de espíritos", e eu entendo o Baixo muito por aí. Um lugar que se vai de forma descomprometida. O "sair e tomar um chopp" do carioca que é um hábito sem dia e sem lei. Toda hora é hora de refrescar a garganta e as idéias. E, sem dúvida, o BG não podia deixar de ser um dos lugares mais simpáticos e ecléticos do Rio. Quando perguntamos sobre o ícone Baixo Gávea, encontramos desde os ainda adeptos até os nostálgicos, passando pelos indignados com a realidade atual. Mas praticamente todos tem uma opinião formada sobre este ponto de encontro. Acho difícil achar alguém que seja indiferente. Para os que não dispensam por nada, o Baixo é invariavelmente um lugar para se "sair, tomar um chope, comer uma pizza e falar besteira" com tranqüilidade como afirma Daniela, 24 anos. Essa espécie de identidade com o ambiente é coisa comum no Rio, entre uma juventude que não ignora o chamado da lua. O BG virou símbolo de uma noite tradicional e estável, uma referência, o lugar onde as notícias circulam. E mais, não só onde as pessoas se encontram, mas também onde as filosofias de mesa se fazem possíveis. É que o Baixo cumpre direitinho seu papel na vida da cidade. Luis Buñuel, figura inquietante da história do cinema, já pensava no bar como um "local de meditação e de recolhimento, sem o qual a vida é inconcebível". Ele faz um contraponto com o café que seria o entra e sai de opiniões, o debater, o compartilhar. O bar seria um "exercício de solidão". Mas os dois ambientes seriam aptos à reflexão, produção e divagação da vida, seja na mesa do bar, seja no café. Dessa forma, o Baixo Gávea compõe, paradoxalmente, esses dois conceitos. Multidão e solidão. Nada mais natural, se o momento que vivemos é de questionamento, que a gente faça parte de um ambiente tão cheio de idiossincrasias. Vai ver é por isso que um monte de gente acha o quadrilátero no coração da Gávea confuso. Laura, 19 anos, afirma que são "muitos carros brigando com os freqüentadores por espaço, cerveja quente e pessoas misturadas sem saber o que fazem lá". Para ela um problema, para outros, exatamente a solução. Ana Paula, 26 anos, recorda do "ponto de encontro entre as pessoas mais legais da cidade. Pessoas que você conhecia de todos os lugares e que nem imaginava que se conheciam entre si. Uma grande 'cidade pequena'. A cada passo, um abraço apertado em alguém." Apenas recordação, como declarou André, 31 anos, "Do meu BG só sobrou o Hipódromo, Hipódromo que é o céu na terra". A despeito de tanta história, o Baixo entrou em um período de vacas magras. Desde que o prefeito Conde cedeu aos apelos da Associação de Moradores com seus abaixo-assinados, os habitués começaram a migrar para outros cantos do Rio. Os moradores não agüentavam mais as noites de tormenta e burburinho com filas duplas de veículos ignorando as entradas das garagens, ambulantes, flanelinhas e brigas entre os jovens. Com base na Lei Orgânica do Município (que alega que o poder público tem o direito de limitar o horário de estabelecimentos que interfiram na tranqüilidade dos moradores) 1 hora da manhã passou a ser o horário limite dos bares. Seria isso um atentado à boêmia? Uma questão que deixo no ar. »»»
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