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Por Fernando Puga Malandragem era, na mitologia da cidade, a capacidade de levar a vida sem trabalhar e com malícia. O malandro vestia-se impecavelmente, circulava com desenvoltura pela noite e, nas palavras de Moreira da Silva, "quando morria, era por amor de uma mulher". João Francisco dos Santos nasceu em Glória do Goitá, em Pernambuco, "terra em que se dá 100 cruzeiros por um cabresto e não se dá 10 por um cavalo". Em 1907, mudou-se para o Rio, mais especificamente na Rua Moares e Vale 27, na Lapa. Analfabeto, ele aprendeu a profissão de cozinheiro e se tornou especialista em pratos do norte. Mas foi com os bambas da cidade que sua fama de malandro valente se espalharia. Não havia alma que não tremesse ao ouvir o nome de Madame Satã - um pretão alto, de quase dois metros de altura, homossexual. O apelido surgiu em 1938, no Bloco Caçador de Veados, mais tarde Caçador da Floresta. João Francisco se apresentou com a fantasia de Madame Satã, no Teatro República, e ganhou o primeiro lugar: "Levei um tapete de mesa e um rádio Emerson, feito um barzinho, ele abria do lado, assim, feito uma portinha", disse ele em entrevista ao Pasquim, em 71. Além de 29 processos (19 absolvições e 10 condenações), sendo três por homicídio, ele, como todo mito, carrega nas costas histórias lendárias como a de que teria derrotado - na base de navalhadas e pernadas, como todo bom malandro - uma tropa inteira de "chaupezinhos vermelhos", polícia especial criada por Getúlio Vargas no Estado Novo. Uma dessas histórias envolve outro deus do olimpo da malandragem carioca, o compositor Geraldo Pereira. O autor de "Escurinho" morreu no dia 8 de maio de 55 e causa mortis foi uma hemorragia intestinal reincidente, como um bom malandro que só morre de amor. Na entrevista ao Pasquim, Madame Satã esclarece seu envolvimento com o caso: - Eu entrei no Capela e estava sentado tomando um chope. Ele chegou com uma amante dele, pediu dois chopes e sentou do meu lado. Aí, tomou uns goles do chope dele e cismou que eu tinha que tomar o chope dele e ele que tomar o meu copo, e eu disse pra ele: "olha, esse copo é meu". Aí, ele achou que aquele copo era dele e não era o meu. Então eu peguei meu copo e levei pra minha mesa. Aí, ele levantou e chamou pra briga. Disse uma porção de desagoros, uma porção de palavras "obicênias", eu nem sei dizer essas coisas. Aí, eu perdi a paciência, dei um soco nele: caiu com a cabeça no meio-fio e morreu. Mas ele morreu por desleixo do médico, porque foi pra assistência ainda vivo. É quase certo que Satã - um fantasioso dos bons - tenha carregado um pouco nessa história, bem como nas demais que cercam sua figura. Mas, de que vale a última nuvem que sobra para a sempre irrecuperável realidade dos deuses?
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