Os anos 80 e o Crepúsculo de Cubatão (por Gamba Junior)

O escritor Douglas Coupland criou, muito sinteticamente, o termo "Geração X" para descrever a galera que nos anos 80 definia uma estética muito particular, que ia além da compulsão pelas óculos espelhados.

Se nos dias de hoje os Yuppies passaram a ser chamados de mauricinhos, de uma forma ou de outra eles já conheciam este vai e vem de classificações. Eles foram os responsáveis pela criação do pejorativo Hiponga para denominar os Hippies, ou o doloroso Promiscuidade para a já antiga liberdade sexual.

 

E o vocabulário era apenas um sintoma. A geração que armou os anos oitenta com muito gel e ombreiras, mexeu mais com os valores do ocidente do que pode dizer um catálogo da Gregório Faganello. Ao lado dos Yuppies, New waves e Darks preenchiam a noite com tribos que tinham em comum um certo ceticismo com a palavra "ideologia". O dito fim do comunismo, com a queda do muro de Berlim e a desestruturação do império Soviético, encheram estes jovens de uma paixão inusitada pelo capitalismo. Consumo era a palavra de ordem, e junto com ela, uma nova noção de bem estar que envolvia dinheiro, muito dinheiro!

Surge o primeiro paciente de AIDS em 1981, mostrando ao mundo uma doença que deixaria um rastro de dor e muito preconceito, e modificaria, definitivamente, (ou pelo menos até a próxima geração) os hábitos sexuais. Voltou-se a falar de virgindade, e o homossexualismo invadiu as salas-de-estar mais conservadoras através dos noticiários, filmes e debates sensacionalistas. A Liberdade Sexual passa a ser assassina e o individualismo assume ares de salvação.

No Brasil, a abertura política e a volta dos exilados enche o país de esperança e substitui vocações ideológicas por raciocínios mercadológicos. Com o fim da ditadura militar, não havia mais um inimigo senão a crise econômica.

Mas nem tudo era de plástico! O cenário New Wave, com cores ácidas e resgate dos anos 50, serviu também para enquadrar uma geração mais empreendedora, responsável pela concretização efetiva de questões que antes cabiam em uma frase bordada num bolso de calça jeans. A ecologia assume ares empresariais, envolvendo governos e empresas de todo mundo, acarretando em medidas práticas como legislações e alternativas econômicas de produção. As ONGs institucionalizaram no país a participação da comunidade em interesses que não foram resolvidos por anos de centralização, e o Marketing se alia a causas antes impensáveis, como os direitos humanos, AIDS e a própria ecologia.

CREPÚSCULO DE CUBATÃO

Em um contexto de rejeição ao conceito de ideologia vigente (o que inevitavelmente já levava a uma ideologia), a estética das tribos que havia criado nos anos 50 os rebeldes de jaqueta de couro, nos anos 60 os Hiippies e nos anos 70 os Punks e Glitters, ganha ares profissionais nos anos oitenta, sem muita preocupação em estar ou não sendo discriminador, ou de ter alguma justificativa, além da estética, para a segmentação. Espelhando-se na publicidade, casas noturnas, points, e até trechos na praia, eram divididos como target com o objetivo de deixar bem claro qual era sua onda, ainda que todas fossem perpassadas pela incólume ombreira.

É assim que surge um perfil muito particular de "door woman", a responsável por zelar pela estética homogênea da freqüência de uma determinada casa noturna. Um ícone deste movimento é o Crepúsculo de Cubatão onde, para entrar, tinha que saber se comportar como um dark - muita roupa preta, camafeus, coturnos, e pancake para os que tivessem cometido o erro de se bronzear durante o dia. É neste Crepúsculo que acontece uma história exemplar desta cultura.

Entre as "door women" que o Crepúsculo conheceu, Patrícia Puretz foi responsável por uma passagem hilária onde barrou a entrada, como de costume, de um gringo ostentando camisa florida. Sem saber que se tratava de um dos sócios da casa, Patrícia não deu ouvidos às explicações do dono da casa, que só foi liberado quando o segurança alertou Patrícia da situação.

Após o esclarecimento, Patrícia se desculpou, mas foi surpreendida ao ser elogiada pelo proprietário, que gostou de ver que ela cumpria com muito profissionalismo sua função. Afinal, na segmentada vida noturna e, no mais segmentado ainda anos 80, era deste perfil que dependia o sucesso da casa.