Por Fernando Coelho |
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Catedraticamente,
podemos definir fetiche como utilização de objetos inanimados
como estímulo da excitação e da satisfação sexual. Na maioria
dos casos, são prolongamentos do corpo, como por exemplo roupas
e calçados. Outros exemplos comuns dizem respeito a uma textura
particular, como a borracha, o plástico ou o couro. Os objetos
fetiches variam na sua importância de um indivíduo para o
outro. Em certos casos servem simplesmente para reforçar a
excitação sexual, atingida por condições normais, como pedir
a seu parceiro que vista uma dada roupa, ou mesmo o exibicionismo
e o voyerismo.
Alguns
estudiosos afirmam que o fetiche deriva-se diretamente da
primeira infância, em que a criança com poucos meses atenua
a angústia da separação da mãe com presença de um objeto,
por exemplo o ursinho de pelúcia, travesseiro, cobertor. Nesse
caso, o adulto não teria aprendido a mudar o objeto de amor
e viver em sociedade. Dizem também que o fetichista tem sentimento
de culpa e de inferioridade sexual, portanto se apega obstinadamente
ao fetiche para ter certeza de que não vai falhar.
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Mas,
há quem diga que definir é restrigir. E restrigir o sexo -
e suas peculiaridades - é restrigir a vida. Pois bem. Os chineses
são loucos por um pezinho. Lá, a prática de amarrar os pés
para provocar atrofia beira um semifetichismo cultural. A
literatura erótica chinesa contém relatos de homens acariciando,
beijando e lambendo pés atrofiados. O pé "lotus dourado" de
oito centímetros era celebrado como ideal erótico: "Olhe para
eles na palma da sua mão" escreveu o poeta Sung, "tão maravilhosamente
pequenos que desafiam a descrição".
Algumas
teorias dizem serem raras as mulheres fetichistas. Associa-se
o fato da supremacia masculina ao costume precoce de tirar
prazer do sexo a e ao hábito da pornografia (é comum se maturbarem
ao olhar imagens, por exemplo). Enquanto os homens pensam
mais facilmente em sexo sem a mulher, as mesmas se condicionaram
a associar prazer sexual com relacionamento amoroso. Os novos
tempos e a liberdade sexual prometeriam, então, injetar uma
dose de fetichismo na vida feminina. Esses teóricos, porém,
parecem desconhecer um fato.
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Num
determinado momento da História, o culto do órgão sexual masculino
como reservatório do poder criador tornou-se universal. O
pênis passou a ser objeto de adoração e fé religiosa. Em alguns
antigos templos dedicados a divindades fálicas, o deus esculpido
em madeira era visitado com tanta freqüência por mulheres
estéreis e esperançosas, que o pênis se desgastava pelo manuseio,
pelos beijos, fricções e sucções a que era submetido. Para
solucionar o problema, os sacerdotes fabricavam um falo muito
comprido, que emergia de um orifício entre as coxas do deus.
Quando a ponta se desgastava, os padres davam algumas marteladas
por trás da estátua, empurrando o órgão para fora. Será que
isso já não era um fetiche?
Existe
uma prática muito pouco comum chamada pigmalionismo, que é
relacionada a atração sexual por estátuas. Na Grécia Antiga,
um homem profanou um templo dedicado a Afrodite ao tentar
manter relações com a estátua da deusa.
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Mais
recentemente, um tipo de pigmalionismo foi registrado no Koryak,
na Sibéria. Aparentemente alguns homens dormem com pedras,
as quais chamam de suas esposas.
Entre
os mais lendários fetiches, está a necrofilia. Apesar da ampla
pesquisa de Alfred Kinsey sobre comportamento sexual, o americano
jamais encontrou uma pessoa que pudesse considerar como verdadeiramente
necrófila. Os antropólogos raramente mencionam o tema quando
abordam as sociedades estudadas, porém, quando é relatada,
a necrofilia é quase sempre restrita ao sexo masculino.
A
mais antiga referência à necrofilia aparece no relato de Heródoto
da mumificação no Antigo Egito. Ele observou que os corpos
das mulheres belas ou ilustres não eram imediatamente entregues
aos embalsamadores, devido ao temor de que pudessem ser violados.
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Embalsamadores
e agentes funerários têm sido ocasionalmente chamados de alcoviteiros
dos mortos, mesmo fora do Egito. Patrícia Bosworth, biógrafa
de Montgomery Clift, afirma que o ator conhecia um cirurgião
plástico e aborteiro ilegal que, no início da década de 60,
"fornecia cadáveres para um notório salão funerário na Sexta
Avenida. Por cinqüenta dólares podia-se ter relações sexuais
com um cadáver".
O
fetichismo só começa a ficar perigoso quando passa a comprometer
a saúde sexual, impossibilitando qualquer prazer obtido de
outras maneiras. Isso pode acabar gerando algumas incertezas
quanto a identidade ou a orientação sexual. Entretanto, em
doses certas, o fetichismo é absolutamente natural. Afinal,
vale tudo entre quatro paredes... mesmo se elas nem existirem.
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