Por Camila Dalbem
Arroz com camarões ou não, qualquer coisa que se vá ingerir deve ser criada à base de bons temperos e ingredientes frescos. Eu sou um expert. Verifique se há espaço suficiente para que todo o necessário esteja ao seu alcance, às vezes não há tempo para buscar o que está longe. Luísa está correndo no calçadão, a pele bronzeada com marca de macacãozinho de lycra. Comece pelo molho, que pode ser feito até um dia antes. Pegue uma panela de ferro e coloque cinco colheres de sopa de azeite. Assim que o azeite estiver quente, coloque uma cebola grande cortada em cubos e espere que ela comece a dourar, pois só assim seu gosto passará para a comida. Então adicione três dentes de alho moídos, meio pimentão picado, salsa a gosto e uma colher de sopa de molho inglês. Antes que comecem a queimar (ouça o chiar dos ingredientes na panela), junte dois tomates sem pele e, em seguida, algum tempero comum de sua preferência. Quando o tomate começar a formar um molho, coloque uma pimenta vermelha e sal. Baixe o fogo e espere bebendo um bom vinho, mexendo de vez em quando e pensando que em breve Luísa estará sentindo o cheiro da pimenta, da cebola e do alho.
Luísa não gosta de ter cabelos loiros, então tem cabelos castanhos, quase loiros. Luísa não bebe vinho. Eu não sou um homem convincente. Provavelmente, se Luísa não beber vinho, nunca conseguirei vê-la deitada, com a marquinha do macacão de lycra, sobre os lençóis azuis. Luísa até já cheirou Miolo e vinho de boteco, mas ela usa um coque preso por uma redezinha e saia abaixo do joelho quando entra na minha casa.
O sol está se pondo. Uma nuvem cor-de-laranja parou em cima da minha janela, e de repente já é noite e ela ainda está ali, cor-de-laranja. O molho já está frio e a campainha toca pela segunda vez. Abro a porta. Oi, Luísa. Ela nunca responde quando eu falo o seu nome. Senta aqui. Coloco dois copos sobre a mesa à frente dela e encho de vinho até transbordar. As pernas de Luísa estão quase cor de carvão, não vou pensar no macacãozinho.
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Em outra panela, coloque cinco colheres de sopa de azeite e aguarde até esquentar. Frite meio quilo de camarão, adicionando apenas um pouco de sal. Cuide para não queimar. Assim que notar que os camarões não estão mais crus, junte o molho. Quando começar a borbulhar, despeje uma xícara de arroz e deixe por aproximadamente um minuto. Por fim, acrescente duas xícaras de água e espere secar. Enquanto isso, Luísa lança uns três olhares que considera provocante. Mas ela não passa de uma bonequinha engraçadinha.
Luísa levanta e caminha pela cozinha, apreciando por dentro meus conhecimentos culinários. Dá umas fungadinhas na panela e sai com os olhos ardendo. Arrisca dizer que não vai comer isso aí. Porque eu não coloco um ingrediente especial, encho o pratinho de Luísa e acabo de uma vez com tudo isso. É claro que ela vai comer. Não entendo essa necessidade de fazer desmoronar a minha última gota de confiança, o meu arroz com camarões. Se ela tentar acabar comigo mais uma vez eu me vingo, juro que não vai sobrar um pedacinho de Luísa pra me atacar. E fim com esses risinhos pseudo-sedutores. Se quiser me seduzir tem que soltar o cabelo, no mínimo. Tem que ter marquinhas de macacão de lycra à mostra. Peitinhos soltos dentro da blusa. E se puder dar uns miados, bem fininhos, ficar de quatro, esfregar o rabinho nas minhas pernas. Isso sim é coisa de gatinha, Luísa.
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18 de Novembro de 2008 09:03