E qual o sentido de tudo isso?

Por Foguinho

- E qual o sentido de tudo isso?
- Não sei. Não tentei entender. Só voltei pra casa a pé pra poder pensar.
- Como de costume.
- É.
- Adiantou?
- Nunca adianta. A verdade é que eu volto a pé pra poder sentir mais frio.
- Inverno e essa chuva nojenta. Não sei se entendo.
- Não entende não. Mas ainda assim é a pessoa que fica mais próxima disso.
- Devo agradecer ou ficar triste?
- Importa?
- Não.
- Quanto tu bebeu?
- Quanto eu consegui pagar.
- E isso significa o que?
- Significa que não perdi meu tempo contando.
- Misturou muita coisa?
- Nem tanto.
- Quem estava lá?
- Todos. Menos eu.
- Como assim?
- Nunca estou lá. Fico sempre no meu canto. Não gosto de falar com eles.
- Então pra que tu vai?
- Porque ela gosta de falar com eles.
- Mas vocês nem mesmo se falam!
- Não tem como falar com ela.
- Por quê? Ela não quer te ver?
- Não. Eu que não quero falar com ela.
- Timidez agora?
- Não. Ela é chata mesmo. E superficial.
- Então por que diabos tu vai pra um lugar que tu odeia só pra ver ela?
- Não sei.
- Sei...
- Tá bom. Acho que até sei. Mas nem eu acho plausível.
- Explica.
- Não quero.
- Tu é um saco mesmo.
- Nem vem.
- Odeio falar contigo pelo telefone.
- E também odeia descer escadas.
- Não gosto de ficar perto de ti quanto tu tá bêbado. Tu já não pensa sóbrio.
- Não vamos discutir quem pensa menos bêbado, não é?
- Tá. Eu mereci essa.
- Eu vou ver ela porque ela é linda. Simplesmente tenho certeza que não verei nada mais perfeito que ela na vida.
- Exagero.
- Tu não viu com teus próprios olhos. E não é uma beleza simples, que possa ser contemplada por fotos. Tem que estar junto com o jeito de andar, se mexer.
- Sei.
- O pior de tudo é que é uma beleza momentânea. Efêmera.
- Como assim.
- Ela não vai ficar tão bela por muito tempo. No máximo por alguns anos, ou mesmo meses. Mas não pode sobreviver por muito tempo ao tempo. E quando o menor traço for mexido pela idade, ela deixará de existir.
- Continua...
- Pois as coisas deixam de existir quando mudam. E ela ainda mais. Pois a beleza dela é única, e tão delicada. Quando ela mudar deixará de ser tudo isso que é agora, e deixará de ser importante. Vai ser esquecida pra sempre. Não existirá mais.
- Bonito. Mas triste.
- Ela vai ser no máximo uma daquelas lembranças que são tão tristes e desesperadas que quando vêm tiram todo o ar dos pulmões de uma só vez. Que são trazidas de volta em segundos, ou por um cheiro, ou por uma música.
- ...
- Mas no caso dela, nem isso será assim. Pois nenhuma memória será capaz de reproduzir aquilo que ela é agora.
- E é por isso...
- Sim. Por isso que eu tento vê-la o máximo de tempo possível. Pois logo não poderei ver mais.
- Que triste.
- Vou desligar. Preciso dormir.
- Mas amanhã é domingo.
- Sempre é.

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