Por Clarisse Cunha
"Quinze contos que demonstram, de maneira simples e direta, a crueldade do homem urbano. Crueldade essa que se resume à essência da monstruosidade humana. Rubem Fonseca foi tão competente em registrar as pulsões de morte presentes em cada um de nós que, o livro não passou pelo crivo do regime militar sendo proibido em 1976.
O conto que dá nome ao livro chega a ser cômico de tão trágico. Três assaltantes são apresentados dentro de seu contexto absurdo. Noite de Ano Novo, o apartamento do tipo 'cafofo', nada para comer, a televisão transmitindo os ricos socialites vestidos de branco indo para festas inesquecíveis. A princípio, os três não têm intenção de fazer nada de especial além de assistir TV e aguardar os restos da macumba para se alimentarem no dia seguinte. No entanto, um assalto a alguma festa se torna inevitável. Como se esta fosse a única saída para aquele momento. E isso não é assustador, mas sim simples e óbvio.
E é desta forma que Rubem Fonseca delineia as atitudes de seus personagens em todos os contos que seguem. Nada é tão assustador quanto parece. As águas que determinam o comportamento confluem em direção às atitudes monstruosas. Assim é o homem, tentando a todo custo suprir suas necessidades básicas, a despeito do outro que, por acaso, passou pelo seu caminho.
Para exemplificar esta afirmação, nada melhor do que os dois contos "Passeio Noturno - Parte I" e "Passeio Noturno - Parte II". Em ambos o personagem principal é um empresário rico, com seu trabalho, sua firma, sua mulher e seus filhos. Tudo ao redor preenchendo seus papéis perfeitos. A máquina (seu carro) preenchendo o papel de engenharia e amiga. Sua maior confidente para cada atitude perversa. Assim, após passar por um cansativo dia de trabalho e sem paciência para conviver com seus familiares, o homem sai para dar seus macabros passeios noturnos. Com toda a impassibilidade do homem moderno.
A falsidade da mídia alimentando a grande mentira que é a realidade na qual vivemos; a violência e a miséria das pessoas que estão ao nosso redor, todo o tempo, mesmo sem percebermos; os advogados, jornalistas, amantes, escritores, empresários... em cada conto situações presentes e conhecidas de nosso dia-a-dia. Como se estivéssemos lendo os monstros sociais da nossa cidade, ou de qualquer outra grande cidade.
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