Morrer

Por Foguinho

Noite. Frio. Uma vela ainda estava acesa. Meu corpo estirado em um sofá de veludo verde escuro. A última garrafa de vinho, que eu bebera já há quatro dias, ainda jazia jogada perto da pequena mesa onde estava a vela, espalhando pelo ar seu cheiro acre de vinho quente.
Na cozinha, a geladeira estava vazia. Tenho impressão que a desliguei já fazem alguns dias. Os copos e os pratos, todos transformados em cacos, formam um tapete cristalino que reflete a pouca luz da vela que chega até ali.
A porta e as janelas seladas com tábuas que preguei na parede. Os pregos e o martelo também estão jogados no chão. Não há como entrar aqui. Tirei o telefone da tomada. Não existe maneira do mundo exterior me alcançar.
Nem mesmo amigos e parentes podem me encontrar aqui. Planejei tudo muito bem. Todos acreditam que estou viajando. Além disso, este apartamento não é o meu. É um apartamento em um prédio vazio, que aluguei inteiro.
Nenhuma luz, com exceção da emitida pela chama da vela, ilumina este lugar. Acho que é a última vela. Não tenho certeza. Perdi a noção do tempo já faz um tempo. Não sei quanto tempo passou desde que me tranquei aqui.. Meu relógio está quebrado em algum lugar da casa. A televisão, que ainda está ligada, no início ainda me mantinha preso à realidade. Mas o entorpecimento causado pelas bebidas e o delírio das drogas logo me fizeram deixar de entender o que acontecia. Aquilo era apenas uma caixa de imagens, que entre as vezes que eu caía bêbado ou inconsciente, me pareciam completamente aleatórias. Como se a sucessão interrompida de cenas, hora de um programa, hora de outro, fizesse surgir toda uma nova lógica. Agora ela está ligada sem som. O som que ouço está no aparelho de CD. Acho que já fazem alguns dias que ele repete a mesma música incessantemente. Talvez semanas. Tenho a impressão de ter pensado em trocar o CD, mas então acho que meus pensamentos foram levados para outro lugar, por ventos de insanidade que assolam minha mente com intensidade cada vez maior. Parece um daqueles ventos com aquele pólen estranho de Darkover. Pirações da Marion.
Meu corpo está seco, e minha barba e cabelos bem longos. Não lembro a última vez que troquei de roupa. A dor da fome já não me incomoda mais. Agora simplesmente espero que aconteça o que decidi que deveria acontecer. Minha saliva está muito espessa. Parece muito difícil afastar a língua do céu da boca.
Em meio a tudo isso só minha decisão, e o que me levou a ela, importam. Ela será o grande final de minha arte! Minha partida triunfal! Talvez assim eles entendam o que eu quis dizer.
E eles nunca entenderam. Através de imagens, palavras e músicas eu tentei fazer-me compreender. Tentei mostrar a beleza que havia nas coisas. O prazer que a beleza podia nos proporcionar. Tentei mostrar o quão delicioso era viver, e fazer que entendessem o valor de tudo.
Eles leram minhas palavras, viram minhas imagens, cantaram minhas músicas. Compraram meus livros e álbuns, contaram e dançaram comigo em grandes apresentações. Repetiram por inúmeros lugares tudo aquilo que eu dizia, e por um breve momento eu acreditei que eles entendiam!
Entreguei-me ao prazer absoluto de conseguir transmitir ao mundo aquilo que me era mais sagrado. A verdade que me movia era agora compartilhada por todos, e através dela eles seriam capazes de ter o mesmo prazer que eu tinha.
Rapazes imitavam minhas roupas, e em noites bebendo na casa de amigos, alguns tocavam e cantavam aquilo que eu criara.
Belíssimas garotas gritavam declarações de amor e promessas enlouquecidas. E com várias delas entreguei-me às mais extasiantes noites. Nunca amei nenhuma, e elas só queriam me tocar. Só queriam poder dizer que haviam estado comigo. Isso era divertido de certa maneira, mas foi quando notei isso é que o véu de perfeição que pairava sobre minha vida começou a sumir.
Minha arte não importava para eles. E viver era minha arte! Eles me imitavam, gritavam meu nome, enchiam meus bolsos de dinheiro e não entendiam nada! Eu era apenas algo momentaneamente diferente do resto. Algo novo a ser imitado, sugado, absorvido. E em questão de anos nunca mais se lembrariam de minhas palavras.
Isso turvou o mundo diante de meus olhos. Cessou o batimento do meu coração. Matou o amor que u tinha por tudo aquilo. Eu não era capaz de aceitar. Não viveria com aquilo. Minha arte, que a meus olhos era tão bela, não fazia o sentido que deveria fazer pra eles. Não fazia nenhum sentido!
Em muito pouco tempo decidi o que faria. E por duas simples razões. A primeira era que eu realmente não seria capaz de continuar cm aquilo. A segunda, e mais importante, era que talvez, depois de tudo o que eu iria fazer, eles finalmente entendessem.
Decidi morrer. Morrer aos poucos. Decidi morrer aos poucos para poder pensar em tudo aquilo. Rever cada fato, cada ato, cada pensamento. Decidi morrer de fome. Sem comida nem água. Teria um bom tempo para pensar. Me trancaria com bebidas, comida, drogas. Quando isso tudo acabasse eu não iria repor. Morreria, de maneira estúpida, desumanamente. Me mataria com a mesma monstruosidade que eles mataram minha arte.
Como eu já andava estranho, não compunha mais nada fazia algum tempo e havia cancelado já uns doze shows, ninguém estranhou que eu de uma hora para outra houvesse resolvido viajar. Pedi dinheiro, para meu empresário, para pagar as despesas. Como eu sempre esbanjava bastante ele não estranhou a quantia. Relutou um pouco em deixar-me ir completamente sozinho, mas acabou concordando.
Com o dinheiro aluguei este prédio. Já estava vazio, caindo aos pedaços. Passei em uma loja de usados que havia ali perto e comprei as mobílias necessárias. Os aparelhos como televisão e CD comprei em uma loja de contrabandos também não muito longe.
Tudo estava pronto. Tinha comida, bebida e drogas. Uma pilha bastante grande de CD's e outra de fitas de vídeo. Entrei, tranquei a porta do prédio. Subi até o último andar que era onde ficava o apartamento que eu mobiliara e tranquei-me dentro. Joguei todas as chaves na privada e puxei a descarga. Com as tábuas, os pregos e o martelo terminei de me lacrar dentro daquele peculiar caixão. Era isso que era na verdade. Minha tumba.
Durante os primeiros dias permaneci bêbado. Escrevi muito, em papéis que cobrem todo o chão do apartamento. Depois disso me droguei muito, e isso me levou a um longo delírio, durante o qual, acredito, escrevi e desenhei por todas as paredes do lugar. As drogas acabaram, a comida acabou e então dei cabo das últimas garrafas de vinho.
Agora nada mais tenho para comer e beber. Não sei que horas são, nem que dia é hoje. Sei que meu corpo está cheio de cortes causados por quedas sobre cacos de garrafas quebradas, mas não sinto a dor. Sei que o ar fede mas meu olfato já me abandonou faz um tempo. Meu nariz às vezes sangra e minha garganta está seca de sede. Em breve tudo estará terminado. E então, finalmente, terei alcançado pelo menos esse objetivo. Só preciso esperar.
Acho que o delírio começa a tomar conta de mim por completo. Na televisão meu empresário me pede para repensar. Para não desistir. Tudo ficará bem, ele diz. Coitado. Não entende que prefiro enterrar minha arte à profaná-la. O CD parou, e do abajur sai minha voz e o som de uma guitarra. Sei que estou enlouquecendo. Minha voz canta algo que não tem forma. Parece um lamento. Réquiem.
Olho minhas mãos. Vejo ossos. Ossos com veias que não param de sangrar sobre eles. O sangue mancha o veludo verde do sofá, que grita de dor e medo. Eu só consigo rir. Uma gargalhada seca e histérica. Fria como ferro. Que assustaria todos os vizinhos se o prédio não estivesse completamente vazio.
De repente o silêncio.
O fogo da vela parece aumentar e subitamente tenho a impressão que um vulto passou rapidamente entre eu e a luz da vela. Ouço barulho de papéis amassando. Como se alguém caminhasse sobre as folhas que servem de carpete para todo o apartamento. Mas não o ninguém.
Sou tomado por um medo que rapidamente se transforma em pânico. Penso em levantar e tentar fazer alguma coisa, mas só consigo é encolher todo o meu corpo no canto do sofá. Afasto os cabelos que cobrem meu rosto e mais uma vez olho em volta.
Finalmente o vejo. Um homem, alto, de longos cabelos negros, completamente lisos. Não consigo ver seu rosto, mas posso ver que veste um belo e fino terno.
Confuso olho as portas e as janelas. Procuro desesperadamente por alguma tábua quebrada, um buraco. Nada. Continuam trancadas. Cada pedaço devidamente pregado em seu lugar. Como diabos ele entrou aqui? Talvez seja uma alucinação. Sim! É isso! A loucura está finalmente me tomando por completo.
De repente o homem cruza os braços, balança a cabeça em um movimento negativo e estala a língua algumas vezes. Então, com uma voz sobrenaturalmente bela, começa a falar. "Um completo desperdício. Sem dúvida um absurdo desperdício, Claude."
Como ele sabe meu nome? Como?
"Incrível como os seres humanos tem uma capacidade inata de colocar seus melhores talentos na lata do lixo." Ele caminha, pega alguns papéis pelo chão. De repente a vela está em sua mão. Ele está de costas para mim, lendo. "Que belas palavras! Realmente uma sensibilidade que a raça humana não entenderia. Uma arte sem igual! Mas eu entendo." Virou-se em minha direção. "Como pode ser capaz de pôr fim em um potencial como esse? Vocês mortais nunca são capazes de entender a própria capacidade..."
Nós mortais? Como assim? O que isso significa? Será ele a morte? Será que aquelas superstições absurdas tinham realmente algum fundamento?
"Sou e não sou", ele respondeu à pergunta que não pronunciei. Foi quando vi em seu estranho sorriso a presença dos longos caninos que em um simples e gracioso movimento ele fez que penetrassem fundo em meu pescoço, antes de pronunciar minha última palavra mortal... vampiro. E junto com meu sangue a esperança de conseguir realizar meu último desejo se esvaía. Imóvel, indefeso eu, que tanto queria morrer, fui presenteado com a vida eterna.

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