Por Sergio Martins
primeira vista, pode parecer estranho ver na Mood uma resenha sobre um livro que toma como objeto o jovem absolutamente convencional e mainstream, padrão do padrão da classe média padrão. Mas a esta impressão, tomada de preconceito, escapa o que certamente não escapou a Maria Isabel Mendes de Almeida e Kátia Maria de Almeida Tracy, autoras de Noites Nômades – Espaço e Subjetividade nas Culturas Jovens Contemporâneas (Rocco, 250 páginas): que este jovem e sua relação com a night podem ser a porta de entrada para uma abrangente e profunda discussão sobre o modo de ser da subjetividade no mundo contemporâneo.
Se em Noites Nômades o preconceito passa ao largo, a superficialidade mais ainda. O livro é fruto de dois anos e meio de pesquisas, dedicados a observação e à coleta de depoimentos de jovens (o termo “adolescentes” foi propositalmente descartado, pois remete à imagem de um indivíduo não-responsável por seus atos), em sua grande parte estudantes no final do ensino médio ou no início da vida universitária, todos típicos e entusiasmados freqüentadores da noite carioca. O material colhido, amparado por um mosaico de referências (todas didaticamente explicadas, de modo a evitar um possível hermetismo) antropológicas, filosóficas e psicanalíticas, permitiu que as autoras desenhassem um cuidadoso mapa da subjetividade, ou como a própria Maria Isabel definiu em entrevista para a Mood, da “arquitetura mental” destes jovens. A análise destes comportamentos subjetivos - aí entendidos como formas de se relacionar uns com os outros, de seduzir, de se vestir, de se portar socialmente e de transitar pelos espaços noturnos - é rica e proporciona uma série de reflexões sobre a própria natureza do espaço noturno e sobre o que significam, neste contexto, estilo e identidade.
Noite como espaço
A idéia-chave para se adentrar o estudo é a da noite vista como um espaço. Isso fica claro já no primeiro capítulo, Geografia da Night. O jovem em questão não vai apenas para uma boate ou para uma festa, ele vai para a night como se ela, como um todo, fosse um lugar. Tão importante quanto esta constatação é entender, então, quais são as características deste espaço. Não se trata de um espaço convencional, como uma sala de estar delimitada por quatro paredes e posições fixas, com uma poltrona num canto e um sofá no outro. O livro mostra que espaço da night é determinado pela trajetividade, ou seja, pelos fluxos incessantes que os jovens desenham ao movimentar-se na night. Daí a associação ao conceito de nomadismo.
Esta tese é minuciosamente trabalhada e abre diversas possibilidades, como por exemplo a de que as próprias zonas de passagem tornem-se espaços plenos da night. Fica fácil, a partir daí, entender o que leva postos de gasolina e portas de boate a se tornarem focos de aglomeração do público noturno. Ou então como a pista de dança, centro arquitetônico de qualquer boate, pouco significa nos ambientes próprios da night, em contraste, como explicam as autoras, com “espaços ditos ‘alternativos’, nos quais as aglomerações se formam em torno da música.”
A tônica da mobilidade, da impermanêcia, do instantâneo, percorre, de uma forma ou de outra, o livro inteiro. É sintomático, nesse sentido, que a própria capa do livro retrate a porta de uma boate recém-fechada, a People. Mas o fato é que, aos poucos, fenômenos como o “zoar” e o “ficar”, a idéia do total zapping (uma espécie de filosofia do “tudo ao mesmo tempo agora”), o vocabulário, a linguagem corporal e a própria forma de se vestir dos jovens vão entrando em discussão e compondo as facetas desta nova forma de subjetividade.
Estética “Básica”
Conduta social e modo de se vestir, aliás, são os temas de todo o último capítulo do livro, que expõe outro conceito fundamental em Noites Nômades: a contenção. Isso significa dizer que estes jovens operam, social e esteticamente, sob códigos e normas extremamente rígidos. Quem desrespeita estes códigos, ou seja, quem extrapola o “básico”, incorre no risco “perder a linha”, sob pena de exclusão social. Assim, torna-se extremamente importante “manter a pose”.
É neste âmbito que surge outra interessante questão para a discussão mainstream x alternativo. As autoras citam um estudo do sociólogo português José Machado Pais para exemplificar uma estética barroca, claramente identificada com a juventude dita alternativa. Dentro desta estética, o exagero e o decorativo desempenham papéis fundamentais, mas a imagem mantém uma relação metafórica com a dimensão do ser, ou seja, o estilo mantém alguma relação (no caso, de exagero) com quem a pessoa realmente é. Já na estética básica, ligada ao clássico e à contenção, isso não acontece. A “pose” possui uma autonomia própria (talvez por ser mais determinada por padrões coletivos do que qualquer outra coisa), totalmente independente da verdadeiro “eu” da pessoa. A aparência simplesmente não remete à essência.
O outro lado da moeda
Não há dúvidas de que os maiores méritos de Noites Nômades decorrem da postura das autoras, que abrem mão de pressupostos preconceituosos e estereotipados para manter uma relação franca com o objeto da pesquisa. Embora nada no livro o impeça de ser utilizado, até com certo reacionarismo, em ataques ao pós-modernismo e seus sintomas, tudo indica que ele vai ter melhores usos, como é intenção de suas autoras, em discussões construtivas sobre os caminhos da subjetividade nos dias de hoje.
Por fim, fica claro que o simples fato do objeto estar identificado com um segmento mainstream não desmerece em nada o livro. O mainstream aqui é apenas um lado da moeda, cuja análise reflete, naturalmente, na moeda inteira. E Noites Nômades é isso: uma análise original e pertinente, que certamente interessará a qualquer um capaz de enxergar, sem preconceitos, a noite como fenômeno cultural.
Entrevista com Maria Isabel Mendes de Almeida
Mood - Qual foi sua motivação para estudar este objeto, o jovem mainstream?
Maria Isabel Mendes de Almeida - Como venho estudando os jovens há algum tempo, comecei a ver este espaço da noite como uma importante porta de entrada na contemporaneidade, no que diz respeito a gramáticas subjetivas, ou seja, a mudanças expressivas na arquitetura mental dos jovens.
A noção de espaço é muito importante para se verificar estas mudanças. A idéia de que o tempo, que caracterizava a modernidade - o tempo da fábrica, o tempo do progresso -, foi substituído pelo espaço como categoria de importância para se entender a pós-modernidade.
Hoje, estes jovens vão para a night, ou seja, vão para a noite como se vai para um lugar. A própria noite se torna um espaço. A partir daí, a noite e as formas de lazer noturno se tornaram um objeto atraente a ser perseguido. E nós perseguimos estes jovens durante dois anos e meio, não só no espaço da noite, como também nos seus colégios, nas suas casas, tendo como pressuposto que estes jovens tinham um vida social muito ativa, no sentido da noite e do lazer noturno.
Mood - Seu livro mostra jovens perfeitamente integrados ao cenário pós-moderno. Ainda assim, chama a atenção o fato dos comportamentos destes jovens não serem, em nenhum momento, abordados com um tom repreensivo ou, como seria de se esperar, como sintoma de uma suposta “falta de sentido” ou “degradação de valores” crônica do mundo contemporâneo.
Maria Isabel - Para nós esta é uma questão muito importante, quase que uma colocação de princípios. Há hoje, na nossa visão, uma espécie de pânico moral que se alastra na sociedade com a pós-modernidade. É o “fim dos valores”, o “fim da história”, o “fim do indivíduo”, essa idéia de uma “corrosão moral” e, ao mesmo tempo, uma postura muito nostálgica em relação a tudo o que se perdeu. Isso acaba justificando este pânico moral, sublinhado por grande parte da mídia, dos intelectuais e dos formadores de opinião. No caso do nosso estudo, seria muito fácil caricaturar ou julgar, dizendo que isso seria o niilismo, o fim de tudo, a aniquilação de valores, o fim da linguagem, mas de modo algum nós realmente achamos isso. Ao contrário, procuramos mostrar realmente uma forma que está despontando como mudança comportamental e subjetiva, e mostrar o que está acontecendo através de depoimentos e entrevistas. Isso é uma questão princípios, eu pessoalmente jamais julgaria este universo com os meus valores, porque com isso eu necessariamente estaria sempre regendo, ou seja, os meus valores é que teriam sentido e que seriam contrastados com o que acontece. Isso não é válido dentro da postura de um investigador, comprometer não só os seus valores, como também partilhar desse espírito excessivamente crítico, ácido e demolidor que encontramos hoje na atualidade. Nós procuramos mostrar o que está aí, e acho que isso é muito importante para todas as classes profissionais, para os psicanalistas, para os filósofos, para os historiadores. No caso, por exemplo, da psicanálise, procuramos mostrar um pouco como está operando esta nova estrutura da subjetividade que vem deixando os psicanalistas perplexos, ou seja, dar pistas de como abordar clinicamente este jovem.
Mood - Em diversos momentos você aborda a diferença entre estes jovens e os jovens ditos alternativos. Quais são, para você, os pontos centrais dessa diferenciação?
Maria Isabel - Eu acho que o princípio diferenciador dominante, na visão na visão destes próprios jovens tidos como mainstream, encontra-se na discussão do “perder a linha”. Para eles, a idéia de “perder a linha” é muito mais próxima do universo alternativo. Não que eles se dêem conta do quão controlados e disciplinados são - quando nós discutimos a estética básica fica claro que não se pode fugir muito de um certo perfil modelar, no sentido da atitude comedida, da maneira de se vestir totalmente regida por um código monocromático, neutro, das cores que não implicam em exagero, em acentuar muito um padrão estético, mas manter a coisa do básico.
Já as festas rave, a música tecno e lugares como a Bunker, por exemplo, são considerados mais alternativos por nossos informantes. São lugares onde se pode relaxar um pouco mais, onde a coisa de “perder a linha” não se torna um imperativo tão forte.
Sobre esta questão da juventude alternativa, eu acredito que São Paulo é hoje uma cidade com um campo muito mais fértil que o Rio. O Rio talvez seja mais mainstream por ser uma cidade mais relativizada o tempo inteiro. Acho que você não encontra, no Rio, um estilo absolutamente forte, muito acentuado ou com princípios, na área da música e na área do lazer. As coisas aqui parecem estar sempre se zerando, tudo chega a um jogo de soma zero. As preferências musicais, de cinema, no mundo das artes, estão sempre se equivalendo. Parece que as coisas são tomadas por um certa frouxidão de opções, não há um rigor de opções.
Mood - Apesar das diferenças, é relativamente comum ver a night mainstream se apropriar, em certos momentos, de espaços tipicamente alternativos, como se eles entrassem na moda. Em que termos se dá isso?
Maria Isabel - É uma característica desse perfil carioca. Eles se revezam sem problema, podendo ter um leque de opções que vai desde o que há de mais radical em música tecno, como a Bunker ou a Dama de Ferro, até uma night na Nuth. Eles preservam a possibilidade de transitar através, por exemplo, da indumentária. Se vestem de acordo com a ocasião, permutam claramente a maneira de se vestir e também não conhecem tão a fundo a música tecno, por exemplo. Mas a coisa de estar na moda é muito sedutora e muito praticada por estes jovens. É como se estivessem o tempo todo mudando de camiseta, não há esta idéia de uma ideologia cristalizada em torno de um estilo, como se vê por exemplo em São Paulo, visitando a galeria Ourofino. Lá realmente é um templo da estética alternativa, uma coisa que não se vê no Rio. Aqui você tem um detalhe ou outro da estética alternativa, mas não tem templos alternativos, punks, darks, tecnos, clubbers, etc. Não existe essa filiação no mercado, dentro de uma estrutura do consumo. Há pouquíssimos lugares conhecidos, ou então o alternativo aqui é algo que existe muito mais na classe média baixa, ao contrário de São Paulo, onde a classe média possui repertórios alternativos mais perceptíveis.
Mood - Em certos pontos do livro, você sustenta análises sobre características específicas do Rio de Janeiro, como a praia, por exemplo. Até que ponto o cenário descrito no livro se aplica a outras metrópoles?
Maria Isabel - A questão da praia pode ser realmente um elemento diferenciador, mas estamos lidando com comportamento basicamente ligado à classe média cosmopolita, urbana, e à trajetória do indivíduo no final do ensino médio e início da vida universitária. São padrões de consumo e relações com o lazer e com a tecnologia que talvez não permitam encarar a praia como algo que impeça uma certa dose de generalização. Na verdade, é um padrão quase transnacional. Apresentando este trabalho na Suécia, por exemplo, percebi várias possibilidades na coisa do lazer, não tanto no lazer noturno, mas no lazer dos esportes radicais, onde há um comportamento parecido, no plano da subjetividade, com essa maneira de se lidar com o espaço.Acredito que inclusive nos grandes centros urbanos de camadas populares - que hoje em dia, pela televisão e pela mídia, reproduzem muito certos comportamentos de classe média - você pode pensar hoje que, com essa estrutura globalizante, essas coisas se juntam muito mais. Claro que o Rio é uma cidade partida, mas curiosamente você vê esse padrão mauricinho ou mainstream de comportamento, de maneira de ser ou de curiosidade noturna, adentrando a favela Rio das Pedras para os bailes funks. Existe uma própria sedução do risco nessa juventude de classe média. Fica claro que a idéia do risco, do arrepio - essa coisa que o pessoal do funk diz, “vamos arrepiar” - acaba sendo sedutora para a classe média jovem, que vai então para os bailes funks, para lugares onde existe uma certa dimensão do risco.
Portanto, nós afirmamos o fato de que este estudo se dá no Rio de Janeiro, mas ele tem conexões muito grandes com centros urbanos não só no Brasil, mas internacionais também.
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