Por Bruno Porto
Cinqüenta anos. Quando uma pessoa completa essa idade passa a ser considerada por muita gente um sinônimo de maturidade, equilíbrio e experiência. E quando um livro está soprando 50 velinhas? Bem, no caso de "O apanhador no campo de centeio", de Jerome David Salinger - ou J.D. Salinger, como o escritor é conhecido - que está fazendo meio século este ano, pode-se dizer o contrário. Ao fim das 205 páginas da edição da Editora do Autor, que publica a obra do escritor no Brasil, as palavras que vêm à mente do leitor são conflito, insegurança, e, mais do que qualquer outra, juventude.
Não por conta de qualquer falha do autor, habilidoso tanto na construção do desmoronamento do protagonista do livro, o adolescente Holden Caulfield (nome tirado, reza a lenda, da junção dos sobrenomes de dois dos atores favoritos de Salinger, William Holden e Joan Caulfield) quanto no exercício de uma linguagem coloquial, ainda que não rala; mas porque essas são características que dizem respeito ao tema principal do livro: o jovem. E nesse caso entenda-se por juventude o período entre o nirvana sensorial e cognitivo da infância e o paradoxo liberdade/responsabilidade da vida adulta.
Não seria Holden um símbolo disso, um personagem que mescla a ingenuidade e a esperança das crianças com o cinismo e o descrédito dos mais velhos? Mais do que retratar a juventude de uma maneira estática, quiçá caricata, na forma de um rebelde sem causa, um contestador 24 horas por dia, como é comum em parte da arte atual, "O apanhador" revela todo o tormento, toda a instabilidade de quem está tendo que trocar a brincadeira e as descobertas por um lugar no mundo adulto, onde as regras já estão estabalecidas. Holden vai constatando durante todo o livro, tanto no Internato Pencey quanto em Nova York, as cores acinzentadas da Humanidade. E não é isso, de certa forma, que se passa com os jovens em geral? Eles são apresentados ao lado perverso das coisas e, depois de um período de sofrimento, de atrito e de contestação, acabam se integrando.
A diferença é que Holden, ao fim de sua saga, de sua Odisséia, não se integra, se desintegra. E é isso o que faz dele um personagem ao mesmo tempo trágico e querido entre os jovens. Diferentemente da maioria, ele não consegue aceitar as coisas como são. E essa não-aceitação não se dá racionalmente. Holden não consegue porque é muito puro, não podendo se corromper. Ele tenta, como no caso do encontro com a prostituta, símbolo da vilania e do hedonismo sem cara, mas não consegue, recuando no último instante. Um dos grandes feitos de Salinger, que há décadas se auto-exilou numa fazenda no interior do estado americano de New Hampshire, no livro é fazer com que nós nos identifiquemos com Holden ao mesmo tempo em que o enxergamos, com distanciamento, como um personagem cujo destino já nasceu traçado. Assim como o jovem, que também tem o destino traçado desde sempre: no caso, envelhecer.
No contexto literário, o livro também se destaca, podendo ser considerado um precursor do inconformismo que marcou a obra dos autores malditos da Geração Beat, pais de toda a rebeldia dos anos 60, com sua louvação das drogas (maconha, principalmente), do enfrentamento do estabelecido (atravessando o país com a mochila nas costas) e a música (no caso, o bebop). "On the road" ("Pé na estrada", na edição brasileira), de Jack Kerouac, a bíblia do movimento, foi lançado em 1957. Seis anos antes, Salinger já retratava o descontentamento da juventude pós-Segunda Guerra.
Em Holden Caulfield, com seu cinismo e agudo senso crítico em relação a tudo, estava plantada a semente da rebeldia. Se por um lado "O apanhador no campo de centeio" está ligado ao fim do sonho da Geração Paz e Amor, uma vez que o assassino do ícone número um de hippies e cia., John Lennon, Mark Chapman, carregava uma edição do livro quando foi preso logo após o crime, por outro ele apontou, antes de qualquer um, o problema que iria transformar o mundo nos anos seguintes. Feito o julgamento, só resta algo a dizer: feliz aniversário, Holden!
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