Por Vladmir Cunha
De uns tempos para cá tornou-se um tanto quanto irritante ver as contínuas referências a Nick Hornby em zines, jornais e cadernos de cultura. Não se trata aqui de discutir os méritos literários do cara. Até porque, nunca li nenhum de seus livros. Confesso: o único contato que tive com a sua obra foi o filme de Stephen Frears, uma excelente comédia romântica que tem uma das cenas mais engraçadas que já vi em toda a minha vida. Apesar dos excelentes diálogos, nada na fita supera a sequência em que John Cusak e seus amigos esmagam a cabeça de Tim Robbins com um aparelho de ar-condicionado. É um daqueles momentos clássicos do cinema, que provam que efeito especial nenhum é capaz de substituir um diretor criativo.
Mas isso não vem ao caso. O fato é que eu estou aqui em plena madrugada de domingo escrevendo sobre um livro que eu não li. Talvez eu devesse seguir o conselho de um conhecido fanzine virtual e enterrar minha cabeça em um buraco. Ou então, talvez eu seja um ser desprezível e mereça ser deportado para uma ilha deserta junto com uma caixa cheia de CDs do Agnaldo Rayol. Não importa. Uma das coisas que eu aprendi nesse negócio de imprensa cultural é que o lance é saber usar as palavras certas e ler as revistas importadas antes de todo mundo. Se tem crítico que faz resenha sem ter ouvido o disco ou que "descobre" bandas novas copiando textos de sites gringos e ainda posa de bacana, é possível que eu esteja no caminho certo.
Pois bem. A minha bronca com "Alta Fidelidade" é que os brasileiros levaram o filme/livro/peça à sério demais. Parece que, de repente, escrever ficção fazendo referências ao pop virou o fino da bossa. Poucas pessoas compreenderam que era justamente a fixação de Rob Gordon com o gosto musical alheio que fazia dele um babaca. Em momento algum esse lado do
personagem é mostrado como algo positivo, e sim como um componente depreciador de sua personalidade. Antes de ser uma apologia, as dezenas de citações que aparecem no filme são o retrato de um sujeito desprezível e insuportável. Um chato de marca maior, como aquele seu amigo babão que vive lhe enchendo o saco por causa do último single do Belle & Sebastian que só saiu na Bulgária e ele comprou antes de todo mundo. Rob Gordon é idiota porque leva à sério a música pop. Ou leva à sério a música pop porque é idiota. Vai saber...
E então, eis que por causa do filme/livro/peça surge a nova moda do verão: os escritores pop brasileiros. Ho, ho, ho (citação obrigatória a Hunter Thompson). Qualquer garoto tímido e fã do Radiohead deu para achar que pode se tornar um grande escritor. Basta meia dúzia de casos amorosos mal-sucedidos, uma pitada de letras de bandas conhecidas, algumas expressões em inglês e diversas citações a qualquer coisa que possa ser remotamente classificada como "cultura pop" (desde que não seja pop brasileiro, of course). E assim nasce mais um Nick Hornby tupininquim, pronto para ganhar o mundo com sua ficção "jovem" e "inovadora".
O que é uma bobagem. Qualquer pessoa com um pouco mais de informação sabe que essa história de misturar cultura de massas com literatura é mais velha do que o rabo de cavalo do Pedro de Lara. Thomas Pynchon, por exemplo,sempre fez menções ao rock em seus livros, inventando, inclusive, gravadoras e bandas imaginárias (o grupo punk Chamando o Hugo e os
Vomitões, Billy Barf & The Vomitones, talvez seja sua criação máxima neste sentido). William Gibson batizou seu último livro de "All Tomorrow's Parties" e escreveu "Idoru", que fala de uma cantora virtual. Haniff Kureish há quase uma década lançou o hilariante "O Buda do Subúrbio",
ambientado na cena punk londrina e que descreve em detalhes um show dos Sex Pistols. Em seguida escreveu "O Album Negro", com inúmeras menções ao disco de mesmo nome do Prince. Já Brett Easton Ellis - "American Psycho", "Less Than Zero", "Glamouramma" e "The Confidents" - vai ainda mais longe e enche seus contos de referências pop e comentários sobre o gosto musical dos personagens. Isso sem falar de Don DeLillo - cujo penúltimo livro,
"Submundo", usa nomes de músicas de rock como título para os capítulos - e Tom Wolfe, que radiografou a cena psicodélica de São Francisco (Greatfull Dead incluído) em "O Teste do Ácido do Refresco Elétrico". Guimarães Rosa, Ernesto Sábato, Gogol, Dostoiévski e James Joyce.
Escritores que nos ensinaram que é possível ser universal e local ao mesmo tempo. Ao falar sobre um atormentado pintor de Buenos Aires em "O Túnel", Sábato criou um dos mais impressionantes textos sobre a loucura humana. E as pequenas e provincianas aldeias russas foram o cenário perfeito para Dostoiévski idealizar os confrontos ideológicos atualíssimos de "Os Irmãos Karamazov". É triste mas é verdade, meus amigos: macaquear a cultura alheia
não leva a nada e só serve para superestimar coisas que não têm tanto valor assim. São os modernos endinheirados em busca da "última novidade". São as "indie bands" cantando em inglês com sotaque da Mooca. São os jornalistas picaretas que te chamam de anormal só porque você nunca ouviu falar do Coldplay e não vê graça nenhuma nos discos do Bidê Ou Balde. São as centenas de pessoas que conhecem a fundo o underground londrino mas não
param para pesquisar a música do seu próprio país. No meio disso, está a tal "literatura pop" brasileira. Salvo raras excessões, ela é igual a festa de debutante: ridícula e sem graça nenhuma. Há quem goste. E há quem ache patético. É tudo uma questão de saber se você quer entrar ou ficar do lado de fora falando mal da roupa dos convidados.
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