Por Daniel Galera
"A menina vai oferecendo as rosas opacas pelas mesas. Puxa a manga de um rapaz com cuidado, para ser notada, faz cara de choro e pergunta baixinho: "Dá uma rosa pra ela?". "Não, ela destesta rosas, dá essa banda" responde o rapaz. A garota na mesa não diz nada, mas também não retoma a conversa. Talvez ela quisesse uma rosa, não seria nada mau.
O balde ainda está cheio de flores. As ruas estão abarrotadas de gente, as mesas cheias, mas poucos compram flores, a menina sabe disso. Muito poucos. Não estão interessados. As flores percorrem a madrugada no colo da menina, envelhecem e ninguém pretende pagar um real por elas, isso é que é a verdade.
Um próximo bar, muitas mesas na calçada, a menina vai de pessoa em pessoa, já cansada. Então encontra o senhor aquele. Seus pequenos olhos se arregalam e cintilam de satisfação, ele está ali, na mesinha do fundo, a mesma de sempre.
A menina se aproxima, chega do lado do homem. Este abre um sorriso e diz: "Olá menina". Ela só responde "Quer uma rosa?" por puro hábito. Ela sabe que ele quer uma rosa. Muitas rosas. Todas as rosas do balde. "Quero todas as rosas!", diz o homem, com sua voz alta. "Todas do balde!".
Numa mesa próxima, meia dúzia de jovens bebem sua cerveja, fumam cigarros Camel e comem polenta frita salpicada com queijo ralado. A menina passou nesta mesa há alguns segundos, e foi rapidamente escorraçada. O rapaz de casaco azul, inclusive, enunciou o seguinte comentário: "Putaquepariu, já não dá pra beber em paz aqui na Cidade Baixa!". Os outros concordaram, indignados.
Mas agora o mesmo rapaz percebe que o homem da mesinha do fundo, sozinho com sua dose de destilado, vai comprar todas as rosas da menina. O rapaz pensa sobre isso, e chega à conclusão de que comprar uma rosa, de vez em quando, não seria nada mau. Para ajudar a menina. Há até mesmo alguma beleza neste gesto. Uma menina, rosas, por que as tratamos como coisas tão indesejáveis? O rapaz comunica seus pensamentos aos amigos: "Olha ali, gente, o véio aquele tá comprando todas as rosas da guriazinha. Que afudê".
"Todas?", surpreende-se uma das garotas. "Que maluco".
"Maluco nada", discorda o rapaz. "É afudê isso. Esse cara tá sempre aí. Deve ter o quê, uns cinquenta anos. Quase todo dia vem aqui tomar sua dose de destilado, fica na mesinha ali do fundo, não fala com ninguém. E assim, do nada, o cara compra todas as rosas da criança. Pô, quando eu for velho eu vou ser assim, vou andar por aí bem chinelo, vou tomar minha ceva todos os dias no mesmo bar, na mesma mesinha. E vou fazer coisas deste tipo, comprar todas as rosas das crianças que aparecerem."
"É bem coisa tua isso", diz a garota, olhando de lado para o rapaz.
Enquanto isso, a menina se aproxima mais da mesa do homem, ficando meio de costas pra ele, entre a mesa e a parede. O homem abre bem a mão e agarra a bunda pequenina da criança. A carne mole enche a mão, e por alguns segundos o homem fica ali, apertando. Com a outra mão, gira os cubos de gelo no copo e bebe mais um gole do destilado. A menina olha para a rua com uma expressão de espera. Já satisfeito, o homem solta a bunda dela, tira algumas notas da carteira e pega todas as rosas do balde. A menina agradece e se afasta pela calçada, pra longe dos bares agitados.
Numa parada de ônibus perdida no meio da avenida vazia, Umberto espera. Está sentado sozinho na calçada, com a cabeça apoiada na coluna de metal da placa, bêbado e quase dormindo. O medo de ser assaltado é incentivo pra que ele se mantenha acordado. Há apenas mais uma pessoa na parada, uma mulher baixinha, discreta. Uma criança chega, um menino de uns doze anos, com um balde de rosas. Começa a conversar com a mulher. Logo chegam mais duas crianças, uma menina de uns dez anos e um outro piá, com no máximo cinco. Todos com baldes na mão.
"Vendeu quantas", pergunta a mulher.
"Vendi nove", responde o guri maior. "Doze", canta o pequeno, pra quem o balde, ainda contendo algumas flores, parece enorme e pesado. A mulher toma o balde da mão deles, irritada. "E o resto? Por que não venderam as outras? Ficaram de brincadeira por aí?"
"Vendi vinte e quatro, mãe. Todinhas", diz a menina, entregando o balde vazio para a mãe. Veste uma blusa de lã rosa, toda furada, uma calça jeans e tênis sem cadarço. Umberto acha a menina bonitinha. Tem cabelos pelo ombro, lisos, esfiapados. O rosto um pouco encardido, olhos fundos, um jeitinho maduro demais pra idade.
"Quero os três baldes vazios amanhã", pragueja a mulher.
Um ônibus aparece na curva lá adiante. Umberto sabe que ainda não é o seu. A mulher faz sinal, entra com as crianças e desaparece. Umberto tem uma vontade enlouquecedora de que a menina dê uma olhadinha pra trás ao subir na escada do ônibus, mas isso não acontece.
Umberto vomita na calçada. Só quer chegar em casa.
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