Um Francês em Pattaya Beach

Por Tiago Casagrande

“1. O valor de um ser humano é medido hoje por sua eficiência econômica e por seu potencial erótico.
2. Num sistema econômico perfeitamente liberal, alguns acumularão grande fortunas; outros afundarão em desemprego e miséria. Num sistema sexual perfeitamente liberal, alguns irão experimentar uma variada e excitante vida erótica; outros serão reduzidos à masturbação e a solidão.”

Essa pode ser a essência do mundo de Michel Houellebecq. Visionário, gênio, perturbador, contundente, imbecil e reacionário estão entre os adjetivos mais comumente associados a sua obra – e a sua pessoa. Polêmico como todo francês que se preze, é considerado a maior sensação literária da França nos últimos 20 anos pelo New York Times Magazine.
Houellebecq (pronuncia-se “uelbek”) é comparado a Sartre, Camus e, mais freqüentemente, a Honoré de Balzac, por sua principal habilidade – a de retratar as chagas da sociedade ocidental contemporânea. Essa característica foi magistralmente desenvolvida por Balzac, em seu tempo, nas Ilusões Perdidas. Nesses passos caminha Houellebecq. Não com a visão de um intelectual trancafiado em alguma universidade – mas com o choro de quem soube descobrir uma redução cultural, apostou no ser humano e perdeu feio. Tampouco é justo afirmar que sua maneira de escrever é coloquial ou simples; sobram estilo e fluência na sua escrita, sempre recheada de citações de grandes escritores e análises sociais bem colocadas nas palavras de seus personagens.

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A poeira começou a levantar em 1998, com o lançamento de Partículas Elementares – mais de 300 mil exemplares vendidos na França. No livro, Michel – o autor e também o protagonista da novela – coloca a culpa de todos os males do mundo ocidental contemporâneo na revolução comportamental dos anos 60. Entremeado, é claro, de muita pornografia. Foi considerado o sucesso literário mais inesperado de todos os tempos – se Houellebecq fosse cavalo de corrida, provavelmente ninguém apostaria nele (exceto, talvez, por seu editor). A mistura explosiva de sexo, em descrições que beiram o rasteiro, com a apurada visão da sociedade contemporânea, transformou o francês, um legítimo fracassado, num best-seller.

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No recém-lançado Plataforma (Record, 2002, 383 páginas), o protagonista (novamente chamado) Michel, um funcionário público – burocrata do Ministério da Cultura – recebe a herança do pai e resolve excursionar pela Tailândia, em férias. E a Tailândia é um dos destinos preferidos dos turistas a procura de sexo barato e diferente. Na viagem, envolve-se com Valérie, executiva do Turismo. E por ela desenvolve sua vida adormecida em comodismo exacerbado. Na obra há doses maciças de ironia, inteligência, sacanagem e sarcasmo. E sobretudo elegância. Houellebecq é um escritor que não se exalta. Nunca. Nem ao narrar os prazeres das mais variadas fantasias eróticas. Ele assume o olhar indiferente do niilismo e do tédio e conduz com facilidade o leitor até a sua sociedade ficcional. E aí reside seu trunfo: aos poucos, desvenda essa sociedade e mostra que, de ficcional, há quase nada. Ler Houellebecq é uma espécie de choque catártico com a realidade, uma dose cavalar de exageros mundanos e falta de perspectivas.
É um livro-bomba, que ataca o Islã, o sexo, o turismo, o dinheiro, o governo. (Como se não bastasse atacar os muçulmanos em Plataforma, Houellebecq disse, em entrevista à revista literária francesa Lire, que “embora todas as religiões monoteístas sejam estúpidas, o Islamismo é o mais estúpido de todos”). Trata as prostitutas como criaturas desprovidas de qualquer outro valor que não o econômico – sempre sublinhando que a quantia paga pelo protagonista era equivalente a um mês de salário de um empregado de mão-de-obra barata num país de terceiro mundo. Por tudo isso, vem sofrendo ataques do trade turístico da França, de outros escritores, de editores de guias de turismo, de cristãos e de muçulmanos. Houellebecq nem liga. Quando está bêbado, responde às críticas com uma simples frase: “Eu sou o astro da literatura francesa”.

Pessoalmente, Houellebecq parece ser uma pessoa asquerosa. Vá lá, o destino também não ajudou muito: nasceu na ilha de La Réunion, na costa de Madagascar, colônia francesa, filho de hippies que não deram a mínima para ele. Aos 6 anos, o mandaram para Paris, para ser educado pela avó. Foi um adolescente com problemas de depressão, viciou-se em morfina, caiu com tudo na bebida e começou um longo vaivém em hospitais psiquiátricos para tratar sua ansiedade. Nos anos 90, encontrou um emprego – técnico de softwares – e começou a escrever ensaios e poemas.
Hoje vive na Irlanda, isolado do mundo, sem luxo algum. Aos 42 anos, é um ser humano que reduz seus movimentos ao mínimo. Seus maiores amigos são os cigarros e o uísque, e o sexo é sua única fonte de gratificação – mantém um casamento aberto, e de fato freqüenta os clubes de swing que tanto aparecem em suas obras. E diz que a única coisa valiosa que sua fortuna acumulada pelas altas vendagens lhe proporcionou foi a possibilidade de fugir do pesadelo de ser empregado. Os livros deram o hábeas corpus que Houellebecq tanto queria: agora, ele não precisa mais tentar ser bem-sucedido.


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