Sandman San
 Por Sergio Bruno Martins
Neil Gaiman já provou ser um dos autores mais criativos da atualidade. Integrante, junto com Alan Moore e Frank Miller, de uma espécie de "santíssima trindade" dos roteiristas de quadrinhos, ele criou uma obra única, temperada por mitologia, subversões históricas e um certo humor negro. Mais recentemente, Gaiman mostrou a mesma desenvoltura em livros como "Belas Maldições" (em parceria com Terry Pratchett), "Stardust" e o excelente "Neverwhere".
Agora, o autor britânico volta à cena com uma mistura de quadrinhos e literatura. Como o nome do livro já entrega, em "Sandman: The Dream Hunters" Neil Gaiman retoma sua maior criação. A história é uma releitura de uma lenda do Japão medieval. Tudo começa com uma aposta entre um texugo e uma raposa para expulsar um monge de seu isolado templo. A raposa acaba se apaixonando pelo monge, e se vê compelida a salvá-lo da ameaça de um poderoso feiticeiro, o Onmyoji, que planeja matá-lo para roubar sua paz de espírito. Sim, é uma fábula. E deliciosa, diga-se de passagem.
Gaiman domina totalmente esta linguagem, e escreve o texto de uma forma quase contemplativa, em perfeita sintonia com o cenário e o enredo. Em termos de roteiro, o Rei dos Sonhos é apenas um coadjuvante. Mas a temática de seu reino domina a história, tornando-se seu palco principal.
Toda a atmosfera da história é capturada com maestria pelo ilustrador Yoshitaka Amano. Ele acrescenta visualmente ao cenário onírico do livro, tornando-o uma verdadeira experiência. Destaque para a ilustração em quatro páginas do Rei dos Sonhos em seu manto esvoaçante.
A edição (em inglês, capa dura) é muito bem acabada, digna de um colecionador. E se o livro tem um defeito, pode-se dizer que é o seu tamanho. São 125 páginas, algumas com apenas alguns parágrafos, outras várias com ilustrações, que podem ser facilmente lidas em um fim-de-semana. Fica inevitavelmente um gostinho de "quero mais". Como se você tivesse acordado no meio de um sonho bom.
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Noites Nômades
Por Sergio Martins primeira vista, pode parecer estranho ver na Mood uma resenha sobre um livro que toma como objeto o jovem absolutamente convencional e mainstream, padrão do padrão da classe média padrão. Mas a esta impressão, tomada de preconceito, escapa o que certamente não escapou a Maria Isabel Mendes de Almeida e Kátia Maria de Almeida Tracy, autoras de Noites Nômades – Espaço e Subjetividade nas Culturas Jovens Contemporâneas (Rocco, 250 páginas): que este jovem e sua relação com a night podem ser a porta de entrada para uma abrangente e profunda discussão sobre o modo de ser da subjetividade no mundo contemporâneo. Se em Noites Nômades o preconceito passa ao largo, a superficialidade mais ainda. O livro é fruto de dois anos e meio de pesquisas, dedicados a observação e à coleta de depoimentos de jovens (o termo “adolescentes” foi propositalmente descartado, pois remete à imagem de um indivíduo não-responsável por seus atos), em sua grande parte estudantes no final do ensino médio ou no início da vida universitária, todos típicos e entusiasmados freqüentadores da noite carioca. O material colhido, amparado por um mosaico de referências (todas didaticamente explicadas, de modo a evitar um possível hermetismo) antropológicas, filosóficas e psicanalíticas, permitiu que as autoras desenhassem um cuidadoso mapa da subjetividade, ou como a própria Maria Isabel definiu em entrevista para a Mood, da “arquitetura mental” destes jovens. A análise destes comportamentos subjetivos - aí entendidos como formas de se relacionar uns com os outros, de seduzir, de se vestir, de se portar socialmente e de transitar pelos espaços noturnos - é rica e proporciona uma série de reflexões sobre a própria natureza do espaço noturno e sobre o que significam, neste contexto, estilo e identidade. Noite como espaço A idéia-chave para se adentrar o estudo é a da noite vista como um espaço. Isso fica claro já no primeiro capítulo, Geografia da Night. O jovem em questão não vai apenas para uma boate ou para uma festa, ele vai para a night como se ela, como um todo, fosse um lugar. Tão importante quanto esta constatação é entender, então, quais são as características deste espaço. Não se trata de um espaço convencional, como uma sala de estar delimitada por quatro paredes e posições fixas, com uma poltrona num canto e um sofá no outro. O livro mostra que espaço da night é determinado pela trajetividade, ou seja, pelos fluxos incessantes que os jovens desenham ao movimentar-se na night. Daí a associação ao conceito de nomadismo. Esta tese é minuciosamente trabalhada e abre diversas possibilidades, como por exemplo a de que as próprias zonas de passagem tornem-se espaços plenos da night. Fica fácil, a partir daí, entender o que leva postos de gasolina e portas de boate a se tornarem focos de aglomeração do público noturno. Ou então como a pista de dança, centro arquitetônico de qualquer boate, pouco significa nos ambientes próprios da night, em contraste, como explicam as autoras, com “espaços ditos ‘alternativos’, nos quais as aglomerações se formam em torno da música.” A tônica da mobilidade, da impermanêcia, do instantâneo, percorre, de uma forma ou de outra, o livro inteiro. É sintomático, nesse sentido, que a própria capa do livro retrate a porta de uma boate recém-fechada, a People. Mas o fato é que, aos poucos, fenômenos como o “zoar” e o “ficar”, a idéia do total zapping (uma espécie de filosofia do “tudo ao mesmo tempo agora”), o vocabulário, a linguagem corporal e a própria forma de se vestir dos jovens vão entrando em discussão e compondo as facetas desta nova forma de subjetividade. Estética “Básica” Conduta social e modo de se vestir, aliás, são os temas de todo o último capítulo do livro, que expõe outro conceito fundamental em Noites Nômades: a contenção. Isso significa dizer que estes jovens operam, social e esteticamente, sob códigos e normas extremamente rígidos. Quem desrespeita estes códigos, ou seja, quem extrapola o “básico”, incorre no risco “perder a linha”, sob pena de exclusão social. Assim, torna-se extremamente importante “manter a pose”. É neste âmbito que surge outra interessante questão para a discussão mainstream x alternativo. As autoras citam um estudo do sociólogo português José Machado Pais para exemplificar uma estética barroca, claramente identificada com a juventude dita alternativa. Dentro desta estética, o exagero e o decorativo desempenham papéis fundamentais, mas a imagem mantém uma relação metafórica com a dimensão do ser, ou seja, o estilo mantém alguma relação (no caso, de exagero) com quem a pessoa realmente é. Já na estética básica, ligada ao clássico e à contenção, isso não acontece. A “pose” possui uma autonomia própria (talvez por ser mais determinada por padrões coletivos do que qualquer outra coisa), totalmente independente da verdadeiro “eu” da pessoa. A aparência simplesmente não remete à essência. O outro lado da moeda Não há dúvidas de que os maiores méritos de Noites Nômades decorrem da postura das autoras, que abrem mão de pressupostos preconceituosos e estereotipados para manter uma relação franca com o objeto da pesquisa. Embora nada no livro o impeça de ser utilizado, até com certo reacionarismo, em ataques ao pós-modernismo e seus sintomas, tudo indica que ele vai ter melhores usos, como é intenção de suas autoras, em discussões construtivas sobre os caminhos da subjetividade nos dias de hoje. Por fim, fica claro que o simples fato do objeto estar identificado com um segmento mainstream não desmerece em nada o livro. O mainstream aqui é apenas um lado da moeda, cuja análise reflete, naturalmente, na moeda inteira. E Noites Nômades é isso: uma análise original e pertinente, que certamente interessará a qualquer um capaz de enxergar, sem preconceitos, a noite como fenômeno cultural. Entrevista com Maria Isabel Mendes de Almeida Mood - Qual foi sua motivação para estudar este objeto, o jovem mainstream? Maria Isabel Mendes de Almeida - Como venho estudando os jovens há algum tempo, comecei a ver este espaço da noite como uma importante porta de entrada na contemporaneidade, no que diz respeito a gramáticas subjetivas, ou seja, a mudanças expressivas na arquitetura mental dos jovens. A noção de espaço é muito importante para se verificar estas mudanças. A idéia de que o tempo, que caracterizava a modernidade - o tempo da fábrica, o tempo do progresso -, foi substituído pelo espaço como categoria de importância para se entender a pós-modernidade. Hoje, estes jovens vão para a night, ou seja, vão para a noite como se vai para um lugar. A própria noite se torna um espaço. A partir daí, a noite e as formas de lazer noturno se tornaram um objeto atraente a ser perseguido. E nós perseguimos estes jovens durante dois anos e meio, não só no espaço da noite, como também nos seus colégios, nas suas casas, tendo como pressuposto que estes jovens tinham um vida social muito ativa, no sentido da noite e do lazer noturno. Mood - Seu livro mostra jovens perfeitamente integrados ao cenário pós-moderno. Ainda assim, chama a atenção o fato dos comportamentos destes jovens não serem, em nenhum momento, abordados com um tom repreensivo ou, como seria de se esperar, como sintoma de uma suposta “falta de sentido” ou “degradação de valores” crônica do mundo contemporâneo. Maria Isabel - Para nós esta é uma questão muito importante, quase que uma colocação de princípios. Há hoje, na nossa visão, uma espécie de pânico moral que se alastra na sociedade com a pós-modernidade. É o “fim dos valores”, o “fim da história”, o “fim do indivíduo”, essa idéia de uma “corrosão moral” e, ao mesmo tempo, uma postura muito nostálgica em relação a tudo o que se perdeu. Isso acaba justificando este pânico moral, sublinhado por grande parte da mídia, dos intelectuais e dos formadores de opinião. No caso do nosso estudo, seria muito fácil caricaturar ou julgar, dizendo que isso seria o niilismo, o fim de tudo, a aniquilação de valores, o fim da linguagem, mas de modo algum nós realmente achamos isso. Ao contrário, procuramos mostrar realmente uma forma que está despontando como mudança comportamental e subjetiva, e mostrar o que está acontecendo através de depoimentos e entrevistas. Isso é uma questão princípios, eu pessoalmente jamais julgaria este universo com os meus valores, porque com isso eu necessariamente estaria sempre regendo, ou seja, os meus valores é que teriam sentido e que seriam contrastados com o que acontece. Isso não é válido dentro da postura de um investigador, comprometer não só os seus valores, como também partilhar desse espírito excessivamente crítico, ácido e demolidor que encontramos hoje na atualidade. Nós procuramos mostrar o que está aí, e acho que isso é muito importante para todas as classes profissionais, para os psicanalistas, para os filósofos, para os historiadores. No caso, por exemplo, da psicanálise, procuramos mostrar um pouco como está operando esta nova estrutura da subjetividade que vem deixando os psicanalistas perplexos, ou seja, dar pistas de como abordar clinicamente este jovem. Mood - Em diversos momentos você aborda a diferença entre estes jovens e os jovens ditos alternativos. Quais são, para você, os pontos centrais dessa diferenciação? Maria Isabel - Eu acho que o princípio diferenciador dominante, na visão na visão destes próprios jovens tidos como mainstream, encontra-se na discussão do “perder a linha”. Para eles, a idéia de “perder a linha” é muito mais próxima do universo alternativo. Não que eles se dêem conta do quão controlados e disciplinados são - quando nós discutimos a estética básica fica claro que não se pode fugir muito de um certo perfil modelar, no sentido da atitude comedida, da maneira de se vestir totalmente regida por um código monocromático, neutro, das cores que não implicam em exagero, em acentuar muito um padrão estético, mas manter a coisa do básico. Já as festas rave, a música tecno e lugares como a Bunker, por exemplo, são considerados mais alternativos por nossos informantes. São lugares onde se pode relaxar um pouco mais, onde a coisa de “perder a linha” não se torna um imperativo tão forte. Sobre esta questão da juventude alternativa, eu acredito que São Paulo é hoje uma cidade com um campo muito mais fértil que o Rio. O Rio talvez seja mais mainstream por ser uma cidade mais relativizada o tempo inteiro. Acho que você não encontra, no Rio, um estilo absolutamente forte, muito acentuado ou com princípios, na área da música e na área do lazer. As coisas aqui parecem estar sempre se zerando, tudo chega a um jogo de soma zero. As preferências musicais, de cinema, no mundo das artes, estão sempre se equivalendo. Parece que as coisas são tomadas por um certa frouxidão de opções, não há um rigor de opções. Mood - Apesar das diferenças, é relativamente comum ver a night mainstream se apropriar, em certos momentos, de espaços tipicamente alternativos, como se eles entrassem na moda. Em que termos se dá isso? Maria Isabel - É uma característica desse perfil carioca. Eles se revezam sem problema, podendo ter um leque de opções que vai desde o que há de mais radical em música tecno, como a Bunker ou a Dama de Ferro, até uma night na Nuth. Eles preservam a possibilidade de transitar através, por exemplo, da indumentária. Se vestem de acordo com a ocasião, permutam claramente a maneira de se vestir e também não conhecem tão a fundo a música tecno, por exemplo. Mas a coisa de estar na moda é muito sedutora e muito praticada por estes jovens. É como se estivessem o tempo todo mudando de camiseta, não há esta idéia de uma ideologia cristalizada em torno de um estilo, como se vê por exemplo em São Paulo, visitando a galeria Ourofino. Lá realmente é um templo da estética alternativa, uma coisa que não se vê no Rio. Aqui você tem um detalhe ou outro da estética alternativa, mas não tem templos alternativos, punks, darks, tecnos, clubbers, etc. Não existe essa filiação no mercado, dentro de uma estrutura do consumo. Há pouquíssimos lugares conhecidos, ou então o alternativo aqui é algo que existe muito mais na classe média baixa, ao contrário de São Paulo, onde a classe média possui repertórios alternativos mais perceptíveis. Mood - Em certos pontos do livro, você sustenta análises sobre características específicas do Rio de Janeiro, como a praia, por exemplo. Até que ponto o cenário descrito no livro se aplica a outras metrópoles? Maria Isabel - A questão da praia pode ser realmente um elemento diferenciador, mas estamos lidando com comportamento basicamente ligado à classe média cosmopolita, urbana, e à trajetória do indivíduo no final do ensino médio e início da vida universitária. São padrões de consumo e relações com o lazer e com a tecnologia que talvez não permitam encarar a praia como algo que impeça uma certa dose de generalização. Na verdade, é um padrão quase transnacional. Apresentando este trabalho na Suécia, por exemplo, percebi várias possibilidades na coisa do lazer, não tanto no lazer noturno, mas no lazer dos esportes radicais, onde há um comportamento parecido, no plano da subjetividade, com essa maneira de se lidar com o espaço. Acredito que inclusive nos grandes centros urbanos de camadas populares - que hoje em dia, pela televisão e pela mídia, reproduzem muito certos comportamentos de classe média - você pode pensar hoje que, com essa estrutura globalizante, essas coisas se juntam muito mais. Claro que o Rio é uma cidade partida, mas curiosamente você vê esse padrão mauricinho ou mainstream de comportamento, de maneira de ser ou de curiosidade noturna, adentrando a favela Rio das Pedras para os bailes funks. Existe uma própria sedução do risco nessa juventude de classe média. Fica claro que a idéia do risco, do arrepio - essa coisa que o pessoal do funk diz, “vamos arrepiar” - acaba sendo sedutora para a classe média jovem, que vai então para os bailes funks, para lugares onde existe uma certa dimensão do risco. Portanto, nós afirmamos o fato de que este estudo se dá no Rio de Janeiro, mas ele tem conexões muito grandes com centros urbanos não só no Brasil, mas internacionais também. Marcadores: literatura
O Publicitário em Crise
Por Tiago Casagrande "Na minha profissão ninguém deseja a felicidade de vocês, porque as pessoas felizes não consomem" Octave Parango é um bem sucedido publicitário que se considera Deus - ou seja, é mais um profissional da propaganda como qualquer outro. Frustrado em sua criatividade pouco aproveitada, chafurdando na cocaína e sofrendo com a perda da mulher que amava, Octave já não suporta mais continuar essa vida de redator genial, em que se confere poder quase ilimitado. Mas não pode simplesmente desistir, ganhando o equivalente a 13 mil euros por mês; quer ser demitido, embolsar a indenização, isolar-se numa ilha deserta com prostitutas, pó e música. As atitudes extremas para que lhe chutem do emprego não funcionam – são vistas como "caprichos de um excelente criativo". Aí é que ele decide escrever um livro que bota toda a carniça para feder no meio da praça. Assim, ele espera, será enfim demitido. Dessa premissa surge 29,99 (“99 Francs”, tradução de Procópio Abreu, 272 páginas; Ed. Record, 2003), de Frédéric Beigbeder. Lançado com o preço de venda como nome em cada país onde foi traduzido, o livro tem sido aclamado como solidificador da nova geração literária francesa que, no Brasil, já chegou com Michel Houellebecq (com “Plataforma”, leia resenha aqui). Os dois autores trocam elogios em público e tem estilos semelhantes, encontrando-se principalmente no niilismo, no cinismo, na crítica feroz e na ode às prostitutas, símbolo escolhido para ser o encontro ideal entre homem e mulher numa situação onde todas as máscaras inexistem, porque a relação de troca já está previamente estabelecida. O aspecto autobiográfico é outro cruzamento entre Beigbeder e Houellebecq. Octave e seu autor são a mesma pessoa em grande parte do livro – assim como seu personagem, Beigbeder também era um publicitário brilhante. O livro vendeu, em poucos dias, mais de 350 mil exemplares na França e deu ao escritor o final que o personagem desejava: de fato, Beigbeder foi demitido da Young & Rubicam, um dos maiores grupos internacionais de publicidade, logo após o lançamento do livro. E os dons de bom redator publicitário se repetem na obra. Beigbeder começa o livro arrasando, berrando frases como se fossem dogmas recheados de uma veracidade mordaz e mesmo atemorizante. Nem bem você sai de uma pancada e ele já solta outra. Este é o ritmo: publicitário, entrecortado, cheio de imperativos e palavras de ordem. Lembra algum ditador do século passado? Por algumas passagens de 29,99 Beigbeder foi duramente criticado por fazer apologia aos nazistas – mas, ao ler o livro, isso acaba soando como factóide. As (poucas) citações que faz a Hitler, Goebbels e cia. são apenas para ilustrar que o nazismo desenvolveu e foi mestre na arte da propaganda. Nem mesmo o tresloucado protagonista ousa apoiar o monstro ditador. A criatividade também está na divisão dos capítulos. São seis: “Eu”, “Tu”, “Ele”, “Nós”, “Vós”, “Eles”. A pessoa narrativa vai mudando, mas sempre com o foco em Octave, cada vez mais desesperado com seu poder, mergulhando no pó, se entregando às prostitutas e, inclusive, sofrendo por amor. Entremeando os capítulos, breaks comerciais - sempre um roteiro para filme, carregado de cinismo e negatividade. Em meio ao seu desespero, uma campanha publicitária vai se aprumando num ritmo bastante conhecido em qualquer agência. As idéias criativas e interessantes são deixadas de lado pela ortodoxia babaca do cliente; no fim das contas, em um minuto, a dupla de criação faz o que o cliente vai aprovar. "O maior cliente de uma agência de propaganda é a lata de lixo", diz Octave, com propriedade. UM LIVRO PARA PUBLICITÁRIOS? Sobretudo, um livro para consumidores. A visão é de dentro, mas abrange todo e qualquer ser humano que viva sob regime capitalista. Claro que leitores envolvidos com a publicidade vão ter uma degustação diferente do volume – é impossível, por exemplo, não se deixar embalar pelos geniais Dez Mandamentos do Criativo. Um deles, o segundo, diz: "A primeira idéia é a melhor, mas sempre se deve exigir três semanas de prazo antes de apresentá-la". Mas Beigbeder propôs-se a fazer um romance contra a propaganda, repleto de denúncias, ainda que sem panfletismo barato – ao mesmo tempo que, de alguma forma, isenta seus profissionais (Por quê me deixaram ditar os costumes? Por quê me permitiram determinar às pessoas o que elas vão vestir ou comer ou dirigir nessa primavera?), e os culpa por perpetuar essa “dominação”. O jargão publicitário corre num lençol por baixo da superfície do texto; chega a haver um capítulo dedicados ao papo nonsense em uma reunião de pré-produção de um filme. Se você não está familiarizado e acha que isso pode dificultar o entendimento do texto, não desista – é essa a intenção de Beigbeder. Confundir o leitor da mesma maneira que a propaganda (e não só ela, mas também os meios de comunicação em geral) confunde. O estilo nervoso cerca a virada na obra, quando Octave e sua turminha perdem totalmente o rumo. O humor vai ficando mais pesado, mais negro, e o livro passa de chocante a depressivo. Mais uma vez, o niilismo detectado pelo autor na sociedade moderna não é evitado na obra, que ganha em densidade e dramaticidade. 29,99 é mais uma excelente amostra da produção francesa contemporânea, que parece ter lido “Generation X” com dor de dente. Ao levar o apocalipse para dentro da personalidade das pessoas, Beigbeder não se esquiva de responsabilidades – nem de colocar o dedo na cara do leitor, acusando-o de estar fugindo do seu papel ao comprar aquele carro ou aquela cerveja. E com sua prosa cheia de slogans, títulos e chamadas, vai convencendo o leitor a passar para o seu lado. "Vocês acham que têm o livre-arbítrio, mas um dia ou outro vão reconhecer o meu produto nas prateleiras de um supermercado e vão comprá-lo, assim, só para experimentar; acreditem, conheço meu trabalho"
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Um Francês em Pattaya Beach
Por Tiago Casagrande “1. O valor de um ser humano é medido hoje por sua eficiência econômica e por seu potencial erótico. 2. Num sistema econômico perfeitamente liberal, alguns acumularão grande fortunas; outros afundarão em desemprego e miséria. Num sistema sexual perfeitamente liberal, alguns irão experimentar uma variada e excitante vida erótica; outros serão reduzidos à masturbação e a solidão.” Essa pode ser a essência do mundo de Michel Houellebecq. Visionário, gênio, perturbador, contundente, imbecil e reacionário estão entre os adjetivos mais comumente associados a sua obra – e a sua pessoa. Polêmico como todo francês que se preze, é considerado a maior sensação literária da França nos últimos 20 anos pelo New York Times Magazine. Houellebecq (pronuncia-se “uelbek”) é comparado a Sartre, Camus e, mais freqüentemente, a Honoré de Balzac, por sua principal habilidade – a de retratar as chagas da sociedade ocidental contemporânea. Essa característica foi magistralmente desenvolvida por Balzac, em seu tempo, nas Ilusões Perdidas. Nesses passos caminha Houellebecq. Não com a visão de um intelectual trancafiado em alguma universidade – mas com o choro de quem soube descobrir uma redução cultural, apostou no ser humano e perdeu feio. Tampouco é justo afirmar que sua maneira de escrever é coloquial ou simples; sobram estilo e fluência na sua escrita, sempre recheada de citações de grandes escritores e análises sociais bem colocadas nas palavras de seus personagens.  | A poeira começou a levantar em 1998, com o lançamento de Partículas Elementares – mais de 300 mil exemplares vendidos na França. No livro, Michel – o autor e também o protagonista da novela – coloca a culpa de todos os males do mundo ocidental contemporâneo na revolução comportamental dos anos 60. Entremeado, é claro, de muita pornografia. Foi considerado o sucesso literário mais inesperado de todos os tempos – se Houellebecq fosse cavalo de corrida, provavelmente ninguém apostaria nele (exceto, talvez, por seu editor). A mistura explosiva de sexo, em descrições que beiram o rasteiro, com a apurada visão da sociedade contemporânea, transformou o francês, um legítimo fracassado, num best-seller.  | No recém-lançado Plataforma (Record, 2002, 383 páginas), o protagonista (novamente chamado) Michel, um funcionário público – burocrata do Ministério da Cultura – recebe a herança do pai e resolve excursionar pela Tailândia, em férias. E a Tailândia é um dos destinos preferidos dos turistas a procura de sexo barato e diferente. Na viagem, envolve-se com Valérie, executiva do Turismo. E por ela desenvolve sua vida adormecida em comodismo exacerbado. Na obra há doses maciças de ironia, inteligência, sacanagem e sarcasmo. E sobretudo elegância. Houellebecq é um escritor que não se exalta. Nunca. Nem ao narrar os prazeres das mais variadas fantasias eróticas. Ele assume o olhar indiferente do niilismo e do tédio e conduz com facilidade o leitor até a sua sociedade ficcional. E aí reside seu trunfo: aos poucos, desvenda essa sociedade e mostra que, de ficcional, há quase nada. Ler Houellebecq é uma espécie de choque catártico com a realidade, uma dose cavalar de exageros mundanos e falta de perspectivas. É um livro-bomba, que ataca o Islã, o sexo, o turismo, o dinheiro, o governo. (Como se não bastasse atacar os muçulmanos em Plataforma, Houellebecq disse, em entrevista à revista literária francesa Lire, que “embora todas as religiões monoteístas sejam estúpidas, o Islamismo é o mais estúpido de todos”). Trata as prostitutas como criaturas desprovidas de qualquer outro valor que não o econômico – sempre sublinhando que a quantia paga pelo protagonista era equivalente a um mês de salário de um empregado de mão-de-obra barata num país de terceiro mundo. Por tudo isso, vem sofrendo ataques do trade turístico da França, de outros escritores, de editores de guias de turismo, de cristãos e de muçulmanos. Houellebecq nem liga. Quando está bêbado, responde às críticas com uma simples frase: “Eu sou o astro da literatura francesa”. Pessoalmente, Houellebecq parece ser uma pessoa asquerosa. Vá lá, o destino também não ajudou muito: nasceu na ilha de La Réunion, na costa de Madagascar, colônia francesa, filho de hippies que não deram a mínima para ele. Aos 6 anos, o mandaram para Paris, para ser educado pela avó. Foi um adolescente com problemas de depressão, viciou-se em morfina, caiu com tudo na bebida e começou um longo vaivém em hospitais psiquiátricos para tratar sua ansiedade. Nos anos 90, encontrou um emprego – técnico de softwares – e começou a escrever ensaios e poemas. Hoje vive na Irlanda, isolado do mundo, sem luxo algum. Aos 42 anos, é um ser humano que reduz seus movimentos ao mínimo. Seus maiores amigos são os cigarros e o uísque, e o sexo é sua única fonte de gratificação – mantém um casamento aberto, e de fato freqüenta os clubes de swing que tanto aparecem em suas obras. E diz que a única coisa valiosa que sua fortuna acumulada pelas altas vendagens lhe proporcionou foi a possibilidade de fugir do pesadelo de ser empregado. Os livros deram o hábeas corpus que Houellebecq tanto queria: agora, ele não precisa mais tentar ser bem-sucedido.
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Cozinha Confidencial
Por Tiago Casagrande De comer, todo mundo gosta. Alguns vão mais além: aventuram-se nos meandros da cozinha, aprendem a fazer um macarrão que não precise ser cortado com a faca e são os primeiros a dizer “Deixa que eu cozinho!” quando a turma resolve fazer um jantar. Não raro, foram crianças fascinadas pela alquimia dos ingredientes, magicamente misturados para transformar-se naquele manjar branco, na torta de chocolate, dos sequilhos de polvilho dos pais ou dos avós. Anthony Bourdain não tem nada a ver com essa história. Era um moleque enjoado cujo aventura culinária máxima consistia em descobrir quantos litros de catchup conseguia colocar num prato. Seus “momentos mágicos” foram dois: o primeiro, ao provar uma vichyssoise, a tradicional sopa francesa servida fria; o segundo, quando comeu ostras recém saídas do mar, a bordo de um barco de pescador. Essas duas experiências mostraram ao pequeno Tony que a comida podia ser instigante, interessante, diferente. De qualquer forma, isso foi apenas um pensamento passageiro na sua mente. Aos dezoito anos, perdido, mimado, sem vontade de nada nem perspectivas, foi atraído pelos amigos para Provincetown, cidade portuária dos Estados Unidos, para passar o verão. Arranjou um emprego como lavador de pratos num restaurante decadente. E lá acabou descobrindo, pela primeira vez, que desejava tornar-se chef de cozinha. O que ele viu? Ex-presidiários, roubo de comida, toneladas de drogas e sexo fácil. Cozinha Confidencial (Companhia das Letras, 376 páginas), autobiografia de Anthony Bourdain, é cortantemente sincero. O chef executivo da brasserie Les Halles (www.leshalles.net) mostra-se também escritor de prosa fácil e bem articulada, neste seu quarto livro – o primeiro de não-ficção. Lançado em 2000, chegou aqui no final do ano passado e permanece meio perdido nas prateleiras das livrarias – ora na seção de gastronomia, ora nas biografias, ora em não-ficção. E se houvesse uma categoria chamada “denúncia”, também estaria lá. Porque se algo de podre pode acontecer na parte de trás de um restaurante, Bourdain descreveu no volume. Não com um tom de reprimenda, nem com ares de moralista: o chef-escritor simplesmente conta o que viveu – e vive até hoje – sem temer represálias. Sem pompas de justiceiro ou vergonha de dedo-duro, mas com a mesma crueza com que os fatos descortinaram-se para ele. Talvez distante da realidade dos restaurantes brasileiros (Bourdain não imaginava que o livro fosse mais longe do que a Filadélfia). Ou não. Eu não saberia afirmar. Mas dê-lhe sua justa contextualização e aproveite a leitura. Ao contrário do que pode parecer, o livro não é uma ode hippie – muito menos jornalismo investigativo. Bourdain descobriu que sabe contar histórias, e é o que faz ao longo das páginas de Cozinha Confidencial. Levando a contracultura a seus ápices e politicamente incorreto até o último fio de cabelo, o autor destrincha o mundo da culinária profissional – sempre com afirmativas peremptórias e coberto de verdades absolutas, mas lembrando o tempo todo: eu posso estar errado, e eu devo estar errado. Entre um baseado e uma aspirina, Bourdain leva o leitor para a cozinha e explica como ela funciona, como tornar-se um chef, por que não abrir um restaurante, por que não comer peixe às segundas-feiras, por que não pedir seu filé bem passado, por que um brunch é uma péssima escolha, por que devemos sair para jantar à terças-feiras. E, o tempo todo, mostra por que a culinária é uma arte tão fantástica e fascinante.
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O Que a Noite Conta
Por Gamba Jr. Falar sobre OqueANoiteConta é, antes de mais nada, falar sobre a MOOD, em sua eterna função de laboratório de idéias e vivências. Gamba Jr., assim como muitos que por aqui passaram, soube aproveitar bem a oportunidade. Designer, doutourando em Psicologia, acrobata e integrante da Cia. NósNosNós – Tragédias e Comédias Aéreas, Gamba enxergou na MOOD a possibilidade de interagir com o suporte cibernético, dando início ao processo que se desdobrou, 2 anos depois, no livro de contos recém-publicado pela 7 Letras, OqueANoiteConta. Foi em meados de 2000 que tudo começou. Segundo Gamba, a idéia surgiu de uma compulsão, “Há muito tempo – desde minha infância – que eu sou obcecado pela produção de imagens narrativas. Crio personagens, ambientes e tramas como quem vai à terapia, tomando muita precaução para não parar jamais, com o risco de enlouquecer. É desse processo obsessivo que acaba saindo todos os meus projetos. Diante de qualquer suporte que eu me encontre eu começo a contar histórias, e quando não há de fato esse suporte – ou pelo menos não de maneira convencional – eu intervenho na realidade criando personagens em farelos de pão ou nos rostos que encontro na rua, ou seja, invento uma mídia para essa obsessão”. A compulsão – que neste caso, podemos por assim dizer benéfica – proporcionou a aproximação de Gamba com a MOOD. A proposta era que o site, a partir de seu atributo conceitual: noite, e físico: internet/tecnologia, servisse de suporte à experiência dos contos que surgiam a cada edição, formando um todo fragmentado, situação comum em nossa vivência tual. Trazer à noite para a narrativa presenteou o site com alguns personagens fantásticos, e outros reais. Foram mariposas, vampiros, prostitutas, lixeiros personagens da noite que, a cada conto, se transformam em nós mesmos, leitores. O denominador comum – noite – é acrescido de uma tênue crítica contra hábitos estão presentes em todos nós. É o caso de Tenório, do conto intitulado “Michês”. A princípio, acredita-se que este será um michê mais “tradicional”, desses que vemos em todos os cantos. Entretanto, o que encontramos é um michê de uma pessoa só para quem vende o corpo e a alma, diariamente. E é claro que logo nos vêm a cabeça: até que ponto não somos nós mesmos, diariamente? Até que ponto não vendemos nossa alma em troca de moedas e ilusões voláteis, efêmeras? No conto “Lixeiros”, então, essa abordagem chega a doer, principalmente quando vemos caracterizada a questão dos direitos humanos no sentido inverso do desenvolvimento financeiro e produtivo. A impressão que permeia não apenas esse conto, mas todo livro, é que a noite surge como uma metáfora para nos expor aos segredos do mundo. Nesse sentido, a definição de antrophos por Umberto Eco, citada por Gamba no livro e ponto de partida para seu trabalho, como “aquele que reconsidera o que viu” não poderia estar melhor colocada, pois concluímos que a noite se define como o espaço no qual podemos reconsiderar nossas atitudes, hábitos, papéis, vidas. Em OqueANoiteConta, Gamba segue Eco na medida em que reconsidera, reconstitui e resgata a vida. “A idéia de repensar o humano é para mim indispensável, deve nortear desde o gesto mais concreto até o ato mais místico, pois não são privilégios de nosso tempo esquemas que oprimem esse “humano” em posturas totalitárias. Há uma tradição histórica de opressão do indivíduo pelos mais diversos tipos de equívocos, sejam os governos ditatoriais, sejam os regimes econômicos injustos, as violências físicas, as construções filosóficas discriminadoras, os entretenimentos esvaziados de sentido, as práticas culturais alienantes, as relações familiares castradoras”. Com tanta opressão, a noite de Gamba nos ajuda a reconstruir nas sombras, buscando uma luz que não necessariamente está no dia, mas sim internamente, na existência de cada um de nós. Marcadores: literatura
A Literatura de Woody Allen
Por Tiago Casagrandre A cena é freqüente nos desenhos animados: o Coiote, lata de tinta e pincel na mão, desenha um túnel atravessando uma montanha. O Papa-léguas, surpreendentemente, atravessa tranqüilamente a passagem, e o Coiote, abismado, tenta fazer o mesmo – dando de cara na rocha. É isso que Woody Allen faz conosco em seus livros: abre um oceano nonsense na página, e atrai-nos a dar uma cabeçada no estilo enxuto, denso e sarcástico dos contos. O nervosismo, a neurose, a cultura judaica típicas de seus filmes unem-se ao desprendimento com a realidade, com a lógica, muitas vezes sem controle, levando a ironia ao seu ponto máximo. Se você é daqueles que acha os filmes de Allen difíceis de assistir, nem chegue perto. A editora L&PM, detentora dos direitos das obras de Allen no Brasil, mantém em catálogo regularmente três livros de contos, em formato pocket: Que Loucura, Sem Plumas e Cuca Fundida (com tradução segura de Ruy Castro). São textos publicados na revista New Yorker nos anos 60 e 70, antes que ele voltasse sua dedicação total ao cinema – com eventuais paradas para o clarinete, é claro. Nos três volumes, o que se vê é um desfile de criatividade, protagonistas judeus e medrosos (como de praxe) e temas corriqueiros, repletos de citações filosóficas. A cada conto, uma surpresa. Em “Que Loucura”, Allen coloca o seu personagem preferido (ele mesmo) em um triângulo amoroso formado por ele, sua namorada e a mãe dela. Até aí, nada de novo. Mas o amor platônico pela mãe da garota faz com que os dois se aproximem, e a namorada não consegue mais fazer sexo com ele – porque, agora, ele a lembra do pai dela. Já na “Puta com PhD”, um detetive infiltra-se numa rede de prostitutas intelectualizadas, que são pagas para discutirem Kant e Kierkegaard. (Num outro conto, o mesmo detetive é contratado para descobrir quem matou Deus.) E também há aqueles em que Allen solta-se ao imaginário puro: “Os Róis de Metterling” é a resenha de um livro fictício, que analisa a vida de um gênio através de suas listas de lavanderia; ou em “Educação para Alfabetizados”, onde sugere cursos que gostaria de freqüentar (como Leitura Dinâmica, onde os alunos são forçados a ler as páginas em diagonal, pulando tudo, menos os pronomes – e, no módulo avançado, até os pronomes. A prova final é ler Os Irmãos Karamazov em 15 minutos). Como “bônus”, ainda existem algumas peças de teatro de sua autoria – “Deus”, por exemplo, está atualmente em cartaz, correndo o Brasil. Assim como os filmes, a prosa de Allen é para se gargalhar ou odiar – sem meio termo. Ao preço médio de menos de 10 reais, é um investimento baixo para dar uma chance a si mesmo de descontrair e sair da rotina, com seus textos deliciosamente inverossímeis.
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Como Fazer Camarões Para Luisa
Por Camila Dalbem Arroz com camarões ou não, qualquer coisa que se vá ingerir deve ser criada à base de bons temperos e ingredientes frescos. Eu sou um expert. Verifique se há espaço suficiente para que todo o necessário esteja ao seu alcance, às vezes não há tempo para buscar o que está longe. Luísa está correndo no calçadão, a pele bronzeada com marca de macacãozinho de lycra. Comece pelo molho, que pode ser feito até um dia antes. Pegue uma panela de ferro e coloque cinco colheres de sopa de azeite. Assim que o azeite estiver quente, coloque uma cebola grande cortada em cubos e espere que ela comece a dourar, pois só assim seu gosto passará para a comida. Então adicione três dentes de alho moídos, meio pimentão picado, salsa a gosto e uma colher de sopa de molho inglês. Antes que comecem a queimar (ouça o chiar dos ingredientes na panela), junte dois tomates sem pele e, em seguida, algum tempero comum de sua preferência. Quando o tomate começar a formar um molho, coloque uma pimenta vermelha e sal. Baixe o fogo e espere bebendo um bom vinho, mexendo de vez em quando e pensando que em breve Luísa estará sentindo o cheiro da pimenta, da cebola e do alho. Luísa não gosta de ter cabelos loiros, então tem cabelos castanhos, quase loiros. Luísa não bebe vinho. Eu não sou um homem convincente. Provavelmente, se Luísa não beber vinho, nunca conseguirei vê-la deitada, com a marquinha do macacão de lycra, sobre os lençóis azuis. Luísa até já cheirou Miolo e vinho de boteco, mas ela usa um coque preso por uma redezinha e saia abaixo do joelho quando entra na minha casa. O sol está se pondo. Uma nuvem cor-de-laranja parou em cima da minha janela, e de repente já é noite e ela ainda está ali, cor-de-laranja. O molho já está frio e a campainha toca pela segunda vez. Abro a porta. Oi, Luísa. Ela nunca responde quando eu falo o seu nome. Senta aqui. Coloco dois copos sobre a mesa à frente dela e encho de vinho até transbordar. As pernas de Luísa estão quase cor de carvão, não vou pensar no macacãozinho. ( ... ) Em outra panela, coloque cinco colheres de sopa de azeite e aguarde até esquentar. Frite meio quilo de camarão, adicionando apenas um pouco de sal. Cuide para não queimar. Assim que notar que os camarões não estão mais crus, junte o molho. Quando começar a borbulhar, despeje uma xícara de arroz e deixe por aproximadamente um minuto. Por fim, acrescente duas xícaras de água e espere secar. Enquanto isso, Luísa lança uns três olhares que considera provocante. Mas ela não passa de uma bonequinha engraçadinha. Luísa levanta e caminha pela cozinha, apreciando por dentro meus conhecimentos culinários. Dá umas fungadinhas na panela e sai com os olhos ardendo. Arrisca dizer que não vai comer isso aí. Porque eu não coloco um ingrediente especial, encho o pratinho de Luísa e acabo de uma vez com tudo isso. É claro que ela vai comer. Não entendo essa necessidade de fazer desmoronar a minha última gota de confiança, o meu arroz com camarões. Se ela tentar acabar comigo mais uma vez eu me vingo, juro que não vai sobrar um pedacinho de Luísa pra me atacar. E fim com esses risinhos pseudo-sedutores. Se quiser me seduzir tem que soltar o cabelo, no mínimo. Tem que ter marquinhas de macacão de lycra à mostra. Peitinhos soltos dentro da blusa. E se puder dar uns miados, bem fininhos, ficar de quatro, esfregar o rabinho nas minhas pernas. Isso sim é coisa de gatinha, Luísa. Marcadores: literatura
Morrer
Por Foguinho Noite. Frio. Uma vela ainda estava acesa. Meu corpo estirado em um sofá de veludo verde escuro. A última garrafa de vinho, que eu bebera já há quatro dias, ainda jazia jogada perto da pequena mesa onde estava a vela, espalhando pelo ar seu cheiro acre de vinho quente. Na cozinha, a geladeira estava vazia. Tenho impressão que a desliguei já fazem alguns dias. Os copos e os pratos, todos transformados em cacos, formam um tapete cristalino que reflete a pouca luz da vela que chega até ali. A porta e as janelas seladas com tábuas que preguei na parede. Os pregos e o martelo também estão jogados no chão. Não há como entrar aqui. Tirei o telefone da tomada. Não existe maneira do mundo exterior me alcançar. Nem mesmo amigos e parentes podem me encontrar aqui. Planejei tudo muito bem. Todos acreditam que estou viajando. Além disso, este apartamento não é o meu. É um apartamento em um prédio vazio, que aluguei inteiro. Nenhuma luz, com exceção da emitida pela chama da vela, ilumina este lugar. Acho que é a última vela. Não tenho certeza. Perdi a noção do tempo já faz um tempo. Não sei quanto tempo passou desde que me tranquei aqui.. Meu relógio está quebrado em algum lugar da casa. A televisão, que ainda está ligada, no início ainda me mantinha preso à realidade. Mas o entorpecimento causado pelas bebidas e o delírio das drogas logo me fizeram deixar de entender o que acontecia. Aquilo era apenas uma caixa de imagens, que entre as vezes que eu caía bêbado ou inconsciente, me pareciam completamente aleatórias. Como se a sucessão interrompida de cenas, hora de um programa, hora de outro, fizesse surgir toda uma nova lógica. Agora ela está ligada sem som. O som que ouço está no aparelho de CD. Acho que já fazem alguns dias que ele repete a mesma música incessantemente. Talvez semanas. Tenho a impressão de ter pensado em trocar o CD, mas então acho que meus pensamentos foram levados para outro lugar, por ventos de insanidade que assolam minha mente com intensidade cada vez maior. Parece um daqueles ventos com aquele pólen estranho de Darkover. Pirações da Marion. Meu corpo está seco, e minha barba e cabelos bem longos. Não lembro a última vez que troquei de roupa. A dor da fome já não me incomoda mais. Agora simplesmente espero que aconteça o que decidi que deveria acontecer. Minha saliva está muito espessa. Parece muito difícil afastar a língua do céu da boca. Em meio a tudo isso só minha decisão, e o que me levou a ela, importam. Ela será o grande final de minha arte! Minha partida triunfal! Talvez assim eles entendam o que eu quis dizer. E eles nunca entenderam. Através de imagens, palavras e músicas eu tentei fazer-me compreender. Tentei mostrar a beleza que havia nas coisas. O prazer que a beleza podia nos proporcionar. Tentei mostrar o quão delicioso era viver, e fazer que entendessem o valor de tudo. Eles leram minhas palavras, viram minhas imagens, cantaram minhas músicas. Compraram meus livros e álbuns, contaram e dançaram comigo em grandes apresentações. Repetiram por inúmeros lugares tudo aquilo que eu dizia, e por um breve momento eu acreditei que eles entendiam! Entreguei-me ao prazer absoluto de conseguir transmitir ao mundo aquilo que me era mais sagrado. A verdade que me movia era agora compartilhada por todos, e através dela eles seriam capazes de ter o mesmo prazer que eu tinha. Rapazes imitavam minhas roupas, e em noites bebendo na casa de amigos, alguns tocavam e cantavam aquilo que eu criara. Belíssimas garotas gritavam declarações de amor e promessas enlouquecidas. E com várias delas entreguei-me às mais extasiantes noites. Nunca amei nenhuma, e elas só queriam me tocar. Só queriam poder dizer que haviam estado comigo. Isso era divertido de certa maneira, mas foi quando notei isso é que o véu de perfeição que pairava sobre minha vida começou a sumir. Minha arte não importava para eles. E viver era minha arte! Eles me imitavam, gritavam meu nome, enchiam meus bolsos de dinheiro e não entendiam nada! Eu era apenas algo momentaneamente diferente do resto. Algo novo a ser imitado, sugado, absorvido. E em questão de anos nunca mais se lembrariam de minhas palavras. Isso turvou o mundo diante de meus olhos. Cessou o batimento do meu coração. Matou o amor que u tinha por tudo aquilo. Eu não era capaz de aceitar. Não viveria com aquilo. Minha arte, que a meus olhos era tão bela, não fazia o sentido que deveria fazer pra eles. Não fazia nenhum sentido! Em muito pouco tempo decidi o que faria. E por duas simples razões. A primeira era que eu realmente não seria capaz de continuar cm aquilo. A segunda, e mais importante, era que talvez, depois de tudo o que eu iria fazer, eles finalmente entendessem. Decidi morrer. Morrer aos poucos. Decidi morrer aos poucos para poder pensar em tudo aquilo. Rever cada fato, cada ato, cada pensamento. Decidi morrer de fome. Sem comida nem água. Teria um bom tempo para pensar. Me trancaria com bebidas, comida, drogas. Quando isso tudo acabasse eu não iria repor. Morreria, de maneira estúpida, desumanamente. Me mataria com a mesma monstruosidade que eles mataram minha arte. Como eu já andava estranho, não compunha mais nada fazia algum tempo e havia cancelado já uns doze shows, ninguém estranhou que eu de uma hora para outra houvesse resolvido viajar. Pedi dinheiro, para meu empresário, para pagar as despesas. Como eu sempre esbanjava bastante ele não estranhou a quantia. Relutou um pouco em deixar-me ir completamente sozinho, mas acabou concordando. Com o dinheiro aluguei este prédio. Já estava vazio, caindo aos pedaços. Passei em uma loja de usados que havia ali perto e comprei as mobílias necessárias. Os aparelhos como televisão e CD comprei em uma loja de contrabandos também não muito longe. Tudo estava pronto. Tinha comida, bebida e drogas. Uma pilha bastante grande de CD's e outra de fitas de vídeo. Entrei, tranquei a porta do prédio. Subi até o último andar que era onde ficava o apartamento que eu mobiliara e tranquei-me dentro. Joguei todas as chaves na privada e puxei a descarga. Com as tábuas, os pregos e o martelo terminei de me lacrar dentro daquele peculiar caixão. Era isso que era na verdade. Minha tumba. Durante os primeiros dias permaneci bêbado. Escrevi muito, em papéis que cobrem todo o chão do apartamento. Depois disso me droguei muito, e isso me levou a um longo delírio, durante o qual, acredito, escrevi e desenhei por todas as paredes do lugar. As drogas acabaram, a comida acabou e então dei cabo das últimas garrafas de vinho. Agora nada mais tenho para comer e beber. Não sei que horas são, nem que dia é hoje. Sei que meu corpo está cheio de cortes causados por quedas sobre cacos de garrafas quebradas, mas não sinto a dor. Sei que o ar fede mas meu olfato já me abandonou faz um tempo. Meu nariz às vezes sangra e minha garganta está seca de sede. Em breve tudo estará terminado. E então, finalmente, terei alcançado pelo menos esse objetivo. Só preciso esperar. Acho que o delírio começa a tomar conta de mim por completo. Na televisão meu empresário me pede para repensar. Para não desistir. Tudo ficará bem, ele diz. Coitado. Não entende que prefiro enterrar minha arte à profaná-la. O CD parou, e do abajur sai minha voz e o som de uma guitarra. Sei que estou enlouquecendo. Minha voz canta algo que não tem forma. Parece um lamento. Réquiem. Olho minhas mãos. Vejo ossos. Ossos com veias que não param de sangrar sobre eles. O sangue mancha o veludo verde do sofá, que grita de dor e medo. Eu só consigo rir. Uma gargalhada seca e histérica. Fria como ferro. Que assustaria todos os vizinhos se o prédio não estivesse completamente vazio. De repente o silêncio. O fogo da vela parece aumentar e subitamente tenho a impressão que um vulto passou rapidamente entre eu e a luz da vela. Ouço barulho de papéis amassando. Como se alguém caminhasse sobre as folhas que servem de carpete para todo o apartamento. Mas não o ninguém. Sou tomado por um medo que rapidamente se transforma em pânico. Penso em levantar e tentar fazer alguma coisa, mas só consigo é encolher todo o meu corpo no canto do sofá. Afasto os cabelos que cobrem meu rosto e mais uma vez olho em volta. Finalmente o vejo. Um homem, alto, de longos cabelos negros, completamente lisos. Não consigo ver seu rosto, mas posso ver que veste um belo e fino terno. Confuso olho as portas e as janelas. Procuro desesperadamente por alguma tábua quebrada, um buraco. Nada. Continuam trancadas. Cada pedaço devidamente pregado em seu lugar. Como diabos ele entrou aqui? Talvez seja uma alucinação. Sim! É isso! A loucura está finalmente me tomando por completo. De repente o homem cruza os braços, balança a cabeça em um movimento negativo e estala a língua algumas vezes. Então, com uma voz sobrenaturalmente bela, começa a falar. "Um completo desperdício. Sem dúvida um absurdo desperdício, Claude." Como ele sabe meu nome? Como? "Incrível como os seres humanos tem uma capacidade inata de colocar seus melhores talentos na lata do lixo." Ele caminha, pega alguns papéis pelo chão. De repente a vela está em sua mão. Ele está de costas para mim, lendo. "Que belas palavras! Realmente uma sensibilidade que a raça humana não entenderia. Uma arte sem igual! Mas eu entendo." Virou-se em minha direção. "Como pode ser capaz de pôr fim em um potencial como esse? Vocês mortais nunca são capazes de entender a própria capacidade..." Nós mortais? Como assim? O que isso significa? Será ele a morte? Será que aquelas superstições absurdas tinham realmente algum fundamento? "Sou e não sou", ele respondeu à pergunta que não pronunciei. Foi quando vi em seu estranho sorriso a presença dos longos caninos que em um simples e gracioso movimento ele fez que penetrassem fundo em meu pescoço, antes de pronunciar minha última palavra mortal... vampiro. E junto com meu sangue a esperança de conseguir realizar meu último desejo se esvaía. Imóvel, indefeso eu, que tanto queria morrer, fui presenteado com a vida eterna. Marcadores: literatura
Christiane F.
Por Alexandra Marchi Nove entre dez jovens na década de 80 leram ou pelo menos ouviram falar da chocante biografia de Christiane F., uma adolescente alemã de apenas 13 anos que, em meados dos anos 70, afundou no vício de heroína e entrou na prostituição para sustentar suas doses diárias. Seu relato contava desde o primeiro contato com drogas leves até a rotina das picadas, a disputa pelos clientes e a perda de amigos vítimas de overdose. Para os que não tiveram a oportunidade de ler o livro e encontravam dificuldades para encontrá-lo nas livrarias, nem tudo está perdido. "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída" foi relançado neste ano pela editora Bertrand Brasil. Desta vez, quem ilustra a capa é o rosto dela mesma, numa foto da época. Christiane descreveu com uma riqueza de detalhes várias situações comuns na vida de um drogado, mas muito distantes de quem nunca esteve nessa condição. Através do livro ela pode nos dar uma idéia da sensação que se tem ao injetar heroína na corrente sangüínea ou o desespero das crises de abstinência. O resultado não poderia ser outro: tornou-se um best seller mundialmente. Em 1981, a história de Christiane F. chegou às telas do cinema. Com 124 minutos, o filme, que possui o mesmo nome do livro, tem a participação mais do que ilustre do cantor inglês David Bowie, ídolo de Christiane na época. Ele aparece em um show cantando "Station to Station", uma de suas músicas mais belas e que mais a perturbavam. Desde o lançamento do livro, vários boatos correram o mundo acerca de que fim teria levado Christiane. Quem leu a história certamente se perguntou: será que ela realmente conseguiu abandonar as drogas? Ou será que ela sofreu uma overdose num banheiro público? Todas as respostas estão no site http://www.geocities.com/christianefpage. Criado há dois anos, a página é um tributo a Christiane F. e contém fotos, compilação de matérias sobre ela, biografia de atores que participaram do filme e um guest book, com declarações apaixonadas do mundo todo. Aos que temiam um fim trágico para Christiane, ao menos uma boa notícia: ela cria sozinha uma filha de três anos. Com uma mãe dessas, esclarecimentos sobre drogas definitivamente não serão um problema. Marcadores: literatura
E assim se fez a designologia
Por Leandro Gejifinbein Certo dia, não muito distante, algumas pessoas andavam pela mata, pensando, entre o ir e vir dos animais velozes, em como a vida foi lascada. Orgulhosos, eles levantavam seus arcos e flechas e olhavam para o céu. Um agradecimento de aprendizes ao seu mestre. Nunca foram filósofos, e muito menos sabiam ou saberiam o que significava isso, mas se questionavam: Por que todas as coisas têm forma? Por que toda forma é única? Por que não há só uma única forma? - Olhem aquela pedra! Sem forma definida. Tão feia. Parece até uma árvore. - Parece? Se parece tem forma. Uma forma que não é a sua, é a forma da árvore. - Mas cada árvore tem sua forma, que árvore então se parece com aquela pedra? - Talvez não exista, a forma daquela pedra é ser uma forma única. Nem de pedra, nem de árvore. A forma é dela. - Mas então como sei que é uma pedra? - Não sabes. O que há é a impressão de ser. Olhaste e viste uma pedra, é sua primeira forma. Mas achaste que a pedra mais parecia árvore. Porque sabes que árvore também tem forma, mas nunca vai ser uma pedra. Por isso pedra é pedra. - Mas então que forma de pedra aquela pedra tem? - Depende. Estamos vendo de um lado só. Aproxime-se alguns passos e diga de novo a impressão que terás. O índio então chegou mais perto. Olhou com cuidado. Levou um susto. E voltou muito rápido. - Corram! Corram o quanto puderem. Não é pedra nem é árvore. É bicho. E nem queiram saber forma de que bicho tem! Corram! Todos correram e sumiram na mata fechada. Não sabiam pensar mais nada. Só gritavam olhando para cima: Porque todas as coisas têm forma? Por que toda a forma é única? Por que não há só uma única forma? Enquanto mais distantes ficavam e suas vozes enfraqueciam, as nuvem deixavam de ser velozes, ficavam escuras, e não demoraria muito para cair os primeiros pingos de chuva. - Estamos chegando na aldeia, podemos descansar um pouco. - Mas assim, a chuva nos alcança. - Chuva só molha. Não há do que ter medo. - Não tenho medo da chuva. Tenho medo é de água. Estamos cansados porque corremos de bicho que, com forma de árvore, parecia uma pedra. Muito mais medo tenho de água, porque ela pode ter qualquer forma. Como então vou saber de quê, antes de precisar correr? Tenho medo da forma, e pavor do que se transforma. Decidiram então seguir caminho e só pararam cada um em sua oca. Oca que com sua forma pode proteger da chuva e do vento. Tudo no mundo tem forma, para que cada coisa seja uma coisa. Nunca mais eles voltaram na floresta. Mas ainda guardam os arcos e as flechas. E pensam. Sabem que não podem mudar o mundo, mas a todos que saem para a mata eles aconselham: - Só confiem em pedra, se não tiver forma de árvore. E não esqueçam o guarda-chuva. Marcadores: literatura
E qual o sentido de tudo isso?
Por Foguinho - E qual o sentido de tudo isso? - Não sei. Não tentei entender. Só voltei pra casa a pé pra poder pensar. - Como de costume. - É. - Adiantou? - Nunca adianta. A verdade é que eu volto a pé pra poder sentir mais frio. - Inverno e essa chuva nojenta. Não sei se entendo. - Não entende não. Mas ainda assim é a pessoa que fica mais próxima disso. - Devo agradecer ou ficar triste? - Importa? - Não. - Quanto tu bebeu? - Quanto eu consegui pagar. - E isso significa o que? - Significa que não perdi meu tempo contando. - Misturou muita coisa? - Nem tanto. - Quem estava lá? - Todos. Menos eu. - Como assim? - Nunca estou lá. Fico sempre no meu canto. Não gosto de falar com eles. - Então pra que tu vai? - Porque ela gosta de falar com eles. - Mas vocês nem mesmo se falam! - Não tem como falar com ela. - Por quê? Ela não quer te ver? - Não. Eu que não quero falar com ela. - Timidez agora? - Não. Ela é chata mesmo. E superficial. - Então por que diabos tu vai pra um lugar que tu odeia só pra ver ela? - Não sei. - Sei... - Tá bom. Acho que até sei. Mas nem eu acho plausível. - Explica. - Não quero. - Tu é um saco mesmo. - Nem vem. - Odeio falar contigo pelo telefone. - E também odeia descer escadas. - Não gosto de ficar perto de ti quanto tu tá bêbado. Tu já não pensa sóbrio. - Não vamos discutir quem pensa menos bêbado, não é? - Tá. Eu mereci essa. - Eu vou ver ela porque ela é linda. Simplesmente tenho certeza que não verei nada mais perfeito que ela na vida. - Exagero. - Tu não viu com teus próprios olhos. E não é uma beleza simples, que possa ser contemplada por fotos. Tem que estar junto com o jeito de andar, se mexer. - Sei. - O pior de tudo é que é uma beleza momentânea. Efêmera. - Como assim. - Ela não vai ficar tão bela por muito tempo. No máximo por alguns anos, ou mesmo meses. Mas não pode sobreviver por muito tempo ao tempo. E quando o menor traço for mexido pela idade, ela deixará de existir. - Continua... - Pois as coisas deixam de existir quando mudam. E ela ainda mais. Pois a beleza dela é única, e tão delicada. Quando ela mudar deixará de ser tudo isso que é agora, e deixará de ser importante. Vai ser esquecida pra sempre. Não existirá mais. - Bonito. Mas triste. - Ela vai ser no máximo uma daquelas lembranças que são tão tristes e desesperadas que quando vêm tiram todo o ar dos pulmões de uma só vez. Que são trazidas de volta em segundos, ou por um cheiro, ou por uma música. - ... - Mas no caso dela, nem isso será assim. Pois nenhuma memória será capaz de reproduzir aquilo que ela é agora. - E é por isso... - Sim. Por isso que eu tento vê-la o máximo de tempo possível. Pois logo não poderei ver mais. - Que triste. - Vou desligar. Preciso dormir. - Mas amanhã é domingo. - Sempre é. Marcadores: literatura
O Lado Sujo de Havana
Por Dominique Valansi Para o "Mooder" que quer dar um tempo das saídas sem perder a agitação, uma das opções para ficar em casa e se divertir (muito) é ler os livros do cubano Pedro Juan Gutiérrez. Ele deixa o clima nostálgico e suave do filme "Buena Vista Social Clube" para trás e apresenta em pequenas crônicas uma outra Cuba: erótica, sensual, mestiça, suja, pobre e sujeita ao clima instável do Caribe, cheio de calor e tempestades. E também mostra ao leitor, mesmo sem falar diretamente de política, as conseqüências do cruel embargo americano à Cuba que trouxe miséria, fome, o desemprego, a prostituição, e lógico, fugas quase que suicidas para Miami. Para quem gosta de uma literatura à la Charles Bukowski, o autor é a pedida certa. Em seus dois livros lançados no Brasil pela Companhia das Letras, Trilogia Suja de Havana e O Rei de Havana, ele trata da realidade de seu dia a dia na capital cubana disfarçada em ficção, com sexualidade explícita regada a muito rum e salsa. Sua obra não é, de forma alguma recomendada aos moralistas e santinhas de plantão. Confira um trecho: "Sexo não é para gente escrupulosa. Sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, de saliva, hálito e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias. Ou não é. Se é só ternura e espiritualidade etérea, reduz-se a uma paródia estéril do que poderia ser." O autor muitas vezes retrata em suas crônicas o lugar em que mora: um terraço no oitavo andar de um prédio com vista para o mar que, como muitos em Havana, está caindo aos pedaços. Mesmo assim, ele ama Cuba e repete em entrevistas que não pretende sair de lá. Pedro Juan Gutiérrez esteve recentemente no Brasil durante a Bienal do Livro. Ele é também jornalista, poeta e escultor. Quando começou a trabalhar, aos onze anos, vendia sorvetes. Depois, trabalhou como soldado, técnico de construção e até cortador de cana-de-açúcar. Hoje, aos 50 anos é um escritor mundialmente famoso, com seus livros sendo vendidos em mais de vinte países, mas que curiosamente não é publicado em Cuba, onde as editoras alegam "razões comerciais" para não publicá-lo. Marcadores: literatura
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Para sua
cabeça, cultura é combustível.
Nesta seção a MOOD entra numa viagem
onde o assunto principal é a bagagem.
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