Sandman San




Por Sergio Bruno Martins

Neil Gaiman já provou ser um dos autores mais criativos da atualidade. Integrante, junto com Alan Moore e Frank Miller, de uma espécie de "santíssima trindade" dos roteiristas de quadrinhos, ele criou uma obra única, temperada por mitologia, subversões históricas e um certo humor negro. Mais recentemente, Gaiman mostrou a mesma desenvoltura em livros como "Belas Maldições" (em parceria com Terry Pratchett), "Stardust" e o excelente "Neverwhere".

Agora, o autor britânico volta à cena com uma mistura de quadrinhos e literatura. Como o nome do livro já entrega, em "Sandman: The Dream Hunters" Neil Gaiman retoma sua maior criação. A história é uma releitura de uma lenda do Japão medieval. Tudo começa com uma aposta entre um texugo e uma raposa para expulsar um monge de seu isolado templo. A raposa acaba se apaixonando pelo monge, e se vê compelida a salvá-lo da ameaça de um poderoso feiticeiro, o Onmyoji, que planeja matá-lo para roubar sua paz de espírito. Sim, é uma fábula. E deliciosa, diga-se de passagem.


Gaiman domina totalmente esta linguagem, e escreve o texto de uma forma quase contemplativa, em perfeita sintonia com o cenário e o enredo. Em termos de roteiro, o Rei dos Sonhos é apenas um coadjuvante. Mas a temática de seu reino domina a história, tornando-se seu palco principal.

Toda a atmosfera da história é capturada com maestria pelo ilustrador Yoshitaka Amano. Ele acrescenta visualmente ao cenário onírico do livro, tornando-o uma verdadeira experiência. Destaque para a ilustração em quatro páginas do Rei dos Sonhos em seu manto esvoaçante.

A edição (em inglês, capa dura) é muito bem acabada, digna de um colecionador. E se o livro tem um defeito, pode-se dizer que é o seu tamanho. São 125 páginas, algumas com apenas alguns parágrafos, outras várias com ilustrações, que podem ser facilmente lidas em um fim-de-semana. Fica inevitavelmente um gostinho de "quero mais". Como se você tivesse acordado no meio de um sonho bom.

Marcadores:

Noites Nômades

Por Sergio Martins

primeira vista, pode parecer estranho ver na Mood uma resenha sobre um livro que toma como objeto o jovem absolutamente convencional e mainstream, padrão do padrão da classe média padrão. Mas a esta impressão, tomada de preconceito, escapa o que certamente não escapou a Maria Isabel Mendes de Almeida e Kátia Maria de Almeida Tracy, autoras de Noites Nômades – Espaço e Subjetividade nas Culturas Jovens Contemporâneas (Rocco, 250 páginas): que este jovem e sua relação com a night podem ser a porta de entrada para uma abrangente e profunda discussão sobre o modo de ser da subjetividade no mundo contemporâneo.

Se em Noites Nômades o preconceito passa ao largo, a superficialidade mais ainda. O livro é fruto de dois anos e meio de pesquisas, dedicados a observação e à coleta de depoimentos de jovens (o termo “adolescentes” foi propositalmente descartado, pois remete à imagem de um indivíduo não-responsável por seus atos), em sua grande parte estudantes no final do ensino médio ou no início da vida universitária, todos típicos e entusiasmados freqüentadores da noite carioca. O material colhido, amparado por um mosaico de referências (todas didaticamente explicadas, de modo a evitar um possível hermetismo) antropológicas, filosóficas e psicanalíticas, permitiu que as autoras desenhassem um cuidadoso mapa da subjetividade, ou como a própria Maria Isabel definiu em entrevista para a Mood, da “arquitetura mental” destes jovens. A análise destes comportamentos subjetivos - aí entendidos como formas de se relacionar uns com os outros, de seduzir, de se vestir, de se portar socialmente e de transitar pelos espaços noturnos - é rica e proporciona uma série de reflexões sobre a própria natureza do espaço noturno e sobre o que significam, neste contexto, estilo e identidade.

Noite como espaço

A idéia-chave para se adentrar o estudo é a da noite vista como um espaço. Isso fica claro já no primeiro capítulo, Geografia da Night. O jovem em questão não vai apenas para uma boate ou para uma festa, ele vai para a night como se ela, como um todo, fosse um lugar. Tão importante quanto esta constatação é entender, então, quais são as características deste espaço. Não se trata de um espaço convencional, como uma sala de estar delimitada por quatro paredes e posições fixas, com uma poltrona num canto e um sofá no outro. O livro mostra que espaço da night é determinado pela trajetividade, ou seja, pelos fluxos incessantes que os jovens desenham ao movimentar-se na night. Daí a associação ao conceito de nomadismo.

Esta tese é minuciosamente trabalhada e abre diversas possibilidades, como por exemplo a de que as próprias zonas de passagem tornem-se espaços plenos da night. Fica fácil, a partir daí, entender o que leva postos de gasolina e portas de boate a se tornarem focos de aglomeração do público noturno. Ou então como a pista de dança, centro arquitetônico de qualquer boate, pouco significa nos ambientes próprios da night, em contraste, como explicam as autoras, com “espaços ditos ‘alternativos’, nos quais as aglomerações se formam em torno da música.”

A tônica da mobilidade, da impermanêcia, do instantâneo, percorre, de uma forma ou de outra, o livro inteiro. É sintomático, nesse sentido, que a própria capa do livro retrate a porta de uma boate recém-fechada, a People. Mas o fato é que, aos poucos, fenômenos como o “zoar” e o “ficar”, a idéia do total zapping (uma espécie de filosofia do “tudo ao mesmo tempo agora”), o vocabulário, a linguagem corporal e a própria forma de se vestir dos jovens vão entrando em discussão e compondo as facetas desta nova forma de subjetividade.

Estética “Básica”

Conduta social e modo de se vestir, aliás, são os temas de todo o último capítulo do livro, que expõe outro conceito fundamental em Noites Nômades: a contenção. Isso significa dizer que estes jovens operam, social e esteticamente, sob códigos e normas extremamente rígidos. Quem desrespeita estes códigos, ou seja, quem extrapola o “básico”, incorre no risco “perder a linha”, sob pena de exclusão social. Assim, torna-se extremamente importante “manter a pose”.

É neste âmbito que surge outra interessante questão para a discussão mainstream x alternativo. As autoras citam um estudo do sociólogo português José Machado Pais para exemplificar uma estética barroca, claramente identificada com a juventude dita alternativa. Dentro desta estética, o exagero e o decorativo desempenham papéis fundamentais, mas a imagem mantém uma relação metafórica com a dimensão do ser, ou seja, o estilo mantém alguma relação (no caso, de exagero) com quem a pessoa realmente é. Já na estética básica, ligada ao clássico e à contenção, isso não acontece. A “pose” possui uma autonomia própria (talvez por ser mais determinada por padrões coletivos do que qualquer outra coisa), totalmente independente da verdadeiro “eu” da pessoa. A aparência simplesmente não remete à essência.

O outro lado da moeda

Não há dúvidas de que os maiores méritos de Noites Nômades decorrem da postura das autoras, que abrem mão de pressupostos preconceituosos e estereotipados para manter uma relação franca com o objeto da pesquisa. Embora nada no livro o impeça de ser utilizado, até com certo reacionarismo, em ataques ao pós-modernismo e seus sintomas, tudo indica que ele vai ter melhores usos, como é intenção de suas autoras, em discussões construtivas sobre os caminhos da subjetividade nos dias de hoje.

Por fim, fica claro que o simples fato do objeto estar identificado com um segmento mainstream não desmerece em nada o livro. O mainstream aqui é apenas um lado da moeda, cuja análise reflete, naturalmente, na moeda inteira. E Noites Nômades é isso: uma análise original e pertinente, que certamente interessará a qualquer um capaz de enxergar, sem preconceitos, a noite como fenômeno cultural.

Entrevista com Maria Isabel Mendes de Almeida

Mood - Qual foi sua motivação para estudar este objeto, o jovem mainstream?

Maria Isabel Mendes de Almeida - Como venho estudando os jovens há algum tempo, comecei a ver este espaço da noite como uma importante porta de entrada na contemporaneidade, no que diz respeito a gramáticas subjetivas, ou seja, a mudanças expressivas na arquitetura mental dos jovens.
A noção de espaço é muito importante para se verificar estas mudanças. A idéia de que o tempo, que caracterizava a modernidade - o tempo da fábrica, o tempo do progresso -, foi substituído pelo espaço como categoria de importância para se entender a pós-modernidade.
Hoje, estes jovens vão para a night, ou seja, vão para a noite como se vai para um lugar. A própria noite se torna um espaço. A partir daí, a noite e as formas de lazer noturno se tornaram um objeto atraente a ser perseguido. E nós perseguimos estes jovens durante dois anos e meio, não só no espaço da noite, como também nos seus colégios, nas suas casas, tendo como pressuposto que estes jovens tinham um vida social muito ativa, no sentido da noite e do lazer noturno.

Mood
- Seu livro mostra jovens perfeitamente integrados ao cenário pós-moderno. Ainda assim, chama a atenção o fato dos comportamentos destes jovens não serem, em nenhum momento, abordados com um tom repreensivo ou, como seria de se esperar, como sintoma de uma suposta “falta de sentido” ou “degradação de valores” crônica do mundo contemporâneo.

Maria Isabel - Para nós esta é uma questão muito importante, quase que uma colocação de princípios. Há hoje, na nossa visão, uma espécie de pânico moral que se alastra na sociedade com a pós-modernidade. É o “fim dos valores”, o “fim da história”, o “fim do indivíduo”, essa idéia de uma “corrosão moral” e, ao mesmo tempo, uma postura muito nostálgica em relação a tudo o que se perdeu. Isso acaba justificando este pânico moral, sublinhado por grande parte da mídia, dos intelectuais e dos formadores de opinião. No caso do nosso estudo, seria muito fácil caricaturar ou julgar, dizendo que isso seria o niilismo, o fim de tudo, a aniquilação de valores, o fim da linguagem, mas de modo algum nós realmente achamos isso. Ao contrário, procuramos mostrar realmente uma forma que está despontando como mudança comportamental e subjetiva, e mostrar o que está acontecendo através de depoimentos e entrevistas. Isso é uma questão princípios, eu pessoalmente jamais julgaria este universo com os meus valores, porque com isso eu necessariamente estaria sempre regendo, ou seja, os meus valores é que teriam sentido e que seriam contrastados com o que acontece. Isso não é válido dentro da postura de um investigador, comprometer não só os seus valores, como também partilhar desse espírito excessivamente crítico, ácido e demolidor que encontramos hoje na atualidade. Nós procuramos mostrar o que está aí, e acho que isso é muito importante para todas as classes profissionais, para os psicanalistas, para os filósofos, para os historiadores. No caso, por exemplo, da psicanálise, procuramos mostrar um pouco como está operando esta nova estrutura da subjetividade que vem deixando os psicanalistas perplexos, ou seja, dar pistas de como abordar clinicamente este jovem.

Mood - Em diversos momentos você aborda a diferença entre estes jovens e os jovens ditos alternativos. Quais são, para você, os pontos centrais dessa diferenciação?

Maria Isabel - Eu acho que o princípio diferenciador dominante, na visão na visão destes próprios jovens tidos como mainstream, encontra-se na discussão do “perder a linha”. Para eles, a idéia de “perder a linha” é muito mais próxima do universo alternativo. Não que eles se dêem conta do quão controlados e disciplinados são - quando nós discutimos a estética básica fica claro que não se pode fugir muito de um certo perfil modelar, no sentido da atitude comedida, da maneira de se vestir totalmente regida por um código monocromático, neutro, das cores que não implicam em exagero, em acentuar muito um padrão estético, mas manter a coisa do básico.
Já as festas rave, a música tecno e lugares como a Bunker, por exemplo, são considerados mais alternativos por nossos informantes. São lugares onde se pode relaxar um pouco mais, onde a coisa de “perder a linha” não se torna um imperativo tão forte.
Sobre esta questão da juventude alternativa, eu acredito que São Paulo é hoje uma cidade com um campo muito mais fértil que o Rio. O Rio talvez seja mais mainstream por ser uma cidade mais relativizada o tempo inteiro. Acho que você não encontra, no Rio, um estilo absolutamente forte, muito acentuado ou com princípios, na área da música e na área do lazer. As coisas aqui parecem estar sempre se zerando, tudo chega a um jogo de soma zero. As preferências musicais, de cinema, no mundo das artes, estão sempre se equivalendo. Parece que as coisas são tomadas por um certa frouxidão de opções, não há um rigor de opções.

Mood - Apesar das diferenças, é relativamente comum ver a night mainstream se apropriar, em certos momentos, de espaços tipicamente alternativos, como se eles entrassem na moda. Em que termos se dá isso?

Maria Isabel - É uma característica desse perfil carioca. Eles se revezam sem problema, podendo ter um leque de opções que vai desde o que há de mais radical em música tecno, como a Bunker ou a Dama de Ferro, até uma night na Nuth. Eles preservam a possibilidade de transitar através, por exemplo, da indumentária. Se vestem de acordo com a ocasião, permutam claramente a maneira de se vestir e também não conhecem tão a fundo a música tecno, por exemplo. Mas a coisa de estar na moda é muito sedutora e muito praticada por estes jovens. É como se estivessem o tempo todo mudando de camiseta, não há esta idéia de uma ideologia cristalizada em torno de um estilo, como se vê por exemplo em São Paulo, visitando a galeria Ourofino. Lá realmente é um templo da estética alternativa, uma coisa que não se vê no Rio. Aqui você tem um detalhe ou outro da estética alternativa, mas não tem templos alternativos, punks, darks, tecnos, clubbers, etc. Não existe essa filiação no mercado, dentro de uma estrutura do consumo. Há pouquíssimos lugares conhecidos, ou então o alternativo aqui é algo que existe muito mais na classe média baixa, ao contrário de São Paulo, onde a classe média possui repertórios alternativos mais perceptíveis.

Mood - Em certos pontos do livro, você sustenta análises sobre características específicas do Rio de Janeiro, como a praia, por exemplo. Até que ponto o cenário descrito no livro se aplica a outras metrópoles?

Maria Isabel - A questão da praia pode ser realmente um elemento diferenciador, mas estamos lidando com comportamento basicamente ligado à classe média cosmopolita, urbana, e à trajetória do indivíduo no final do ensino médio e início da vida universitária. São padrões de consumo e relações com o lazer e com a tecnologia que talvez não permitam encarar a praia como algo que impeça uma certa dose de generalização. Na verdade, é um padrão quase transnacional. Apresentando este trabalho na Suécia, por exemplo, percebi várias possibilidades na coisa do lazer, não tanto no lazer noturno, mas no lazer dos esportes radicais, onde há um comportamento parecido, no plano da subjetividade, com essa maneira de se lidar com o espaço.
Acredito que inclusive nos grandes centros urbanos de camadas populares - que hoje em dia, pela televisão e pela mídia, reproduzem muito certos comportamentos de classe média - você pode pensar hoje que, com essa estrutura globalizante, essas coisas se juntam muito mais. Claro que o Rio é uma cidade partida, mas curiosamente você vê esse padrão mauricinho ou mainstream de comportamento, de maneira de ser ou de curiosidade noturna, adentrando a favela Rio das Pedras para os bailes funks. Existe uma própria sedução do risco nessa juventude de classe média. Fica claro que a idéia do risco, do arrepio - essa coisa que o pessoal do funk diz, “vamos arrepiar” - acaba sendo sedutora para a classe média jovem, que vai então para os bailes funks, para lugares onde existe uma certa dimensão do risco.
Portanto, nós afirmamos o fato de que este estudo se dá no Rio de Janeiro, mas ele tem conexões muito grandes com centros urbanos não só no Brasil, mas internacionais também.

Marcadores:

O Publicitário em Crise

Por Tiago Casagrande

"Na minha profissão ninguém deseja a felicidade de vocês, porque as pessoas felizes não consomem"

Octave Parango é um bem sucedido publicitário que se considera Deus - ou seja, é mais um profissional da propaganda como qualquer outro. Frustrado em sua criatividade pouco aproveitada, chafurdando na cocaína e sofrendo com a perda da mulher que amava, Octave já não suporta mais continuar essa vida de redator genial, em que se confere poder quase ilimitado. Mas não pode simplesmente desistir, ganhando o equivalente a 13 mil euros por mês; quer ser demitido, embolsar a indenização, isolar-se numa ilha deserta com prostitutas, pó e música. As atitudes extremas para que lhe chutem do emprego não funcionam – são vistas como "caprichos de um excelente criativo". Aí é que ele decide escrever um livro que bota toda a carniça para feder no meio da praça. Assim, ele espera, será enfim demitido.

Dessa premissa surge 29,99 (“99 Francs”, tradução de Procópio Abreu, 272 páginas; Ed. Record, 2003), de Frédéric Beigbeder. Lançado com o preço de venda como nome em cada país onde foi traduzido, o livro tem sido aclamado como solidificador da nova geração literária francesa que, no Brasil, já chegou com Michel Houellebecq (com “Plataforma”, leia resenha aqui). Os dois autores trocam elogios em público e tem estilos semelhantes, encontrando-se principalmente no niilismo, no cinismo, na crítica feroz e na ode às prostitutas, símbolo escolhido para ser o encontro ideal entre homem e mulher numa situação onde todas as máscaras inexistem, porque a relação de troca já está previamente estabelecida.

O aspecto autobiográfico é outro cruzamento entre Beigbeder e Houellebecq. Octave e seu autor são a mesma pessoa em grande parte do livro – assim como seu personagem, Beigbeder também era um publicitário brilhante. O livro vendeu, em poucos dias, mais de 350 mil exemplares na França e deu ao escritor o final que o personagem desejava: de fato, Beigbeder foi demitido da Young & Rubicam, um dos maiores grupos internacionais de publicidade, logo após o lançamento do livro.

E os dons de bom redator publicitário se repetem na obra. Beigbeder começa o livro arrasando, berrando frases como se fossem dogmas recheados de uma veracidade mordaz e mesmo atemorizante. Nem bem você sai de uma pancada e ele já solta outra. Este é o ritmo: publicitário, entrecortado, cheio de imperativos e palavras de ordem. Lembra algum ditador do século passado? Por algumas passagens de 29,99 Beigbeder foi duramente criticado por fazer apologia aos nazistas – mas, ao ler o livro, isso acaba soando como factóide. As (poucas) citações que faz a Hitler, Goebbels e cia. são apenas para ilustrar que o nazismo desenvolveu e foi mestre na arte da propaganda. Nem mesmo o tresloucado protagonista ousa apoiar o monstro ditador.

A criatividade também está na divisão dos capítulos. São seis: “Eu”, “Tu”, “Ele”, “Nós”, “Vós”, “Eles”. A pessoa narrativa vai mudando, mas sempre com o foco em Octave, cada vez mais desesperado com seu poder, mergulhando no pó, se entregando às prostitutas e, inclusive, sofrendo por amor. Entremeando os capítulos, breaks comerciais - sempre um roteiro para filme, carregado de cinismo e negatividade. Em meio ao seu desespero, uma campanha publicitária vai se aprumando num ritmo bastante conhecido em qualquer agência. As idéias criativas e interessantes são deixadas de lado pela ortodoxia babaca do cliente; no fim das contas, em um minuto, a dupla de criação faz o que o cliente vai aprovar. "O maior cliente de uma agência de propaganda é a lata de lixo", diz Octave, com propriedade.

UM LIVRO PARA PUBLICITÁRIOS?

Sobretudo, um livro para consumidores. A visão é de dentro, mas abrange todo e qualquer ser humano que viva sob regime capitalista. Claro que leitores envolvidos com a publicidade vão ter uma degustação diferente do volume – é impossível, por exemplo, não se deixar embalar pelos geniais Dez Mandamentos do Criativo. Um deles, o segundo, diz: "A primeira idéia é a melhor, mas sempre se deve exigir três semanas de prazo antes de apresentá-la". Mas Beigbeder propôs-se a fazer um romance contra a propaganda, repleto de denúncias, ainda que sem panfletismo barato – ao mesmo tempo que, de alguma forma, isenta seus profissionais (Por quê me deixaram ditar os costumes? Por quê me permitiram determinar às pessoas o que elas vão vestir ou comer ou dirigir nessa primavera?), e os culpa por perpetuar essa “dominação”.

O jargão publicitário corre num lençol por baixo da superfície do texto; chega a haver um capítulo dedicados ao papo nonsense em uma reunião de pré-produção de um filme. Se você não está familiarizado e acha que isso pode dificultar o entendimento do texto, não desista – é essa a intenção de Beigbeder. Confundir o leitor da mesma maneira que a propaganda (e não só ela, mas também os meios de comunicação em geral) confunde.

O estilo nervoso cerca a virada na obra, quando Octave e sua turminha perdem totalmente o rumo. O humor vai ficando mais pesado, mais negro, e o livro passa de chocante a depressivo. Mais uma vez, o niilismo detectado pelo autor na sociedade moderna não é evitado na obra, que ganha em densidade e dramaticidade.

29,99 é mais uma excelente amostra da produção francesa contemporânea, que parece ter lido “Generation X” com dor de dente. Ao levar o apocalipse para dentro da personalidade das pessoas, Beigbeder não se esquiva de responsabilidades – nem de colocar o dedo na cara do leitor, acusando-o de estar fugindo do seu papel ao comprar aquele carro ou aquela cerveja. E com sua prosa cheia de slogans, títulos e chamadas, vai convencendo o leitor a passar para o seu lado.

"Vocês acham que têm o livre-arbítrio, mas um dia ou outro vão reconhecer o meu produto nas prateleiras de um supermercado e vão comprá-lo, assim, só para experimentar; acreditem, conheço meu trabalho"


Marcadores:

Um Francês em Pattaya Beach

Por Tiago Casagrande

“1. O valor de um ser humano é medido hoje por sua eficiência econômica e por seu potencial erótico.
2. Num sistema econômico perfeitamente liberal, alguns acumularão grande fortunas; outros afundarão em desemprego e miséria. Num sistema sexual perfeitamente liberal, alguns irão experimentar uma variada e excitante vida erótica; outros serão reduzidos à masturbação e a solidão.”

Essa pode ser a essência do mundo de Michel Houellebecq. Visionário, gênio, perturbador, contundente, imbecil e reacionário estão entre os adjetivos mais comumente associados a sua obra – e a sua pessoa. Polêmico como todo francês que se preze, é considerado a maior sensação literária da França nos últimos 20 anos pelo New York Times Magazine.
Houellebecq (pronuncia-se “uelbek”) é comparado a Sartre, Camus e, mais freqüentemente, a Honoré de Balzac, por sua principal habilidade – a de retratar as chagas da sociedade ocidental contemporânea. Essa característica foi magistralmente desenvolvida por Balzac, em seu tempo, nas Ilusões Perdidas. Nesses passos caminha Houellebecq. Não com a visão de um intelectual trancafiado em alguma universidade – mas com o choro de quem soube descobrir uma redução cultural, apostou no ser humano e perdeu feio. Tampouco é justo afirmar que sua maneira de escrever é coloquial ou simples; sobram estilo e fluência na sua escrita, sempre recheada de citações de grandes escritores e análises sociais bem colocadas nas palavras de seus personagens.

clique e compre pelo submarino.com.br

A poeira começou a levantar em 1998, com o lançamento de Partículas Elementares – mais de 300 mil exemplares vendidos na França. No livro, Michel – o autor e também o protagonista da novela – coloca a culpa de todos os males do mundo ocidental contemporâneo na revolução comportamental dos anos 60. Entremeado, é claro, de muita pornografia. Foi considerado o sucesso literário mais inesperado de todos os tempos – se Houellebecq fosse cavalo de corrida, provavelmente ninguém apostaria nele (exceto, talvez, por seu editor). A mistura explosiva de sexo, em descrições que beiram o rasteiro, com a apurada visão da sociedade contemporânea, transformou o francês, um legítimo fracassado, num best-seller.

clique e compre pelo submarino.com.br

No recém-lançado Plataforma (Record, 2002, 383 páginas), o protagonista (novamente chamado) Michel, um funcionário público – burocrata do Ministério da Cultura – recebe a herança do pai e resolve excursionar pela Tailândia, em férias. E a Tailândia é um dos destinos preferidos dos turistas a procura de sexo barato e diferente. Na viagem, envolve-se com Valérie, executiva do Turismo. E por ela desenvolve sua vida adormecida em comodismo exacerbado. Na obra há doses maciças de ironia, inteligência, sacanagem e sarcasmo. E sobretudo elegância. Houellebecq é um escritor que não se exalta. Nunca. Nem ao narrar os prazeres das mais variadas fantasias eróticas. Ele assume o olhar indiferente do niilismo e do tédio e conduz com facilidade o leitor até a sua sociedade ficcional. E aí reside seu trunfo: aos poucos, desvenda essa sociedade e mostra que, de ficcional, há quase nada. Ler Houellebecq é uma espécie de choque catártico com a realidade, uma dose cavalar de exageros mundanos e falta de perspectivas.
É um livro-bomba, que ataca o Islã, o sexo, o turismo, o dinheiro, o governo. (Como se não bastasse atacar os muçulmanos em Plataforma, Houellebecq disse, em entrevista à revista literária francesa Lire, que “embora todas as religiões monoteístas sejam estúpidas, o Islamismo é o mais estúpido de todos”). Trata as prostitutas como criaturas desprovidas de qualquer outro valor que não o econômico – sempre sublinhando que a quantia paga pelo protagonista era equivalente a um mês de salário de um empregado de mão-de-obra barata num país de terceiro mundo. Por tudo isso, vem sofrendo ataques do trade turístico da França, de outros escritores, de editores de guias de turismo, de cristãos e de muçulmanos. Houellebecq nem liga. Quando está bêbado, responde às críticas com uma simples frase: “Eu sou o astro da literatura francesa”.

Pessoalmente, Houellebecq parece ser uma pessoa asquerosa. Vá lá, o destino também não ajudou muito: nasceu na ilha de La Réunion, na costa de Madagascar, colônia francesa, filho de hippies que não deram a mínima para ele. Aos 6 anos, o mandaram para Paris, para ser educado pela avó. Foi um adolescente com problemas de depressão, viciou-se em morfina, caiu com tudo na bebida e começou um longo vaivém em hospitais psiquiátricos para tratar sua ansiedade. Nos anos 90, encontrou um emprego – técnico de softwares – e começou a escrever ensaios e poemas.
Hoje vive na Irlanda, isolado do mundo, sem luxo algum. Aos 42 anos, é um ser humano que reduz seus movimentos ao mínimo. Seus maiores amigos são os cigarros e o uísque, e o sexo é sua única fonte de gratificação – mantém um casamento aberto, e de fato freqüenta os clubes de swing que tanto aparecem em suas obras. E diz que a única coisa valiosa que sua fortuna acumulada pelas altas vendagens lhe proporcionou foi a possibilidade de fugir do pesadelo de ser empregado. Os livros deram o hábeas corpus que Houellebecq tanto queria: agora, ele não precisa mais tentar ser bem-sucedido.


Marcadores:

Cozinha Confidencial

Por Tiago Casagrande

De comer, todo mundo gosta. Alguns vão mais além: aventuram-se nos meandros da cozinha, aprendem a fazer um macarrão que não precise ser cortado com a faca e são os primeiros a dizer “Deixa que eu cozinho!” quando a turma resolve fazer um jantar. Não raro, foram crianças fascinadas pela alquimia dos ingredientes, magicamente misturados para transformar-se naquele manjar branco, na torta de chocolate, dos sequilhos de polvilho dos pais ou dos avós.

Anthony Bourdain não tem nada a ver com essa história. Era um moleque enjoado cujo aventura culinária máxima consistia em descobrir quantos litros de catchup conseguia colocar num prato. Seus “momentos mágicos” foram dois: o primeiro, ao provar uma vichyssoise, a tradicional sopa francesa servida fria; o segundo, quando comeu ostras recém saídas do mar, a bordo de um barco de pescador. Essas duas experiências mostraram ao pequeno Tony que a comida podia ser instigante, interessante, diferente.

De qualquer forma, isso foi apenas um pensamento passageiro na sua mente. Aos dezoito anos, perdido, mimado, sem vontade de nada nem perspectivas, foi atraído pelos amigos para Provincetown, cidade portuária dos Estados Unidos, para passar o verão. Arranjou um emprego como lavador de pratos num restaurante decadente. E lá acabou descobrindo, pela primeira vez, que desejava tornar-se chef de cozinha. O que ele viu? Ex-presidiários, roubo de comida, toneladas de drogas e sexo fácil.

Cozinha Confidencial (Companhia das Letras, 376 páginas), autobiografia de Anthony Bourdain, é cortantemente sincero. O chef executivo da brasserie Les Halles (www.leshalles.net) mostra-se também escritor de prosa fácil e bem articulada, neste seu quarto livro – o primeiro de não-ficção. Lançado em 2000, chegou aqui no final do ano passado e permanece meio perdido nas prateleiras das livrarias – ora na seção de gastronomia, ora nas biografias, ora em não-ficção. E se houvesse uma categoria chamada “denúncia”, também estaria lá. Porque se algo de podre pode acontecer na parte de trás de um restaurante, Bourdain descreveu no volume. Não com um tom de reprimenda, nem com ares de moralista: o chef-escritor simplesmente conta o que viveu – e vive até hoje – sem temer represálias. Sem pompas de justiceiro ou vergonha de dedo-duro, mas com a mesma crueza com que os fatos descortinaram-se para ele. Talvez distante da realidade dos restaurantes brasileiros (Bourdain não imaginava que o livro fosse mais longe do que a Filadélfia). Ou não. Eu não saberia afirmar. Mas dê-lhe sua justa contextualização e aproveite a leitura.

Ao contrário do que pode parecer, o livro não é uma ode hippie – muito menos jornalismo investigativo. Bourdain descobriu que sabe contar histórias, e é o que faz ao longo das páginas de Cozinha Confidencial. Levando a contracultura a seus ápices e politicamente incorreto até o último fio de cabelo, o autor destrincha o mundo da culinária profissional – sempre com afirmativas peremptórias e coberto de verdades absolutas, mas lembrando o tempo todo: eu posso estar errado, e eu devo estar errado. Entre um baseado e uma aspirina, Bourdain leva o leitor para a cozinha e explica como ela funciona, como tornar-se um chef, por que não abrir um restaurante, por que não comer peixe às segundas-feiras, por que não pedir seu filé bem passado, por que um brunch é uma péssima escolha, por que devemos sair para jantar à terças-feiras. E, o tempo todo, mostra por que a culinária é uma arte tão fantástica e fascinante.


Marcadores:

O Que a Noite Conta

Por Gamba Jr.

Falar sobre OqueANoiteConta é, antes de mais nada, falar sobre a MOOD, em sua eterna função de laboratório de idéias e vivências. Gamba Jr., assim como muitos que por aqui passaram, soube aproveitar bem a oportunidade. Designer, doutourando em Psicologia, acrobata e integrante da Cia. NósNosNós – Tragédias e Comédias Aéreas, Gamba enxergou na MOOD a possibilidade de interagir com o suporte cibernético, dando início ao processo que se desdobrou, 2 anos depois, no livro de contos recém-publicado pela 7 Letras, OqueANoiteConta.

Foi em meados de 2000 que tudo começou. Segundo Gamba, a idéia surgiu de uma compulsão, “Há muito tempo – desde minha infância – que eu sou obcecado pela produção de imagens narrativas. Crio personagens, ambientes e tramas como quem vai à terapia, tomando muita precaução para não parar jamais, com o risco de enlouquecer. É desse processo obsessivo que acaba saindo todos os meus projetos. Diante de qualquer suporte que eu me encontre eu começo a contar histórias, e quando não há de fato esse suporte – ou pelo menos não de maneira convencional – eu intervenho na realidade criando personagens em farelos de pão ou nos rostos que encontro na rua, ou seja, invento uma mídia para essa obsessão”.

A compulsão – que neste caso, podemos por assim dizer benéfica – proporcionou a aproximação de Gamba com a MOOD. A proposta era que o site, a partir de seu atributo conceitual: noite, e físico: internet/tecnologia, servisse de suporte à experiência dos contos que surgiam a cada edição, formando um todo fragmentado, situação comum em nossa vivência tual.

Trazer à noite para a narrativa presenteou o site com alguns personagens fantásticos, e outros reais. Foram mariposas, vampiros, prostitutas, lixeiros personagens da noite que, a cada conto, se transformam em nós mesmos, leitores. O denominador comum – noite – é acrescido de uma tênue crítica contra hábitos estão presentes em todos nós. É o caso de Tenório, do conto intitulado “Michês”. A princípio, acredita-se que este será um michê mais “tradicional”, desses que vemos em todos os cantos. Entretanto, o que encontramos é um michê de uma pessoa só para quem vende o corpo e a alma, diariamente. E é claro que logo nos vêm a cabeça: até que ponto não somos nós mesmos, diariamente? Até que ponto não vendemos nossa alma em troca de moedas e ilusões voláteis, efêmeras?

No conto “Lixeiros”, então, essa abordagem chega a doer, principalmente quando vemos caracterizada a questão dos direitos humanos no sentido inverso do desenvolvimento financeiro e produtivo. A impressão que permeia não apenas esse conto, mas todo livro, é que a noite surge como uma metáfora para nos expor aos segredos do mundo.

Nesse sentido, a definição de antrophos por Umberto Eco, citada por Gamba no livro e ponto de partida para seu trabalho, como “aquele que reconsidera o que viu” não poderia estar melhor colocada, pois concluímos que a noite se define como o espaço no qual podemos reconsiderar nossas atitudes, hábitos, papéis, vidas. Em OqueANoiteConta, Gamba segue Eco na medida em que reconsidera, reconstitui e resgata a vida. “A idéia de repensar o humano é para mim indispensável, deve nortear desde o gesto mais concreto até o ato mais místico, pois não são privilégios de nosso tempo esquemas que oprimem esse “humano” em posturas totalitárias. Há uma tradição histórica de opressão do indivíduo pelos mais diversos tipos de equívocos, sejam os governos ditatoriais, sejam os regimes econômicos injustos, as violências físicas, as construções filosóficas discriminadoras, os entretenimentos esvaziados de sentido, as práticas culturais alienantes, as relações familiares castradoras”.

Com tanta opressão, a noite de Gamba nos ajuda a reconstruir nas sombras, buscando uma luz que não necessariamente está no dia, mas sim internamente, na existência de cada um de nós.

Marcadores:

A Literatura de Woody Allen

Por Tiago Casagrandre

A cena é freqüente nos desenhos animados: o Coiote, lata de tinta e pincel na mão, desenha um túnel atravessando uma montanha. O Papa-léguas, surpreendentemente, atravessa tranqüilamente a passagem, e o Coiote, abismado, tenta fazer o mesmo – dando de cara na rocha.

É isso que Woody Allen faz conosco em seus livros: abre um oceano nonsense na página, e atrai-nos a dar uma cabeçada no estilo enxuto, denso e sarcástico dos contos. O nervosismo, a neurose, a cultura judaica típicas de seus filmes unem-se ao desprendimento com a realidade, com a lógica, muitas vezes sem controle, levando a ironia ao seu ponto máximo. Se você é daqueles que acha os filmes de Allen difíceis de assistir, nem chegue perto.

A editora L&PM, detentora dos direitos das obras de Allen no Brasil, mantém em catálogo regularmente três livros de contos, em formato pocket: Que Loucura, Sem Plumas e Cuca Fundida (com tradução segura de Ruy Castro). São textos publicados na revista New Yorker nos anos 60 e 70, antes que ele voltasse sua dedicação total ao cinema – com eventuais paradas para o clarinete, é claro. Nos três volumes, o que se vê é um desfile de criatividade, protagonistas judeus e medrosos (como de praxe) e temas corriqueiros, repletos de citações filosóficas.

A cada conto, uma surpresa. Em “Que Loucura”, Allen coloca o seu personagem preferido (ele mesmo) em um triângulo amoroso formado por ele, sua namorada e a mãe dela. Até aí, nada de novo. Mas o amor platônico pela mãe da garota faz com que os dois se aproximem, e a namorada não consegue mais fazer sexo com ele – porque, agora, ele a lembra do pai dela. Já na “Puta com PhD”, um detetive infiltra-se numa rede de prostitutas intelectualizadas, que são pagas para discutirem Kant e Kierkegaard. (Num outro conto, o mesmo detetive é contratado para descobrir quem matou Deus.) E também há aqueles em que Allen solta-se ao imaginário puro: “Os Róis de Metterling” é a resenha de um livro fictício, que analisa a vida de um gênio através de suas listas de lavanderia; ou em “Educação para Alfabetizados”, onde sugere cursos que gostaria de freqüentar (como Leitura Dinâmica, onde os alunos são forçados a ler as páginas em diagonal, pulando tudo, menos os pronomes – e, no módulo avançado, até os pronomes. A prova final é ler Os Irmãos Karamazov em 15 minutos). Como “bônus”, ainda existem algumas peças de teatro de sua autoria – “Deus”, por exemplo, está atualmente em cartaz, correndo o Brasil.

Assim como os filmes, a prosa de Allen é para se gargalhar ou odiar – sem meio termo. Ao preço médio de menos de 10 reais, é um investimento baixo para dar uma chance a si mesmo de descontrair e sair da rotina, com seus textos deliciosamente inverossímeis.


Marcadores:

Como Fazer Camarões Para Luisa

Por Camila Dalbem

Arroz com camarões ou não, qualquer coisa que se vá ingerir deve ser criada à base de bons temperos e ingredientes frescos. Eu sou um expert. Verifique se há espaço suficiente para que todo o necessário esteja ao seu alcance, às vezes não há tempo para buscar o que está longe. Luísa está correndo no calçadão, a pele bronzeada com marca de macacãozinho de lycra. Comece pelo molho, que pode ser feito até um dia antes. Pegue uma panela de ferro e coloque cinco colheres de sopa de azeite. Assim que o azeite estiver quente, coloque uma cebola grande cortada em cubos e espere que ela comece a dourar, pois só assim seu gosto passará para a comida. Então adicione três dentes de alho moídos, meio pimentão picado, salsa a gosto e uma colher de sopa de molho inglês. Antes que comecem a queimar (ouça o chiar dos ingredientes na panela), junte dois tomates sem pele e, em seguida, algum tempero comum de sua preferência. Quando o tomate começar a formar um molho, coloque uma pimenta vermelha e sal. Baixe o fogo e espere bebendo um bom vinho, mexendo de vez em quando e pensando que em breve Luísa estará sentindo o cheiro da pimenta, da cebola e do alho.
Luísa não gosta de ter cabelos loiros, então tem cabelos castanhos, quase loiros. Luísa não bebe vinho. Eu não sou um homem convincente. Provavelmente, se Luísa não beber vinho, nunca conseguirei vê-la deitada, com a marquinha do macacão de lycra, sobre os lençóis azuis. Luísa até já cheirou Miolo e vinho de boteco, mas ela usa um coque preso por uma redezinha e saia abaixo do joelho quando entra na minha casa.
O sol está se pondo. Uma nuvem cor-de-laranja parou em cima da minha janela, e de repente já é noite e ela ainda está ali, cor-de-laranja. O molho já está frio e a campainha toca pela segunda vez. Abro a porta. Oi, Luísa. Ela nunca responde quando eu falo o seu nome. Senta aqui. Coloco dois copos sobre a mesa à frente dela e encho de vinho até transbordar. As pernas de Luísa estão quase cor de carvão, não vou pensar no macacãozinho.
( ... )
Em outra panela, coloque cinco colheres de sopa de azeite e aguarde até esquentar. Frite meio quilo de camarão, adicionando apenas um pouco de sal. Cuide para não queimar. Assim que notar que os camarões não estão mais crus, junte o molho. Quando começar a borbulhar, despeje uma xícara de arroz e deixe por aproximadamente um minuto. Por fim, acrescente duas xícaras de água e espere secar. Enquanto isso, Luísa lança uns três olhares que considera provocante. Mas ela não passa de uma bonequinha engraçadinha.
Luísa levanta e caminha pela cozinha, apreciando por dentro meus conhecimentos culinários. Dá umas fungadinhas na panela e sai com os olhos ardendo. Arrisca dizer que não vai comer isso aí. Porque eu não coloco um ingrediente especial, encho o pratinho de Luísa e acabo de uma vez com tudo isso. É claro que ela vai comer. Não entendo essa necessidade de fazer desmoronar a minha última gota de confiança, o meu arroz com camarões. Se ela tentar acabar comigo mais uma vez eu me vingo, juro que não vai sobrar um pedacinho de Luísa pra me atacar. E fim com esses risinhos pseudo-sedutores. Se quiser me seduzir tem que soltar o cabelo, no mínimo. Tem que ter marquinhas de macacão de lycra à mostra. Peitinhos soltos dentro da blusa. E se puder dar uns miados, bem fininhos, ficar de quatro, esfregar o rabinho nas minhas pernas. Isso sim é coisa de gatinha, Luísa.

Marcadores:

Morrer

Por Foguinho

Noite. Frio. Uma vela ainda estava acesa. Meu corpo estirado em um sofá de veludo verde escuro. A última garrafa de vinho, que eu bebera já há quatro dias, ainda jazia jogada perto da pequena mesa onde estava a vela, espalhando pelo ar seu cheiro acre de vinho quente.
Na cozinha, a geladeira estava vazia. Tenho impressão que a desliguei já fazem alguns dias. Os copos e os pratos, todos transformados em cacos, formam um tapete cristalino que reflete a pouca luz da vela que chega até ali.
A porta e as janelas seladas com tábuas que preguei na parede. Os pregos e o martelo também estão jogados no chão. Não há como entrar aqui. Tirei o telefone da tomada. Não existe maneira do mundo exterior me alcançar.
Nem mesmo amigos e parentes podem me encontrar aqui. Planejei tudo muito bem. Todos acreditam que estou viajando. Além disso, este apartamento não é o meu. É um apartamento em um prédio vazio, que aluguei inteiro.
Nenhuma luz, com exceção da emitida pela chama da vela, ilumina este lugar. Acho que é a última vela. Não tenho certeza. Perdi a noção do tempo já faz um tempo. Não sei quanto tempo passou desde que me tranquei aqui.. Meu relógio está quebrado em algum lugar da casa. A televisão, que ainda está ligada, no início ainda me mantinha preso à realidade. Mas o entorpecimento causado pelas bebidas e o delírio das drogas logo me fizeram deixar de entender o que acontecia. Aquilo era apenas uma caixa de imagens, que entre as vezes que eu caía bêbado ou inconsciente, me pareciam completamente aleatórias. Como se a sucessão interrompida de cenas, hora de um programa, hora de outro, fizesse surgir toda uma nova lógica. Agora ela está ligada sem som. O som que ouço está no aparelho de CD. Acho que já fazem alguns dias que ele repete a mesma música incessantemente. Talvez semanas. Tenho a impressão de ter pensado em trocar o CD, mas então acho que meus pensamentos foram levados para outro lugar, por ventos de insanidade que assolam minha mente com intensidade cada vez maior. Parece um daqueles ventos com aquele pólen estranho de Darkover. Pirações da Marion.
Meu corpo está seco, e minha barba e cabelos bem longos. Não lembro a última vez que troquei de roupa. A dor da fome já não me incomoda mais. Agora simplesmente espero que aconteça o que decidi que deveria acontecer. Minha saliva está muito espessa. Parece muito difícil afastar a língua do céu da boca.
Em meio a tudo isso só minha decisão, e o que me levou a ela, importam. Ela será o grande final de minha arte! Minha partida triunfal! Talvez assim eles entendam o que eu quis dizer.
E eles nunca entenderam. Através de imagens, palavras e músicas eu tentei fazer-me compreender. Tentei mostrar a beleza que havia nas coisas. O prazer que a beleza podia nos proporcionar. Tentei mostrar o quão delicioso era viver, e fazer que entendessem o valor de tudo.
Eles leram minhas palavras, viram minhas imagens, cantaram minhas músicas. Compraram meus livros e álbuns, contaram e dançaram comigo em grandes apresentações. Repetiram por inúmeros lugares tudo aquilo que eu dizia, e por um breve momento eu acreditei que eles entendiam!
Entreguei-me ao prazer absoluto de conseguir transmitir ao mundo aquilo que me era mais sagrado. A verdade que me movia era agora compartilhada por todos, e através dela eles seriam capazes de ter o mesmo prazer que eu tinha.
Rapazes imitavam minhas roupas, e em noites bebendo na casa de amigos, alguns tocavam e cantavam aquilo que eu criara.
Belíssimas garotas gritavam declarações de amor e promessas enlouquecidas. E com várias delas entreguei-me às mais extasiantes noites. Nunca amei nenhuma, e elas só queriam me tocar. Só queriam poder dizer que haviam estado comigo. Isso era divertido de certa maneira, mas foi quando notei isso é que o véu de perfeição que pairava sobre minha vida começou a sumir.
Minha arte não importava para eles. E viver era minha arte! Eles me imitavam, gritavam meu nome, enchiam meus bolsos de dinheiro e não entendiam nada! Eu era apenas algo momentaneamente diferente do resto. Algo novo a ser imitado, sugado, absorvido. E em questão de anos nunca mais se lembrariam de minhas palavras.
Isso turvou o mundo diante de meus olhos. Cessou o batimento do meu coração. Matou o amor que u tinha por tudo aquilo. Eu não era capaz de aceitar. Não viveria com aquilo. Minha arte, que a meus olhos era tão bela, não fazia o sentido que deveria fazer pra eles. Não fazia nenhum sentido!
Em muito pouco tempo decidi o que faria. E por duas simples razões. A primeira era que eu realmente não seria capaz de continuar cm aquilo. A segunda, e mais importante, era que talvez, depois de tudo o que eu iria fazer, eles finalmente entendessem.
Decidi morrer. Morrer aos poucos. Decidi morrer aos poucos para poder pensar em tudo aquilo. Rever cada fato, cada ato, cada pensamento. Decidi morrer de fome. Sem comida nem água. Teria um bom tempo para pensar. Me trancaria com bebidas, comida, drogas. Quando isso tudo acabasse eu não iria repor. Morreria, de maneira estúpida, desumanamente. Me mataria com a mesma monstruosidade que eles mataram minha arte.
Como eu já andava estranho, não compunha mais nada fazia algum tempo e havia cancelado já uns doze shows, ninguém estranhou que eu de uma hora para outra houvesse resolvido viajar. Pedi dinheiro, para meu empresário, para pagar as despesas. Como eu sempre esbanjava bastante ele não estranhou a quantia. Relutou um pouco em deixar-me ir completamente sozinho, mas acabou concordando.
Com o dinheiro aluguei este prédio. Já estava vazio, caindo aos pedaços. Passei em uma loja de usados que havia ali perto e comprei as mobílias necessárias. Os aparelhos como televisão e CD comprei em uma loja de contrabandos também não muito longe.
Tudo estava pronto. Tinha comida, bebida e drogas. Uma pilha bastante grande de CD's e outra de fitas de vídeo. Entrei, tranquei a porta do prédio. Subi até o último andar que era onde ficava o apartamento que eu mobiliara e tranquei-me dentro. Joguei todas as chaves na privada e puxei a descarga. Com as tábuas, os pregos e o martelo terminei de me lacrar dentro daquele peculiar caixão. Era isso que era na verdade. Minha tumba.
Durante os primeiros dias permaneci bêbado. Escrevi muito, em papéis que cobrem todo o chão do apartamento. Depois disso me droguei muito, e isso me levou a um longo delírio, durante o qual, acredito, escrevi e desenhei por todas as paredes do lugar. As drogas acabaram, a comida acabou e então dei cabo das últimas garrafas de vinho.
Agora nada mais tenho para comer e beber. Não sei que horas são, nem que dia é hoje. Sei que meu corpo está cheio de cortes causados por quedas sobre cacos de garrafas quebradas, mas não sinto a dor. Sei que o ar fede mas meu olfato já me abandonou faz um tempo. Meu nariz às vezes sangra e minha garganta está seca de sede. Em breve tudo estará terminado. E então, finalmente, terei alcançado pelo menos esse objetivo. Só preciso esperar.
Acho que o delírio começa a tomar conta de mim por completo. Na televisão meu empresário me pede para repensar. Para não desistir. Tudo ficará bem, ele diz. Coitado. Não entende que prefiro enterrar minha arte à profaná-la. O CD parou, e do abajur sai minha voz e o som de uma guitarra. Sei que estou enlouquecendo. Minha voz canta algo que não tem forma. Parece um lamento. Réquiem.
Olho minhas mãos. Vejo ossos. Ossos com veias que não param de sangrar sobre eles. O sangue mancha o veludo verde do sofá, que grita de dor e medo. Eu só consigo rir. Uma gargalhada seca e histérica. Fria como ferro. Que assustaria todos os vizinhos se o prédio não estivesse completamente vazio.
De repente o silêncio.
O fogo da vela parece aumentar e subitamente tenho a impressão que um vulto passou rapidamente entre eu e a luz da vela. Ouço barulho de papéis amassando. Como se alguém caminhasse sobre as folhas que servem de carpete para todo o apartamento. Mas não o ninguém.
Sou tomado por um medo que rapidamente se transforma em pânico. Penso em levantar e tentar fazer alguma coisa, mas só consigo é encolher todo o meu corpo no canto do sofá. Afasto os cabelos que cobrem meu rosto e mais uma vez olho em volta.
Finalmente o vejo. Um homem, alto, de longos cabelos negros, completamente lisos. Não consigo ver seu rosto, mas posso ver que veste um belo e fino terno.
Confuso olho as portas e as janelas. Procuro desesperadamente por alguma tábua quebrada, um buraco. Nada. Continuam trancadas. Cada pedaço devidamente pregado em seu lugar. Como diabos ele entrou aqui? Talvez seja uma alucinação. Sim! É isso! A loucura está finalmente me tomando por completo.
De repente o homem cruza os braços, balança a cabeça em um movimento negativo e estala a língua algumas vezes. Então, com uma voz sobrenaturalmente bela, começa a falar. "Um completo desperdício. Sem dúvida um absurdo desperdício, Claude."
Como ele sabe meu nome? Como?
"Incrível como os seres humanos tem uma capacidade inata de colocar seus melhores talentos na lata do lixo." Ele caminha, pega alguns papéis pelo chão. De repente a vela está em sua mão. Ele está de costas para mim, lendo. "Que belas palavras! Realmente uma sensibilidade que a raça humana não entenderia. Uma arte sem igual! Mas eu entendo." Virou-se em minha direção. "Como pode ser capaz de pôr fim em um potencial como esse? Vocês mortais nunca são capazes de entender a própria capacidade..."
Nós mortais? Como assim? O que isso significa? Será ele a morte? Será que aquelas superstições absurdas tinham realmente algum fundamento?
"Sou e não sou", ele respondeu à pergunta que não pronunciei. Foi quando vi em seu estranho sorriso a presença dos longos caninos que em um simples e gracioso movimento ele fez que penetrassem fundo em meu pescoço, antes de pronunciar minha última palavra mortal... vampiro. E junto com meu sangue a esperança de conseguir realizar meu último desejo se esvaía. Imóvel, indefeso eu, que tanto queria morrer, fui presenteado com a vida eterna.

Marcadores:

Christiane F.

Por Alexandra Marchi

Nove entre dez jovens na década de 80 leram ou pelo menos ouviram falar da chocante biografia de Christiane F., uma adolescente alemã de apenas 13 anos que, em meados dos anos 70, afundou no vício de heroína e entrou na prostituição para sustentar suas doses diárias.

Seu relato contava desde o primeiro contato com drogas leves até a rotina das picadas, a disputa pelos clientes e a perda de amigos vítimas de overdose. Para os que não tiveram a oportunidade de ler o livro e encontravam dificuldades para encontrá-lo nas livrarias, nem tudo está perdido. "Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída" foi relançado neste ano pela editora Bertrand Brasil. Desta vez, quem ilustra a capa é o rosto dela mesma, numa foto da época.

Christiane descreveu com uma riqueza de detalhes várias situações comuns na vida de um drogado, mas muito distantes de quem nunca esteve nessa condição. Através do livro ela pode nos dar uma idéia da sensação que se tem ao injetar heroína na corrente sangüínea ou o desespero das crises de abstinência. O resultado não poderia ser outro: tornou-se um best seller mundialmente.

Em 1981, a história de Christiane F. chegou às telas do cinema. Com 124 minutos, o filme, que possui o mesmo nome do livro, tem a participação mais do que ilustre do cantor inglês David Bowie, ídolo de Christiane na época. Ele aparece em um show cantando "Station to Station", uma de suas músicas mais belas e que mais a perturbavam.

Desde o lançamento do livro, vários boatos correram o mundo acerca de que fim teria levado Christiane. Quem leu a história certamente se perguntou: será que ela realmente conseguiu abandonar as drogas? Ou será que ela sofreu uma overdose num banheiro público? Todas as respostas estão no site http://www.geocities.com/christianefpage. Criado há dois anos, a página é um tributo a Christiane F. e contém fotos, compilação de matérias sobre ela, biografia de atores que participaram do filme e um guest book, com declarações apaixonadas do mundo todo. Aos que temiam um fim trágico para Christiane, ao menos uma boa notícia: ela cria sozinha uma filha de três anos. Com uma mãe dessas, esclarecimentos sobre drogas definitivamente não serão um problema.

Marcadores:

E assim se fez a designologia

Por Leandro Gejifinbein

Certo dia, não muito distante, algumas pessoas andavam pela mata, pensando, entre o ir e vir dos animais velozes, em como a vida foi lascada.
Orgulhosos, eles levantavam seus arcos e flechas e olhavam para o céu. Um agradecimento de aprendizes ao seu mestre. Nunca foram filósofos, e muito menos sabiam ou saberiam o que significava isso, mas se questionavam: Por que todas as coisas têm forma? Por que toda forma é única? Por que não há só uma única forma?
- Olhem aquela pedra! Sem forma definida. Tão feia. Parece até uma árvore.
- Parece? Se parece tem forma. Uma forma que não é a sua, é a forma da árvore.
- Mas cada árvore tem sua forma, que árvore então se parece com aquela pedra?
- Talvez não exista, a forma daquela pedra é ser uma forma única. Nem de pedra, nem de árvore. A forma é dela.
- Mas então como sei que é uma pedra?
- Não sabes. O que há é a impressão de ser. Olhaste e viste uma pedra, é sua primeira forma. Mas achaste que a pedra mais parecia árvore. Porque sabes que árvore também tem forma, mas nunca vai ser uma pedra. Por isso pedra é pedra.
- Mas então que forma de pedra aquela pedra tem?
- Depende. Estamos vendo de um lado só. Aproxime-se alguns passos e diga de novo a impressão que terás.
O índio então chegou mais perto. Olhou com cuidado. Levou um susto. E voltou muito rápido.
- Corram! Corram o quanto puderem. Não é pedra nem é árvore. É bicho. E nem queiram saber forma de que bicho tem! Corram!
Todos correram e sumiram na mata fechada. Não sabiam pensar mais nada. Só gritavam olhando para cima: Porque todas as coisas têm forma? Por que toda a forma é única? Por que não há só uma única forma?
Enquanto mais distantes ficavam e suas vozes enfraqueciam, as nuvem deixavam de ser velozes, ficavam escuras, e não demoraria muito para cair os primeiros pingos de chuva.
- Estamos chegando na aldeia, podemos descansar um pouco.
- Mas assim, a chuva nos alcança.
- Chuva só molha. Não há do que ter medo.
- Não tenho medo da chuva. Tenho medo é de água. Estamos cansados porque corremos de bicho que, com forma de árvore, parecia uma pedra. Muito mais medo tenho de água, porque ela pode ter qualquer forma. Como então vou saber de quê, antes de precisar correr? Tenho medo da forma, e pavor do que se transforma.
Decidiram então seguir caminho e só pararam cada um em sua oca. Oca que com sua forma pode proteger da chuva e do vento. Tudo no mundo tem forma, para que cada coisa seja uma coisa. Nunca mais eles voltaram na floresta. Mas ainda guardam os arcos e as flechas. E pensam. Sabem que não podem mudar o mundo, mas a todos que saem para a mata eles aconselham:
- Só confiem em pedra, se não tiver forma de árvore. E não esqueçam o guarda-chuva.

Marcadores:

E qual o sentido de tudo isso?

Por Foguinho

- E qual o sentido de tudo isso?
- Não sei. Não tentei entender. Só voltei pra casa a pé pra poder pensar.
- Como de costume.
- É.
- Adiantou?
- Nunca adianta. A verdade é que eu volto a pé pra poder sentir mais frio.
- Inverno e essa chuva nojenta. Não sei se entendo.
- Não entende não. Mas ainda assim é a pessoa que fica mais próxima disso.
- Devo agradecer ou ficar triste?
- Importa?
- Não.
- Quanto tu bebeu?
- Quanto eu consegui pagar.
- E isso significa o que?
- Significa que não perdi meu tempo contando.
- Misturou muita coisa?
- Nem tanto.
- Quem estava lá?
- Todos. Menos eu.
- Como assim?
- Nunca estou lá. Fico sempre no meu canto. Não gosto de falar com eles.
- Então pra que tu vai?
- Porque ela gosta de falar com eles.
- Mas vocês nem mesmo se falam!
- Não tem como falar com ela.
- Por quê? Ela não quer te ver?
- Não. Eu que não quero falar com ela.
- Timidez agora?
- Não. Ela é chata mesmo. E superficial.
- Então por que diabos tu vai pra um lugar que tu odeia só pra ver ela?
- Não sei.
- Sei...
- Tá bom. Acho que até sei. Mas nem eu acho plausível.
- Explica.
- Não quero.
- Tu é um saco mesmo.
- Nem vem.
- Odeio falar contigo pelo telefone.
- E também odeia descer escadas.
- Não gosto de ficar perto de ti quanto tu tá bêbado. Tu já não pensa sóbrio.
- Não vamos discutir quem pensa menos bêbado, não é?
- Tá. Eu mereci essa.
- Eu vou ver ela porque ela é linda. Simplesmente tenho certeza que não verei nada mais perfeito que ela na vida.
- Exagero.
- Tu não viu com teus próprios olhos. E não é uma beleza simples, que possa ser contemplada por fotos. Tem que estar junto com o jeito de andar, se mexer.
- Sei.
- O pior de tudo é que é uma beleza momentânea. Efêmera.
- Como assim.
- Ela não vai ficar tão bela por muito tempo. No máximo por alguns anos, ou mesmo meses. Mas não pode sobreviver por muito tempo ao tempo. E quando o menor traço for mexido pela idade, ela deixará de existir.
- Continua...
- Pois as coisas deixam de existir quando mudam. E ela ainda mais. Pois a beleza dela é única, e tão delicada. Quando ela mudar deixará de ser tudo isso que é agora, e deixará de ser importante. Vai ser esquecida pra sempre. Não existirá mais.
- Bonito. Mas triste.
- Ela vai ser no máximo uma daquelas lembranças que são tão tristes e desesperadas que quando vêm tiram todo o ar dos pulmões de uma só vez. Que são trazidas de volta em segundos, ou por um cheiro, ou por uma música.
- ...
- Mas no caso dela, nem isso será assim. Pois nenhuma memória será capaz de reproduzir aquilo que ela é agora.
- E é por isso...
- Sim. Por isso que eu tento vê-la o máximo de tempo possível. Pois logo não poderei ver mais.
- Que triste.
- Vou desligar. Preciso dormir.
- Mas amanhã é domingo.
- Sempre é.

Marcadores:

O Lado Sujo de Havana

Por Dominique Valansi

Para o "Mooder" que quer dar um tempo das saídas sem perder a agitação, uma das opções para ficar em casa e se divertir (muito) é ler os livros do cubano Pedro Juan Gutiérrez.

Ele deixa o clima nostálgico e suave do filme "Buena Vista Social Clube" para trás e apresenta em pequenas crônicas uma outra Cuba: erótica, sensual, mestiça, suja, pobre e sujeita ao clima instável do Caribe, cheio de calor e tempestades.

E também mostra ao leitor, mesmo sem falar diretamente de política, as conseqüências do cruel embargo americano à Cuba que trouxe miséria, fome, o desemprego, a prostituição, e lógico, fugas quase que suicidas para Miami. Para quem gosta de uma literatura à la Charles Bukowski, o autor é a pedida certa.
Em seus dois livros lançados no Brasil pela Companhia das Letras, Trilogia Suja de Havana e O Rei de Havana, ele trata da realidade de seu dia a dia na capital cubana disfarçada em ficção, com sexualidade explícita regada a muito rum e salsa. Sua obra não é, de forma alguma recomendada aos moralistas e santinhas de plantão. Confira um trecho:

"Sexo não é para gente escrupulosa. Sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, de saliva, hálito e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias. Ou não é. Se é só ternura e espiritualidade etérea, reduz-se a uma paródia estéril do que poderia ser."

O autor muitas vezes retrata em suas crônicas o lugar em que mora: um terraço no oitavo andar de um prédio com vista para o mar que, como muitos em Havana, está caindo aos pedaços. Mesmo assim, ele ama Cuba e repete em entrevistas que não pretende sair de lá.
Pedro Juan Gutiérrez esteve recentemente no Brasil durante a Bienal do Livro. Ele é também jornalista, poeta e escultor. Quando começou a trabalhar, aos onze anos, vendia sorvetes. Depois, trabalhou como soldado, técnico de construção e até cortador de cana-de-açúcar. Hoje, aos 50 anos é um escritor mundialmente famoso, com seus livros sendo vendidos em mais de vinte países, mas que curiosamente não é publicado em Cuba, onde as editoras alegam "razões comerciais" para não publicá-lo.

Marcadores:

Praia de Ipanema

Por Sergio Martins

originalmente publicado em 1927:


De boas intenções o inferno está cheio. Poderia ser essa a moral da história do livro "Praia de Ipanema", de Théo-Filho (Coleção Babel), se uma doentia obsessão pela síntese acometesse o leitor. Porém, que crime maior do que sintetizar, ou melhor depenar este livro em busca de uma
simples mensagem?
Não, "Praia de Ipanema" definitivamente não tem seu ponto alto na fantástica história de Otto O'Kennutchy Guimarães, um jovem e visionário empreendedor que busca transformar Ipanema numa espécie prematura de Costa do Sauípe. Diga-se de passagem, seu desenrolar é até, de certa forma, previsível. Mas Théo-Filho não esboça intenção de que seja diferente, e se a trama não corresponde às pretensões do personagem, o mesmo não se pode dizer da rica e deliciosa descrição do cínico e deslumbrado cenário ipanemense da década de 20.
Bungalows, flirts, boys são apenas algumas das expressões que ajudam a mostrar o constrangedor passado emergente dos nossos atuais moderninhos de plantão. Entre matinês dançantes no Country Club, casas de ópio e banhos de mar, Théo-Filho apropria-se de um estilo menos escatológico que o estereótipo naturalista, ao mesmo tempo em que, com cinismo, lança as bases para os desvios de caráter rodrigueanos. O resultado é uma maravilhosa sucessão de termos descritivos que tornam viva a imagem de uma Ipanema ainda pré-púbere.
Não restam dúvidas: Théo-Filho possuía na mão esquerda um invejável senso de endoscopia social, e na direita uma vasta gama de ferramentas da escrita. E, bem munido, lançava seu olhar dissimulado para todos os lados. Menos para oeste, é claro. Afinal, "o oeste era Aglaé Lacerda, com sua palidez de púbere clorótica...

Marcadores:

Ele, ela

Por Tiago Casagrande

...e ele continuava a pensar nela... e a olhar para ela... e mais uma vez um turbilhão de emoções tomava conta do seu corpo. era uma vontade de rir tão grande que se transformava em vontade de chorar. ou vice-versa, ele não conseguia definir. ele fitava aqueles lábios que outrora o beijavam, e temia pela sua sobrevivência. da janela, a paisagem parecia derreter... a
música ainda estava lá, tocando, num repeat sem fim... "nobody loves me, it's true", betty cantava. ele sentia a solidão e a imaginava como um sopro na nuca (um sopro tão ruim que ele chegava a levar a mão nas costas parar fazer aquilo parar). "nobody loves me, it's true", e ele concordava com a letra da música. sentia tudo doer. o pescoço pede massagem, pede alívio.
mas os lábios dela, ah! na mente dele aquele lábios poderiam salvar sua vida, mas eram tão impossíveis e tão acessíveis ao mesmo tempo! o cd pula. ele morre de medo que a bateria acabe. a música não pode parar. a cabeça gira. "muito álcool de novo", ele tenta se enganar. ingenuidade. a cabeça dele estava girando de novo, depois de tanto tempo, e talvez ele nem
soubesse o significado daquela sensação. "did you realize, no one can see inside of you", essa era a falsa desculpa, a faixa 3 do cd. ele gostava de sentir-se sozinho. ele podia sentir pena de si mesmo. e a confusão em sua cabeça não precisava de explicação. o ônibus faz uma curva fechada muito rápido, ele segura o banco, perde a concentração, xinga mentalmente o motorista e suas 14 gerações antepassadas. ele queria matá-la, ele queria não precisar pensar nela, mas, ah, impossível! ele lembrava de uma sensação de muito tempo atrás, de pensar em alguém o tempo
todo... não conseguia definir o que era, nem se era bom ou ruim, mas o fato era: ela estava na cabeça dele, o tempo todo. "o tempo todo não!", ele tentaria se defender, mentindo. mas sim, o tempo todo ela surgia na mente dele. e no seu pensamento ele beijava os lábios dela, ("it could be sweet", faixa 4) enquanto ela se aninha no colo dele. triste, e tão feliz às vezes... como explicar? o beat da faixa 5 pulsa e faz seu corpo arrepiar... wandering star era o nome da música, e era a definição dele e dela, ele sabia que era especial, e que não podia parar em lugar algum, e que ela também estava vagando, procurando se achar... por isso ele gostaria de poder pegar uma faca e tchuns! acabar com tudo aquilo, livrar ele e ela daquela dor, "porque viver é uma dor", ele pensava, apesar de que isso não estava em nenhuma música...
"chega, chega... " ele e ela... porque nunca nós?
"grita, grita no meu ouvido! põe pra fora, droga!" a cabeça doía. eram muitas emoções despertas. ai, aquela angústia de novo! o ônibus parece estar a 320 por hora. a angústia, tanto tempo depois! o tempo todo! "o tempo todo não, o tempo todo não!" ele sentia torpor, sono, queria dormir pra sempre, mas sabia que ia acordar depois de algumas horas, e que tudo ia
continuar...
"i can't understand myself anymore", beth continuava na faixa 7
... ah, a dor! a culpa! ele queria o fim. mas... ...não conseguia.
e por isso, a dor continuava.
e na mochila surrada dele, os lábios dela.
e a cada beijo, um pedaço se soltava.

(em quantos pedaços mais ele poderia se dividir?) ...........

a trilha sonora é real: portishead, dummy

Marcadores:

O Lado Negro da Literatura Pop

Por Vladmir Cunha

De uns tempos para cá tornou-se um tanto quanto irritante ver as contínuas referências a Nick Hornby em zines, jornais e cadernos de cultura. Não se trata aqui de discutir os méritos literários do cara. Até porque, nunca li nenhum de seus livros. Confesso: o único contato que tive com a sua obra foi o filme de Stephen Frears, uma excelente comédia romântica que tem uma das cenas mais engraçadas que já vi em toda a minha vida. Apesar dos excelentes diálogos, nada na fita supera a sequência em que John Cusak e seus amigos esmagam a cabeça de Tim Robbins com um aparelho de ar-condicionado. É um daqueles momentos clássicos do cinema, que provam que efeito especial nenhum é capaz de substituir um diretor criativo.

Mas isso não vem ao caso. O fato é que eu estou aqui em plena madrugada de domingo escrevendo sobre um livro que eu não li. Talvez eu devesse seguir o conselho de um conhecido fanzine virtual e enterrar minha cabeça em um buraco. Ou então, talvez eu seja um ser desprezível e mereça ser deportado para uma ilha deserta junto com uma caixa cheia de CDs do Agnaldo Rayol. Não importa. Uma das coisas que eu aprendi nesse negócio de imprensa cultural é que o lance é saber usar as palavras certas e ler as revistas importadas antes de todo mundo. Se tem crítico que faz resenha sem ter ouvido o disco ou que "descobre" bandas novas copiando textos de sites gringos e ainda posa de bacana, é possível que eu esteja no caminho certo.

Pois bem. A minha bronca com "Alta Fidelidade" é que os brasileiros levaram o filme/livro/peça à sério demais. Parece que, de repente, escrever ficção fazendo referências ao pop virou o fino da bossa. Poucas pessoas compreenderam que era justamente a fixação de Rob Gordon com o gosto musical alheio que fazia dele um babaca. Em momento algum esse lado do
personagem é mostrado como algo positivo, e sim como um componente depreciador de sua personalidade. Antes de ser uma apologia, as dezenas de citações que aparecem no filme são o retrato de um sujeito desprezível e insuportável. Um chato de marca maior, como aquele seu amigo babão que vive lhe enchendo o saco por causa do último single do Belle & Sebastian que só saiu na Bulgária e ele comprou antes de todo mundo. Rob Gordon é idiota porque leva à sério a música pop. Ou leva à sério a música pop porque é idiota. Vai saber...

E então, eis que por causa do filme/livro/peça surge a nova moda do verão: os escritores pop brasileiros. Ho, ho, ho (citação obrigatória a Hunter Thompson). Qualquer garoto tímido e fã do Radiohead deu para achar que pode se tornar um grande escritor. Basta meia dúzia de casos amorosos mal-sucedidos, uma pitada de letras de bandas conhecidas, algumas expressões em inglês e diversas citações a qualquer coisa que possa ser remotamente classificada como "cultura pop" (desde que não seja pop brasileiro, of course). E assim nasce mais um Nick Hornby tupininquim, pronto para ganhar o mundo com sua ficção "jovem" e "inovadora".

O que é uma bobagem. Qualquer pessoa com um pouco mais de informação sabe que essa história de misturar cultura de massas com literatura é mais velha do que o rabo de cavalo do Pedro de Lara. Thomas Pynchon, por exemplo,sempre fez menções ao rock em seus livros, inventando, inclusive, gravadoras e bandas imaginárias (o grupo punk Chamando o Hugo e os
Vomitões, Billy Barf & The Vomitones, talvez seja sua criação máxima neste sentido). William Gibson batizou seu último livro de "All Tomorrow's Parties" e escreveu "Idoru", que fala de uma cantora virtual. Haniff Kureish há quase uma década lançou o hilariante "O Buda do Subúrbio",
ambientado na cena punk londrina e que descreve em detalhes um show dos Sex Pistols. Em seguida escreveu "O Album Negro", com inúmeras menções ao disco de mesmo nome do Prince. Já Brett Easton Ellis - "American Psycho", "Less Than Zero", "Glamouramma" e "The Confidents" - vai ainda mais longe e enche seus contos de referências pop e comentários sobre o gosto musical dos personagens. Isso sem falar de Don DeLillo - cujo penúltimo livro,
"Submundo", usa nomes de músicas de rock como título para os capítulos - e Tom Wolfe, que radiografou a cena psicodélica de São Francisco (Greatfull Dead incluído) em "O Teste do Ácido do Refresco Elétrico".
Guimarães Rosa, Ernesto Sábato, Gogol, Dostoiévski e James Joyce.
Escritores que nos ensinaram que é possível ser universal e local ao mesmo tempo. Ao falar sobre um atormentado pintor de Buenos Aires em "O Túnel", Sábato criou um dos mais impressionantes textos sobre a loucura humana. E as pequenas e provincianas aldeias russas foram o cenário perfeito para Dostoiévski idealizar os confrontos ideológicos atualíssimos de "Os Irmãos Karamazov". É triste mas é verdade, meus amigos: macaquear a cultura alheia
não leva a nada e só serve para superestimar coisas que não têm tanto valor assim. São os modernos endinheirados em busca da "última novidade". São as "indie bands" cantando em inglês com sotaque da Mooca. São os jornalistas picaretas que te chamam de anormal só porque você nunca ouviu falar do Coldplay e não vê graça nenhuma nos discos do Bidê Ou Balde. São as centenas de pessoas que conhecem a fundo o underground londrino mas não
param para pesquisar a música do seu próprio país. No meio disso, está a tal "literatura pop" brasileira. Salvo raras excessões, ela é igual a festa de debutante: ridícula e sem graça nenhuma. Há quem goste. E há quem ache patético. É tudo uma questão de saber se você quer entrar ou ficar do lado de fora falando mal da roupa dos convidados.

Marcadores:

Todas as Rosas do Balde

Por Daniel Galera

"A menina vai oferecendo as rosas opacas pelas mesas. Puxa a manga de um rapaz com cuidado, para ser notada, faz cara de choro e pergunta baixinho: "Dá uma rosa pra ela?". "Não, ela destesta rosas, dá essa banda" responde o rapaz. A garota na mesa não diz nada, mas também não retoma a conversa. Talvez ela quisesse uma rosa, não seria nada mau.
O balde ainda está cheio de flores. As ruas estão abarrotadas de gente, as mesas cheias, mas poucos compram flores, a menina sabe disso. Muito poucos. Não estão interessados. As flores percorrem a madrugada no colo da menina, envelhecem e ninguém pretende pagar um real por elas, isso é que é a verdade.
Um próximo bar, muitas mesas na calçada, a menina vai de pessoa em pessoa, já cansada. Então encontra o senhor aquele. Seus pequenos olhos se arregalam e cintilam de satisfação, ele está ali, na mesinha do fundo, a mesma de sempre.
A menina se aproxima, chega do lado do homem. Este abre um sorriso e diz: "Olá menina". Ela só responde "Quer uma rosa?" por puro hábito. Ela sabe que ele quer uma rosa. Muitas rosas. Todas as rosas do balde. "Quero todas as rosas!", diz o homem, com sua voz alta. "Todas do balde!".
Numa mesa próxima, meia dúzia de jovens bebem sua cerveja, fumam cigarros Camel e comem polenta frita salpicada com queijo ralado. A menina passou nesta mesa há alguns segundos, e foi rapidamente escorraçada. O rapaz de casaco azul, inclusive, enunciou o seguinte comentário: "Putaquepariu, já não dá pra beber em paz aqui na Cidade Baixa!". Os outros concordaram, indignados.
Mas agora o mesmo rapaz percebe que o homem da mesinha do fundo, sozinho com sua dose de destilado, vai comprar todas as rosas da menina. O rapaz pensa sobre isso, e chega à conclusão de que comprar uma rosa, de vez em quando, não seria nada mau. Para ajudar a menina. Há até mesmo alguma beleza neste gesto. Uma menina, rosas, por que as tratamos como coisas tão indesejáveis? O rapaz comunica seus pensamentos aos amigos: "Olha ali, gente, o véio aquele tá comprando todas as rosas da guriazinha. Que afudê".
"Todas?", surpreende-se uma das garotas. "Que maluco".
"Maluco nada", discorda o rapaz. "É afudê isso. Esse cara tá sempre aí. Deve ter o quê, uns cinquenta anos. Quase todo dia vem aqui tomar sua dose de destilado, fica na mesinha ali do fundo, não fala com ninguém. E assim, do nada, o cara compra todas as rosas da criança. Pô, quando eu for velho eu vou ser assim, vou andar por aí bem chinelo, vou tomar minha ceva todos os dias no mesmo bar, na mesma mesinha. E vou fazer coisas deste tipo, comprar todas as rosas das crianças que aparecerem."
"É bem coisa tua isso", diz a garota, olhando de lado para o rapaz.
Enquanto isso, a menina se aproxima mais da mesa do homem, ficando meio de costas pra ele, entre a mesa e a parede. O homem abre bem a mão e agarra a bunda pequenina da criança. A carne mole enche a mão, e por alguns segundos o homem fica ali, apertando. Com a outra mão, gira os cubos de gelo no copo e bebe mais um gole do destilado. A menina olha para a rua com uma expressão de espera. Já satisfeito, o homem solta a bunda dela, tira algumas notas da carteira e pega todas as rosas do balde. A menina agradece e se afasta pela calçada, pra longe dos bares agitados.
Numa parada de ônibus perdida no meio da avenida vazia, Umberto espera. Está sentado sozinho na calçada, com a cabeça apoiada na coluna de metal da placa, bêbado e quase dormindo. O medo de ser assaltado é incentivo pra que ele se mantenha acordado. Há apenas mais uma pessoa na parada, uma mulher baixinha, discreta. Uma criança chega, um menino de uns doze anos, com um balde de rosas. Começa a conversar com a mulher. Logo chegam mais duas crianças, uma menina de uns dez anos e um outro piá, com no máximo cinco. Todos com baldes na mão.
"Vendeu quantas", pergunta a mulher.
"Vendi nove", responde o guri maior. "Doze", canta o pequeno, pra quem o balde, ainda contendo algumas flores, parece enorme e pesado. A mulher toma o balde da mão deles, irritada. "E o resto? Por que não venderam as outras? Ficaram de brincadeira por aí?"
"Vendi vinte e quatro, mãe. Todinhas", diz a menina, entregando o balde vazio para a mãe. Veste uma blusa de lã rosa, toda furada, uma calça jeans e tênis sem cadarço. Umberto acha a menina bonitinha. Tem cabelos pelo ombro, lisos, esfiapados. O rosto um pouco encardido, olhos fundos, um jeitinho maduro demais pra idade.
"Quero os três baldes vazios amanhã", pragueja a mulher.
Um ônibus aparece na curva lá adiante. Umberto sabe que ainda não é o seu. A mulher faz sinal, entra com as crianças e desaparece. Umberto tem uma vontade enlouquecedora de que a menina dê uma olhadinha pra trás ao subir na escada do ônibus, mas isso não acontece.
Umberto vomita na calçada. Só quer chegar em casa.

Marcadores:

O Furacão Paulo Leminski

Por Dominique Valansi

"o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique"

poema retirado do livro
"Caprichos e Relaxos"

Paulo Leminski nasceu em Curitiba em 1945. Poeta de vanguarda, letrista de música popular, escritor, tradutor, professor e, pode parecer inusitado, mas ele também era faixa-preta de judô.
Mestiço de pai polaco com mãe negra, sempre chamou a atenção por sua intelectualidade, cultura e genialidade. Estava sempre à beira de uma explosão e assim produziu muito: é dono de uma extensa e relevante obra.
Sua estréia como escritor foi na Revista Invenção, do grupo concretista de São Paulo em 1964 aos 18 anos de idade. Mas durante as décadas de 60, 70 e 80, ele reuniu em sua volta várias gerações de poetas, escritores e artistas. Sua casa, no bairro do Pilarzinho, virou um local de reuniões informais e até de "peregrinações". Muita gente queria ver Leminski, desde desconhecidos a famosos como Caetano Veloso.
Leminski tinha uma grande preocupação com o conteúdo de sua obra. Por uma questão de temperamento e de busca, Leminski se aventurou na poesia de vanguarda, e alguns tipos de poesia que não têm uma raiz brasileira, como os hai-kais. Mas quando não estava na experimentando, ele fez uma poesia não formalmente metrificada. Era seu objetivo atingir o quadro sócio-político com ironia e, até um pouco de sarcasmo, sem ser panfletário.

esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem

poema retirado do livro "La vie em close"


Leminski era um boêmio inveterado. Em 1989, por causa de problemas com o álcool, ele acabou falecendo. Mas sua obra continua viva e pulsante. Na Internet, existem várias páginas que abordam o seu trabalho e até grupos de discussão sobre sua obra. Um bom exemplo para saber mais sobre Leminski e ler seus poemas é no endereço www.gratisweb.com/kamiquase.

Música
Como compositor Leminski teve a música "Verdura" como a primeira a ser gravada. Ela integrou o disco de 1981, Outras Palavras, de Caetano Veloso. Depois vieram outras gravações: "Mudança de Estação", com A Cor do Som; "Valeu", com Paulinho Boca de Cantor, e várias com Moraes Moreira: "Decote Pronunciado", "Pernambuco Meu", "Baile no Meu Coração", "Promessas Demais", que era a música tema da novela Paraíso, da Rede Globo, em 1982. Em 1998, Arnaldo Antunes gravou em seu disco Um Som a música Além Alma. Em 2000, Zeca Baleiro musicou a letra Reza. Vários outros artistas ainda utilizam a obra de Leminski para fazer músicas.

Família
Paulo Leminski se casou, aos 17 anos, com a desenhista e artista plástica Neiva Maria de Souza. Sua segunda mulher foi a Alice Ruiz, com quem ele viveu por 20 anos.
Algum tempo depois de começarem a namorar, Leminski e Alice foram morar com a primeira mulher do poeta e seu namorado, em uma espécie de comunidade hippie. Ficaram lá por mais de um ano e só saíram com a chegada da primeira de três filhos: Estrela. Eles depois tiveram mais uma menina, Áurea, e um menino, Miguel, que morreu com 11 anos.
No ano de 1987, o alcoolismo de Leminski começa a destruí-lo. Alice deu um ultimato e acabaram por se separar.
Leminski passou os últimos meses de sua vida com a cinesta Berenice Mendes. Ela estava grávida de quatro meses, quando Leminski veio, inesperadamente a falecer. Com a morte do poeta, ela acabou perdendo o filho.


Bibliografia

- Catatau (1975).
- Quarenta clics em Curitiba (poesia, com fotos de Jack Pires). Etecetera, Curitiba, 1976.
- Não fosse isso e era menos / Não fosse tanto e era quase. ZAP, Curitiba, 1980.
- Polonaises (poesia). Edição do autor, Curitiba, 1980.
- Cruz e Souza, o negro branco (biografia). Brasiliense, São Paulo, 1983.
- Caprichos & Relaxos. Brasiliense, São Paulo, 1983.
- Matsuó Bashô, a lágrima do peixe (biografia). Brasiliense, São Paulo, 1983.
- Jesus a.C. (biografia). Brasiliense, São Paulo, 1984.
- Agora é que são elas. Brasiliense, São Paulo, 1984.
- Um escritor na biblioteca. Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, 1985.
- Hai-tropikai (poesia, com Alice Ruiz). Tipografia do Fundo de Ouro Preto, 1985.
- Anseios crípticos. Ed. Criar, Curitiba, 1986.
- Leon Trótski, a paixão segundo a revolução (biografia). Brasiliense, São Paulo, 1986.
- Distraídos venceremos (poesia). Brasiliense, São Paulo, 1987.
- Guerra dentro da gente (infanto-juvenil). Scipione, São Paulo, 1988.
- Paulo Leminski (reunião de entrevistas e resenhas). Scientia et labor, Curitiba, 1988.
- A lua no cinema (poema ilustrado por Alonso Alvarez). Arte Pau-Brasil, São Paulo, 1989.
- Nossa linguagem (revista Leite Quente, nº1). Fundação Cultural de Curitiba, 1989.
- Memória de vida (homenagem póstuma). Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1989.
- Vida (biografias: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski). Ed. Sulina, Porto Alegre, 1990.
- La vie en close (poesia). Brasiliense, São Paulo, 1991.
- Uma carta uma brasa através - Cartas a Régis Bonvicino (correspondência). Iluminuras, São Paulo, 1992.
- Descartes com lentes (conto, coleção Buquinista). Fundação Cultural de Curitiba, 1993.
- Metaformose, uma viagem pelo imaginário grego (ensaio). Iluminuras, São Paulo, 1994.
- Winterverno (poesia, com desenhos de João Virmond). Fundação Cultural de Curitiba, Curitiba, 1994.
- O ex-estranho (poesia). Iluminuras, São Paulo, 1996.
- Melhores poemas de Paulo Leminski (poesia). Global, São Paulo, 1996.
- Ensaios e anseios crípticos (ensaios). Pólo Editorial, Curitiba, 1997.

Traduções
- Pergunte ao pó, John Fante. Brasiliense, São Paulo, 1984.
- Vida sem fim, Lawrence Ferlinghetti (com outros tradutores). Brasiliense, São Paulo, 1984.
- Um atrapalho no trabalho, John Lennon. Brasiliense, São Paulo, 1985.
- Sol e aço, Yukio Mishima. Brasiliense, São Paulo, 1985.
- O supermacho, Alfred Jarry. Brasiliense, São Paulo, 1985.
- Giacomo Joyce, James Joyce. Brasiliense, São Paulo, 1985.
- Satyricon, Petrônio. Brasiliense, São Paulo, 1985.
- Malone morre, Samuel Beckett. Brasiliense, São Paulo, 1986.
- Fogo e água na terra dos deuses, poesia egípcia antiga. Expressão, São Paulo, 1987.

Marcadores:

O Jovem Holden faz 50 anos

Por Bruno Porto

Cinqüenta anos. Quando uma pessoa completa essa idade passa a ser considerada por muita gente um sinônimo de maturidade, equilíbrio e experiência. E quando um livro está soprando 50 velinhas? Bem, no caso de "O apanhador no campo de centeio", de Jerome David Salinger - ou J.D. Salinger, como o escritor é conhecido - que está fazendo meio século este ano, pode-se dizer o contrário. Ao fim das 205 páginas da edição da Editora do Autor, que publica a obra do escritor no Brasil, as palavras que vêm à mente do leitor são conflito, insegurança, e, mais do que qualquer outra, juventude.

Não por conta de qualquer falha do autor, habilidoso tanto na construção do desmoronamento do protagonista do livro, o adolescente Holden Caulfield (nome tirado, reza a lenda, da junção dos sobrenomes de dois dos atores favoritos de Salinger, William Holden e Joan Caulfield) quanto no exercício de uma linguagem coloquial, ainda que não rala; mas porque essas são características que dizem respeito ao tema principal do livro: o jovem. E nesse caso entenda-se por juventude o período entre o nirvana sensorial e cognitivo da infância e o paradoxo liberdade/responsabilidade da vida adulta.

Não seria Holden um símbolo disso, um personagem que mescla a ingenuidade e a esperança das crianças com o cinismo e o descrédito dos mais velhos? Mais do que retratar a juventude de uma maneira estática, quiçá caricata, na forma de um rebelde sem causa, um contestador 24 horas por dia, como é comum em parte da arte atual, "O apanhador" revela todo o tormento, toda a instabilidade de quem está tendo que trocar a brincadeira e as descobertas por um lugar no mundo adulto, onde as regras já estão estabalecidas. Holden vai constatando durante todo o livro, tanto no Internato Pencey quanto em Nova York, as cores acinzentadas da Humanidade. E não é isso, de certa forma, que se passa com os jovens em geral? Eles são apresentados ao lado perverso das coisas e, depois de um período de sofrimento, de atrito e de contestação, acabam se integrando.

A diferença é que Holden, ao fim de sua saga, de sua Odisséia, não se integra, se desintegra. E é isso o que faz dele um personagem ao mesmo tempo trágico e querido entre os jovens. Diferentemente da maioria, ele não consegue aceitar as coisas como são. E essa não-aceitação não se dá racionalmente. Holden não consegue porque é muito puro, não podendo se corromper. Ele tenta, como no caso do encontro com a prostituta, símbolo da vilania e do hedonismo sem cara, mas não consegue, recuando no último instante. Um dos grandes feitos de Salinger, que há décadas se auto-exilou numa fazenda no interior do estado americano de New Hampshire, no livro é fazer com que nós nos identifiquemos com Holden ao mesmo tempo em que o enxergamos, com distanciamento, como um personagem cujo destino já nasceu traçado. Assim como o jovem, que também tem o destino traçado desde sempre: no caso, envelhecer.

No contexto literário, o livro também se destaca, podendo ser considerado um precursor do inconformismo que marcou a obra dos autores malditos da Geração Beat, pais de toda a rebeldia dos anos 60, com sua louvação das drogas (maconha, principalmente), do enfrentamento do estabelecido (atravessando o país com a mochila nas costas) e a música (no caso, o bebop). "On the road" ("Pé na estrada", na edição brasileira), de Jack Kerouac, a bíblia do movimento, foi lançado em 1957. Seis anos antes, Salinger já retratava o descontentamento da juventude pós-Segunda Guerra.

Em Holden Caulfield, com seu cinismo e agudo senso crítico em relação a tudo, estava plantada a semente da rebeldia. Se por um lado "O apanhador no campo de centeio" está ligado ao fim do sonho da Geração Paz e Amor, uma vez que o assassino do ícone número um de hippies e cia., John Lennon, Mark Chapman, carregava uma edição do livro quando foi preso logo após o crime, por outro ele apontou, antes de qualquer um, o problema que iria transformar o mundo nos anos seguintes. Feito o julgamento, só resta algo a dizer: feliz aniversário, Holden!

Marcadores:

Enterrada Viva

Por Alexandra Marchi

"Quinze contos que demonstram, de maneira simples e direta, a crueldade do homem urbano. Crueldade essa que se resume à essência da monstruosidade humana. Rubem Fonseca foi tão competente em registrar as pulsões de morte presentes em cada um de nós que, o livro não passou pelo crivo do regime militar sendo proibido em 1976.

O conto que dá nome ao livro chega a ser cômico de tão trágico. Três assaltantes são apresentados dentro de seu contexto absurdo. Noite de Ano Novo, o apartamento do tipo 'cafofo', nada para comer, a televisão transmitindo os ricos socialites vestidos de branco indo para festas inesquecíveis. A princípio, os três não têm intenção de fazer nada de especial além de assistir TV e aguardar os restos da macumba para se alimentarem no dia seguinte. No entanto, um assalto a alguma festa se torna inevitável. Como se esta fosse a única saída para aquele momento. E isso não é assustador, mas sim simples e óbvio.

E é desta forma que Rubem Fonseca delineia as atitudes de seus personagens em todos os contos que seguem. Nada é tão assustador quanto parece. As águas que determinam o comportamento confluem em direção às atitudes monstruosas. Assim é o homem, tentando a todo custo suprir suas necessidades básicas, a despeito do outro que, por acaso, passou pelo seu caminho.

Para exemplificar esta afirmação, nada melhor do que os dois contos "Passeio Noturno - Parte I" e "Passeio Noturno - Parte II". Em ambos o personagem principal é um empresário rico, com seu trabalho, sua firma, sua mulher e seus filhos. Tudo ao redor preenchendo seus papéis perfeitos. A máquina (seu carro) preenchendo o papel de engenharia e amiga. Sua maior confidente para cada atitude perversa. Assim, após passar por um cansativo dia de trabalho e sem paciência para conviver com seus familiares, o homem sai para dar seus macabros passeios noturnos. Com toda a impassibilidade do homem moderno.

A falsidade da mídia alimentando a grande mentira que é a realidade na qual vivemos; a violência e a miséria das pessoas que estão ao nosso redor, todo o tempo, mesmo sem percebermos; os advogados, jornalistas, amantes, escritores, empresários... em cada conto situações presentes e conhecidas de nosso dia-a-dia. Como se estivéssemos lendo os monstros sociais da nossa cidade, ou de qualquer outra grande cidade.

Marcadores:

Feliz Ano Novo

Por Clarisse Cunha

"Quinze contos que demonstram, de maneira simples e direta, a crueldade do homem urbano. Crueldade essa que se resume à essência da monstruosidade humana. Rubem Fonseca foi tão competente em registrar as pulsões de morte presentes em cada um de nós que, o livro não passou pelo crivo do regime militar sendo proibido em 1976.

O conto que dá nome ao livro chega a ser cômico de tão trágico. Três assaltantes são apresentados dentro de seu contexto absurdo. Noite de Ano Novo, o apartamento do tipo 'cafofo', nada para comer, a televisão transmitindo os ricos socialites vestidos de branco indo para festas inesquecíveis. A princípio, os três não têm intenção de fazer nada de especial além de assistir TV e aguardar os restos da macumba para se alimentarem no dia seguinte. No entanto, um assalto a alguma festa se torna inevitável. Como se esta fosse a única saída para aquele momento. E isso não é assustador, mas sim simples e óbvio.

E é desta forma que Rubem Fonseca delineia as atitudes de seus personagens em todos os contos que seguem. Nada é tão assustador quanto parece. As águas que determinam o comportamento confluem em direção às atitudes monstruosas. Assim é o homem, tentando a todo custo suprir suas necessidades básicas, a despeito do outro que, por acaso, passou pelo seu caminho.

Para exemplificar esta afirmação, nada melhor do que os dois contos "Passeio Noturno - Parte I" e "Passeio Noturno - Parte II". Em ambos o personagem principal é um empresário rico, com seu trabalho, sua firma, sua mulher e seus filhos. Tudo ao redor preenchendo seus papéis perfeitos. A máquina (seu carro) preenchendo o papel de engenharia e amiga. Sua maior confidente para cada atitude perversa. Assim, após passar por um cansativo dia de trabalho e sem paciência para conviver com seus familiares, o homem sai para dar seus macabros passeios noturnos. Com toda a impassibilidade do homem moderno.

A falsidade da mídia alimentando a grande mentira que é a realidade na qual vivemos; a violência e a miséria das pessoas que estão ao nosso redor, todo o tempo, mesmo sem percebermos; os advogados, jornalistas, amantes, escritores, empresários... em cada conto situações presentes e conhecidas de nosso dia-a-dia. Como se estivéssemos lendo os monstros sociais da nossa cidade, ou de qualquer outra grande cidade.

Marcadores:

Feliz Ano Velho

Por Anne Clinio

Pode uma pessoa, numa cadeira de rodas, estar mais inteira do que nunca? Uma sinopse careta, do tipo "o livro conta o processo de recuperação e as lembranças de um rapaz que ficou paraplégico aos 20 anos de idade" é uma verdadeira covardia com o leitor desavisado que se depara com Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva - um dos maiores best-sellers dos anos 80.

O texto franco, direto, escrito com grandes doses de carisma e, por que não, bom humor, não se limita a lamentar a má sorte de um rapaz que deu um mergulho em um lago raso e partiu a coluna vertebral. Na verdade, Feliz Ano Velho mostra toda a inquietação de um jovem que viveu plenamente, como se cada minuto de sua vida como se fosse o último.

A maneira sincera com que Marcelo lembra de seus namoros e casinhos, admitindo momentos de fraqueza - como a vez que broxou - e grandes conquistas como o dia em que mexeu o braço pela primeira vez ou o carinho dos inúmeros amigos (muitos mesmo) que acompanharam sua recuperação tornam a experiência de vida deste rapaz - ele ainda teve o pai, o deputado federal Rubens Beyrodt Paiva assassinado durante a ditadura - uma verdadeira lição de que a vida é boa pra caralho.

Marcelo opta, conscientemente, por um texto maduro em que fala das suas experiências sem cair na pieguice de livros de auto-ajuda, sem querer dar uma de mocinho, de pobre coitado. Como ele mesmo disse um ano após o acidente. "Meu futuro é uma quantidade infinita de incertezas. Não sei como vou estar fisicamente, não sei como irei ganhar a vida e não estou a fim de passar nenhuma lição. Não quero que as pessoas me encarem como um rapaz que apesar de tudo passa muita força. Não sou modelo para nada. Não sou herói, sou apenas uma vítima do destino, dentre milhões de destinos que nós não escolhemos. Aconteceu comigo. Injustamente, mas aconteceu. É foda, mas que jeito..."

*O texto Feliz Ano Velho está sendo encenado em São Paulo (TUCA) e também está disponível em vídeo no filme homônimo estrelado por Marcos Breda e Malu Mader.

Frases:

"De repente vejo pousar uma nota de cinqüenta cruzeiros no meu colo. Era uma velha que tinha jogado e saído rápido. A princípio não entendi, mas depois não agüentei e caí na gargalhada. Ela tinha me dado uma esmola. E como dissera meu amigo paraplégico Silvio: ser deficiente também tem suas vantagens" pág 226

"Dei muita sorte na Unicamp, com um sorriso bonito e esse meu machismo liberal. É a minha grande arma, meu sorriso. Não que eu tenha descoberto isso, mas várias garotas se deixaram seduzir por ele. Depois me contavam. É claro que eu comecei a dar maior importância , já que passei grande parte da minha adolescência com uma incrível dificuldade de me aproximar de mulheres." pág 74

Marcadores:

Bicho Mulher

Por Clarisse Cunha

Este é um livro sobre mulheres. Mulheres e seus medos, devaneios e mistérios. Mulheres e seus sonhos, luxos e ideais. Mulheres e suas verdades, teorias e sabedorias. Mulheres e seus bichos, secretos ou explosivos, frutos de diferentes combinações e vivências.

Amante de Clarice Lispector, Adélia Prado e Elisa Lucinda, Ivana não poderia deixar de fazer uma literatura menos feminina. Labirinticamente sedutora, envolvente e enigmática, ela conta como as mulheres se vêem e se compreendem. Como são "diantes de si". O retrato, composto desde sangue, gritos e lágrimas até sentimentos e flores primaveris, anuncia seres universais e atemporais - regidos pelos desejos mais secretos e delicados.

Tudo começou quando a escritora iniciou sua busca pela essência humana. Inevitavelmente se deparou com a palavra: a possibilidade de comunicação e, conseqüente, compreensão dos seres. Segundo ela, "palavras são como bichos: sem sentido, até o momento que pulam a cerca e encontram liberdade", constatando que cada palavra, com toda sua mágica de sons e sentidos, serve de ponte entre as pessoas e o mundo.

A forma pela qual os seres se expressam no mundo e toda a tentativa de liberdade levou Ivana novamente a outro fim: a mulher. "Em todas as épocas, o discurso feminino caminhou na direção da liberdade". Mais do que isso, ela se depara com a incerteza feminina. Através da metáfora não somente das palavras, mas também dos sentimentos, a autora descreve mulheres vulcões-em-erupção. Mulheres-bichos em processo de autoconhecimento.

Através da questão "se você pudesse renascer como um animal, qual gostaria de ser?", Ivana mostra a essência feminina em busca de uma verdade, sabedoria e consciência de si, além de uma tentativa de compreensão de seus desejos por parte do outro.

Marcadores:

Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos

Por Clarisse Cunha

A sensação é a seguinte: estar no cinema assistindo a uma colagem de questões intelectuais, angústias humanas, romance policial, cenas da guerra fria, loucuras do sonho. Talvez seja o melhor da obra de Rubem Fonseca, e não sou a única pessoa a afirmar isso.

Decididamente, ler Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos significa não conseguir parar um minuto sequer. É enxergar a vida e as situações cotidianas do homem dentro de uma ótica cinematográfica, na qual é necessário que haja uma lógica concisa e eficiente. Os personagens devem ser sempre muito bem definidos, suas ações delimitadas, seus sentimentos delineados para que o público capte "o quê o diretor quis dizer". E é aí que se encontra a confusão.

A história de um cineasta-narrador que se envolve com uma história de pedras preciosas e assassinato, ao mesmo tempo em que começa a ler os contos do judeu soviético Isaak Bábel. A tentativa de transformar tais contos em roteiro para sua nova produção, junto aos seus confusos sentimentos e amores acaba em uma mistura da lógica racional da linguagem cinematográfica, à completa falta de lógica da linguagem inconsciente dos sonhos e a tentativa de adaptar a linguagem literária à uma realidade. E então, qual a mensagem que deve ser passada? Há algo que deve ser passado? Como organizar as vastas emoções sem deixar com que se percam em pensamentos imperfeitos?

Rubem Fonseca não fornece respostas, mas incita questões - questões essas que valem muito a pena.

Marcadores:

Os Dragões não Conhecem o Paraíso

Por Alexandre Eugênio

São histórias de amor. São histórias, fragmentos, de vidas que se envolveram com este sentimento em variadas manifestações e eventos. Mas aqui encontramos esses flagras da realidade de forma tão singela, arduamente realista, mas com picos de extremo romantismo que atenuam e preenchem de doçura as linhas traçadas por este contador de histórias. Observa-se na escrita de Caio Fernando Abreu uma despreocupação com elementos estéticos construídos com cautela para amenizar e empompar as cenas... Mais do que isso, uma tendência quase casual para um naturalismo resgatado, uma admiração pela patologia do comum, do não-enriquecido, como o mais puro e verdadeiro modo de expressar os enredos... É uma escrita forrada de paixão e de um contato próximo com a essência desejante do indivíduo. O conflito do estar desejando, o não-conflito ou a leveza de sonhar, a volúpia do prazer carnal, a culpa ou a naturalidade quanto aos conflitos da sexualidade, porém a certeza de ter o sentimento do amor presente, em suas diferentes etapas, seus fins e meios, seus certos e errados. É um livro de contos entrelaçados por este comum sentimento: o amor. Alguns têm seu final feliz, outros nem tanto ou talvez... Não importa. Importa aqui a intensidade, a força, a pureza, a cumplicidade que aflora nos indivíduos pelo despertar dele em suas vidas. Importa a forma como sentimos o momento presente, quando o amor acontece. E ainda, importa saber construí-lo, cultivá-lo, vivê-lo e preservá-lo.

Marcadores:

Ensaio sobre a Cegueira

Por Alexandra Marchi

O ser humano diante de situações insólitas está em pauta desde a veiculação de programas como "Survivors" e "No Limite". Ou ainda o "The Most Amazing Vídeos", com pessoas enfrentando momentos pitorescos e até perigosos, captados por alguém que filmava o que era para ser apenas um registro de um episódio cotidiano. A pergunta que fica é: como o ser humano responde a esses estímulos e até onde ele pode suportar em nome de sua sobrevivência? José Saramago narrou com maestria em "Ensaio sobre a Cegueira" uma situação desesperadora e suas conseqüências: a cegueira de toda uma população.

O livro começa com um motorista, que subitamente fica cego enquanto está parado em um sinal vermelho. Com uma pequena diferença: ele não mergulha numa total escuridão, mas sim numa cegueira leitosa, completamente branca. A partir daí, a cegueira vai contaminando outras pessoas como que num ciclo, começando por ele e seguindo através das pessoas que mantiveram contato com ele, desde o seu médico, passando pela mulher dele, os pacientes, até que se torna uma epidemia misteriosa. Todos os cegos são confinados em locais abandonados e fechados, sob as ordens dos que ainda conservavam a sua visão. Diante desse cenário, quem enxergava tornava-se uma autoridade, estabelecendo de que forma os cegos deveriam se comportar. Apesar da "epidemia" chegar a um grau tão extenso, acabando por atingir toda a população do local, a mulher do médico é a única pessoa que ainda consegue enxergar e assim registrar todo o horror e provação que os cegos enfrentam. Observando o comportamento deles a partir e o modo como relacionam-se uns com os outros, ela chega a concluir que as pessoas tornam-se realmente quem elas são, a partir do momento em que não podem julgar a partir do que vêem.

Marcadores:

Fogo nas Entranhas

Por Clarisse Cunha

Almodóvar surpreendendo, mais uma vez. Ou melhor, corroborando seu estilo, confirmando a busca pela essência, pela loucura humana. Ao fazer isso, ele não racionaliza o homem, mas tira o véu do homem pós-moderno fragmentado.

Um chinês dono de uma fábrica de absorventes íntimos que é abandonado por cinco mulheres, cada qual a seu tempo. "Diana, a orgulhosa; Mara, a cínica; Katy, a abelhuda; Lupe, a hippie; e Raimunda, a freira". Como sempre, em Almodóvar, temos personagens completas - tanto as principais quanto as secundárias. A princípio, as atitudes de cada uma são contextualizadas em uma colagem, aparentemente sem lógica, mas que funciona como justificativa inicial, até o momento em que todos se encontram.

Então, temos os absurdos almodovarianos. Temos a possibilidade de nos relacionarmos com o, considerado, bizarro e amoral. Em "Fogo nas entranhas" não há limites entre as dicotomias afetividade/racionalidade, moral/imoral, feminilidade/masculinidade. O que há é o tabu sendo humanizado e aceito.

O interessante ao ler Almodóvar, ao invés de vê-lo, é que há uma visualização do que está sendo dito. Digamos que seja uma "transcendência sensorial". Parece mesmo que estamos vendo uma das "chicas almodovarianas" como tresloucadas atrás do sexo masculino, a velhinha virgem atacando homem, Madrid em chamas, o desespero de todos, enfim, as situações tão verossímeis sempre presentes em seus filmes.

Muito bem definido no prefácio, por Regina Casé, de livrinho safado, "Fogo nas entranhas" você lê de uma só vez - e adora.

Marcadores:

Os Funerais de Mamãe Grande

Por Clarisse Cunha

"Os funerais de Mamãe Grande" é um livro de oito contos do consagrado autor de nosso tempo, Gabriel García Márquez. Dedicado ao "crocodilo sagrado", García Márquez não deixou de lado sua preferência pelo realismo mágico como forma de narrativa, o quê o fez levar o Prêmio Nobel de Literatura em 1982 pelo seu romance "Cem anos de solidão" (aliás, muitíssimo recomendado!). Em "Cem anos", o autor mostra que sabe fazer uso do tal realismo mágico e consegue nos deixar confusos quando ao que é sério, trivial, horrível, lúdico, trágico ou cômico.

Em "Funerais", temos o mesmo tipo de narrativa. Os oito contos presentes neste volume ("A sesta de terça-feira"; "Um dia desses"; "Nesta cidade não existem ladrões"; "A prodigiosa tarde de Baltazar"; "A viúva de Montiel"; "Um dia depois do sábado"; "Rosas artificiais" e "Os funerais de Mamãe Grande", todos de 1962) mostram a vida da população de Macondo, uma pequena cidade na América do Sul muito presente na obra de García Márquez. Um lugar imaginário, misterioso e mágico onde seus habitantes passam por situações maravilhosas e fatais. Todos os extremos são aceitos.

No realismo fantástico (ou mágico), temos a representação e descrição de eventos simples junto com elementos derivados de mitos e contos de fadas. São como que experimentações que confundem e encantam os leitores, além de caracterizar as personagens desta pequena cidade de modo íntimo e envolvente.

É o caso da Mamãe Grande do conto homônimo ao livro. Uma autêntica soberana de Macondo que morre aos 92 anos e deixa a população praticamente em estado de sítio. Tudo pára em função desta mulher que é tida como dona do mundo, literalmente. E a confusão acontece no momento em que ela determina seu testamento pois são inúmeros tanto os dependentes quanto os bens. Hilário e encantador.

Marcadores:

Um Copo de Cólera

Por Clarisse Cunha


Verdade seja dita, antes do filme "Um copo de cólera", pouca gente conhecia esse grande escritor brasileiro, Raduan Nassar, por motivos dados, principalmente, por ele. Isso porque ele fez questão de abandonar a literatura (ou será que continua produzindo em silêncio?) e ir viver em uma fazenda no interior do Brasil. Um autor, um tanto quanto, idiossincrático, sua obra se resume a três livros: o romance "Lavoura Arcaica", a novela "Um copo de cólera" e o livro de contos "Menina a caminho". Obra não muito extensa e, no entanto, grandiosa.

Sobre sua novela, quem assistiu ao filme "Um copo de cólera" chegou bem perto de alguma essência - se é que podemos determiná-la. Mas o filme fez jus ao livro, e sabemos que isso é bem complicado de acontecer. Pois então, a essência passa pelos limites de um relacionamento - o amor só se faz possível quando se tem, paralelamente, o ódio. A narrativa fala de um casal que, depois de uma noite alucinante de amor, dá início a um conflito sem fim. Conflito esse que faz com que venha à tona pontos até então nunca mencionados entre eles.

Podemos, a partir daí, fazer uma analogia da noite de amor com o momento da briga pois são momentos em que o ser humano se despe completamente, de corpo de alma. "... só sei que aí a coisa foi suspensa, o circo pegou fogo (no chão do picadeiro tinha uma máscara)..." (p.69), ele descreve em determinado momento. Pois é mesmo de máscaras que se trata, de falsos rostos que, ao serem utilizados, caracterizam qualquer personagem dramático. Máscaras e, acima de tudo, de funções e papéis que cada um cumpre em relação ao outro. Um homem, uma mulher, um jardineiro e uma empregada doméstica são as personagens desta novela que deixa qualquer um estupefato diante de nossos (!) limites.

Marcadores:

Um Sopro de Vida ( Pulsões)

Por Clarisse Cunha

"Quero escrever movimento puro", seja lá o quê isso queira dizer, é assim que Clarice dá início a este romance que é quase que uma meta-literatura. Ou, melhor dizendo, justificativas para a escrita; a relação entre o autor e seus personagens; as ações e emoções que se desenrolam.

Desse modo, Clarice trabalha com a idéia do autor em contraponto com a sua criação. Afinal, o enredo, ou mesmo o emaranhado de sentimentos (o quê, aliás, pertence mais à literatura de Clarice) não saem aleatoriamente, mas sim em função de toda uma vivência, experiência e diversas sensações adquiridas por este no decorrer da vida. Ao contrário do que alguns pensam e teorizam, um personagem nunca está à margem de seu criador, mais sim à beira, em uma eterna espreita.

Aparentemente, o enredo conta a história de um homem-escritor que começa a escrever um livro. Para tal, ele cria uma personagem: Ângela Pralini. No entanto, essa mulher é muito mais do que uma mera protagonista. Ela representa o não-ser deste homem ou o ser oculto que ele carrega dentro de si. Isso não concerne apenas ao fato de serem sexos opostos, mas de tudo o que uma pessoa gostaria de poder pensar, poder imaginar e elucubrar e nem ao menos chega perto. E isso é levado ao extremo uma vez que ela faz parte apenas do imaginário dele, possibilitando um espectro mais amplo e profundo de "realização" de seus desejos. Ele tem o poder nas mãos e, a qualquer momento, pode simplesmente fazer Ângela desaparecer. Ou fazer com que ele mesmo desapareça...

Um autor que se envolve de tal modo com sua produção, que não entende mais o limite entre o criador e a criação - relação esta tão limítrofe. "Ângela é meu equívoco? Ângela é minha variação?", ele se pergunta em determinado momento. Quem pode definir quais são os limites entre o quê determinada pessoa é e o que ela deseja ser? Esta pode ser considerada a questão central de Clarice. Mais uma vez, questões labirínticas do ser. Abrindo e fechando caminhos internos, cosendo a possibilidade de se encontrar soluções, Clarice Lispector prova, novamente, que é uma das maiores escritoras brasileiras (quiçá, a maior), e que merece ser redescoberta a cada instante.

Marcadores:

Cidades Invisíveis

Por Clarisse Cunha

"As cidades invisíveis", de Calvino, é uma espécie de "bíblia" para o entendimento das cidades e, consequentemente, de quem as habita. Se desejamos entender algum discurso que explique as cidades, e não somente o discurso mas diferentes formas de interpretação, ler este romance é quase que fundamental.

É um livro delicioso de ser lido, pois são vários textos curtos nos quais Marco Polo, o famoso viajante veneziano, descreve para o imperador Kublai Khan, diversas cidades que havia visitado. Todas têm nome de mulher e, em cada uma, a linguagem mostra que podemos percorrer as ruas como se estas fossem páginas escritas. Dependendo somente do que se procura em cada cidade. Por exemplo, quais são os lugares que desejamos ir, quem gostaríamos de encontrar, se é dia ou noite... são infinitas as possibilidades de leitura. Interessante também é perceber como uma cidade ajuda a ler outra, pois há conexões entre os meios urbanos, por mais distantes que estejam

As cidades também são duplas, e isso aparece em Calvino como "cristal e chama". O traçado da cidade moderna tenderia para o cristal uma vez que é o lado racional e ideal. Já a presença do homem, com suas experiência próprias e inter-relacionadas, a transforma em chama. Na cidade e no homem, o cristal não vive sem a chama. É a duplicidade da descrição, da vida e da percepção humana.

O desejo do imperador Kublai Khan é que, após as descrições, fosse possível montar um império perfeito. Fato que não pode acontecer. As cidades nunca serão perfeitas porque nós, homens, não o somos e nunca seremos. Por mais que se tente.

Marcadores:

A Casa dos Budas Ditosos

Por Clarisse Cunha

Luxúria é um dos livros que compõem a coleção Plenos Pecados, recentemente lançada pela editora Objetiva. Com certeza o objetivo dos editores, ao dar o tema luxúria para Ubaldo não era bem intencionado. Ou melhor, era tão bem intencionado que só poderia ter um resultado: a controvérsia. Fato é que conseguiram e, diga-se de passagem, muito bem. Está aí o livro, o autor, o assunto e, o principal, a polêmica.

Muita gente por aí alegou que não conseguiu passar da página 10, uma vez que a história se repetia a cada parágrafo. Sexo, sexo e... mais sexo. Sexo à vontade, para dar e vender. Sexo para todos os tipos e gostos. Sexo de todos os modos possíveis e imagináveis. E, quando não se agüentasse mais... sexo.

Mas muita gente gostou. Pegou o livro e leu de uma tomada só, sem conseguir tirar os olhos. Além daqueles momentos os quais merecem sonoras gargalhadas. Sim, porque as situações são absolutamente hilárias. Talvez pelo fato de ser tão gostoso - e instigante - de ser lido, em Portugal, muitos foram os estabelecimentos que se recusaram a vender o dito cujo, alegando que infringia a moral e os bons costumes da terrinha.

Fora a questão moral, outros assuntos surgiram. Por exemplo, a dúvida quanto ao narrador. Ubaldo começa o romance falando que o trabalho dele estava sendo apenas o de transcrever algumas fitas que uma senhora havia deixado com ele. Sim, isso mesmo, uma senhora! Ou seja, toda aquela sacanagem havia sido vivida e estava sendo narrada por uma senhora!

Para a psicanalista Heloisa Caldas, é óbvio que o narrador é ele mesmo, Ubaldo, e não uma mulher. Segundo ela, a sexualidade feminina não é orientada exclusivamente pela lógica fálica, esta responsável pela contagem, mas também por um gozo infinito impossível de ser transmitido em palavras, ou de ser estimado numericamente. Ela ainda afirma que somente no amor esse gozo encontra uma maneira de se expressar, e não reduzido a aventuras eróticas, como no romance "A casa dos budas ditosos". A importância do amor para a mulher nunca acaba, acontece antes, durante e depois. Realmente, nós, mulheres, sabemos que um discurso que preza o sexo quantitativo movido a "menages" e bacanais é bem caracterizado como sendo masculino!

De qualquer forma, João Ubaldo conseguiu bem o quê queria. Colocou a boa senhora para "soltar a franga e o verbo". Muito bom para quem quer rir bastante!

Marcadores:

Onde Estivestes de Noite

Por Clarisse Cunha


Está aí uma boa demonstração da noite, seus significados, suas conseqüências. A lógica da noite sendo comparada à lógica do sonho, ou melhor, ao espaço no qual não há lógica alguma, mas o total esvaziamento dos, valores, moral, do que vem a ser considerado correto. É na noite que nos deparamos com as possibilidades de sermos tudo o que não podemos durante o dia, como definiu maravilhosamente Fernando Pessoa ao afirmar que "De dia sou nulo, de noite sou eu"

. Em "Onde estivestes de noite", não existe um personagem masculino e/ou feminino, mas sim um Ele-ela / Ela-ele, um ser andrógino que é uma mescla de questões sexuais, ideais, morais. Todos em busca um do outro, do prazer, da reciprocidade, da orgia noturna.

A troca de identidade, a mudança em relação à função diária na vida das pessoas, a máscara noturna de cada um, o incesto e a loucura são temas recorrentes neste conto de Clarice Lispector, sempre tratados como um delírio coletivo. É um verdadeiro ritual dionisíaco, bem ao gosto das bacantes gregas.

Na verdade, neste conto, a autora trata a noite como um momento de perdição, não tanto no sentido do pecado, mas sim de motivo para procura. É quando não temos as obrigações do dia-a-dia, quando podemos usar a escuridão como álibi para nossos desejos.

Para quem leu "As brumas de Avalon", de Marion Zimmer Brandley, uma das versões das lendas do Rei Artur e sua trupe, é impossível não lembrar dos loucos rituais de iniciação de Artur e sua irmã Morgana.

O conto "Onde estivestes de noite" está no livro homônimo de Clarice Lispector, onde se encontram outros contos igualmente fantásticos, tais como "Silêncio", "A partida do trem", "A procura de uma dignidade".

Marcadores:

A Noite Escura Mais Eu

Por Clarisse Cunha


Neste livro de nove contos, Lygia Fagundes conta toda a verdade. Não a verdade evidente, mas aquela difícil de ser contada: a do inconsciente. E é exatamente aí que está o valor da obra. Classificaria-o de uma "brain storm organizada", se é que isso é possível.

Ao virar as páginas, pode-se sentir as belas palavras jogadas no livro ao acaso, mas que caem perfeitamente bem, como se pedissem licença para usar outras e dar continuidade à história. Mas cuidado: Lygia não é leitura fácil de ser digerida. Palavras belas podem ser pesadas, e neste caso são por servirem para todos nós. Situações que se adequam à realidade de qualquer um, e Lygia consegue isso ao se entregar nessa obra-prima. A sinceridade rendeu-lhe um ótimo livro de contos, que encantam.

Contos para serem lidos em dias ensolarados, nublados, chuvosos.... mas sempre com muita calma, a fim de permitir-se envolver. Sem esse "relacionamento", todo o charme de Lygia é em vão. Aqui, quem faz o livro, é o leitor. Pois então, aproveite!

Marcadores:

Batman - A volta do Cavaleiro das Trevas

batman

"Então... algo se move oculto... algo que respira o ar viciado... e sibila."

Uma ótima notícia para os fãs de quadrinhos: quinze anos depois de seu lançamento, o livro "Batman - O Cavaleiro das Trevas", escrita e desenhada por Frank Miller, finalmente ganha a sua esperada continuação. A história, que trazia o Homem-Morcego já na casa dos cinqüenta anos, foi considerada uma doideira total na época - e acabou por se tornar um clássico do gênero.


Mas, afinal, o que leva alguém a se vestir de morcego?

A menos que você tenha uma festa à fantasia ou sua namorada possua preferências esquisitas, a resposta é simples: basta ter seus pais assassinados no Beco do Crime. A história é batida: na saída do cinema, o jovem milionário Bruce Wayne é surpreendido, juntamente com seus pais, por um assaltante. Ao tentarem reagir, o Sr. e a Sra Wayne são mortos a tiros na frente de seu filho. O menino, único herdeiro de uma imensa fortuna, decide então dedicar sua vida à luta contra o crime, e não poupará esforços - nem dinheiro - nesta pequena guerra particular.

A idéia da roupa de morcego veio de um acontecimento de infância, quando o pequeno Bruce caiu acidentalmente num buraco em sua propriedade e acabou descobrindo uma caverna gigante, cheia de morcegos, que veio a se tornar a famosa Batcaverna, refúgio do herói.

Quando criou o personagem em 1939 para a editora DC Comics, o jovem desenhista Bob Kane não tinha a menor idéia das proporções que sua criação tomaria. Além de zilhões de aparições em quadrinhos nestes últimos 60 anos, o Homem-Morcego virou filme (dois ótimos e dois péssimos), uma ridícula - apesar de cult - série de TV (aquela do "Pow! Sock! Blam!") e uma dezena de dezenhos animados, entre muitas coisas mais. Mas apesar de toda essa exposição e usurpação de sua imagem pela mídia, ainda existem aqueles que levam o tema a sério. E não são poucos.


E agora, um minuto de vossa atenção.

"Para mim, Batman nunca foi engraçado. Eu tinha oito anos quando retirei uma edição anual de oitenta páginas da estante de um supermercado. A arte numa das histórias parecia ótima e aterradora... Gotham City era formada por frias lanças de concreto iluminado pelo luar, varrida pelos ventos e insondável, desvanecendo-se em nuvens de luzes urbanas, brumas alvas e úmidas, milhas abaixo de mim. (...) Uma sombra caía atrás de mim. Asas próximas e quase silenciosas. (...) O luar banhava suas costas, os ombros enormes, percorria o pescoço musculoso rumo ao crânio, atingindo o triângulo de uma das orelhas pontiagudas de morcego. Erguia-se no espaço, asas abertas, e depois caía. Agora transformadas em tremulante capa, as asas envolviam o corpo de um homem. Ele passou por mim, e sua sombra, deslizando através das paredes, crescia até tragar prédios inteiros iluminados pelas brumas cintilantes. A sombra mesclava-se com a névoa. Desaparecia.
...O gibi de oitenta páginas custava caro, mas eu o comprei assim mesmo".

O depoimento de Frank Miller, reproduzido parcialmente acima, nos dá uma idéia do que levou o artista a conceber "Batman - O Cavaleiro das Trevas" em 1987. A história se passa dez anos depois do herói ter anunciado sua aposentadoria. Pela primeira vez na história dos quadrinhos, um super-herói é retratado atemporalmente, ou seja, fora do tempo de sua concepção original. Bruce Wayne agora tem cinqüenta e cinco anos, cabelos brancos, e já não goza mais do vigor físico de outrora. Apesar disso, resolve voltar à ativa diante de uma Gotham City caótica, dominada pela violência e medo. Seus métodos de combate ao crime, como sempre anti-convencionais, despertam tanto o amor quanto o ódio dos habitantes de Gotham, que passam a se dividir entre prós e anti-Batman, enquanto a polícia tenta de todas as formas capturá-lo, sempre em vão. O problema passa a tomar maiores dimensões quando os antigos arquinimigos de Batman, como o Duas-Caras e o Coringa, passam a organizar matanças em massa para satisfazer seus delírios sociopatas.

Diante de tamanho caos, o presidente dos Estados Unidos decide pegar pesado e solicita a ajuda do mais poderoso dos heróis, o Super-Homem. O homem de aço àquela altura do campeonato havia se tornado um mero fantoche do Governo norte-americano, servindo aos interesses da elite e lutando ao lado dos militares contra a União Soviética (a história foi escrita durante período crítico da Guerra Fria). Depois de encarar face a face uma bomba atômica (não tentem fazer isso em casa, crianças...), o Super-Paladino da Justiça vai à Gotham City com a missão de acabar com as atividades do Homem-Morcego. O que ocorre em seguida é uma das maiores batalhas que o universo dos quadrinhos já testemunhou, resultando na - aparente - morte de Batman.

"Batman - O Cavaleiro das Trevas" tomou de assalto o mundo editorial, suscitando discussões que não se restringiram aos fãs de quadrinhos. A seriedade do tratamento dado aos personagens, a composição de uma psique complexa destes e um belíssimo trabalho artístico fizeram com que o livro de Frank Miller fosse reconhecido tanto pelo público quanto pela crítica, chegando alguns a considerá-la como a maior história em quadrinhos de todos os tempos.


Se era tão bom assim, para que mexer?

Boa pergunta. Miller há muito tempo vinha prometendo uma continuação da história. Tal como na obra, os fãs se dividiram em duas facções, entre os que eram a favor e os que eram contra a continuação. Sem dar ouvidos à polêmica, Frank Miller desenvolveu sua nova história, que agora chega às bancas quinze anos depois da primeira.

Eis o enredo: passados três anos após a suposta morte de Batman, os Estados Unidos são dominados por Lex Luthor, que se vale de um ser criado digitalmente para fazer o papel de presidente da nação. A aparente tranqüilidade é apenas um engodo para sustentar o poderio de Luthor, que mantêm presos diversos heróis, além de controlar outros. Ao libertar dois desses super-heróis (Átomo e Flash), Batman passa a ser novamente um perigo para os poderosos. Mais uma vez, o Super-Homem é convocado para colocar as coisas de volta nos eixos.

O primeiro volume de "O Cavaleiro das Trevas 2" (a história é dividida em três volumes) impressiona, sobretudo, pelo trabalho da colorista Lynn Varley, que também atuou no "Dark Knight" original. Seu talento fica evidente principalmente pela qualidade do papel empregado na edição, que recebeu tratamento de luxo. O enredo e o traço de Miller continuam lá, firmes, pessoais, únicos, e o envolvimento de diversos personagens do universo da DC Comics na trama certamente irá atrair milhares de leitores. Não tem como dar errado, o que ficou comprovado nas vendagens americanas, onde a revista ficou no topo do ranking das mais vendidas do ano. Apesar do preço salgado (R$ 6,50 cada volume), faça como Frank Miller, e compre assim mesmo. Certamente você não irá se arrepender.

Marcadores:

udigrudidesign

cultura na MOOD

Para sua cabeça, cultura é combustível.
Nesta seção a MOOD entra numa viagem
onde o assunto principal é a bagagem.