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por Dominique Abayrre Valansi
RJ
Calbuque

Em 1997, ele fez a primeira festa de drum and bass do Rio de Janeiro, a Febre. Precursor, Carlos Albuquerque ou Calbuque, como é mais conhecido, é DJ e jornalista, sendo um dos responsáveis pela coluna de cultura underground (e outras coisinhas mais), Rio Fanzine, do Globo. Atualmente, o som de Calbuque rola no Les Artistes todas as sextas-feiras e também via Internet, no canal e-beat do site www.radioclick.com.br. Nesta entrevista para o Mood, Calbuque fala sobre a noite carioca, música, djs e música via Internet.

- Como você começou a tocar?
Eu comecei no Rio Reggae Club, que rolava no Rio Jazz Club em 1992, 1993. Acho que até um pouco antes. Eu tocava reggae obviamente, mas o que pra época eram coisas novas, a vanguarda do reggae. Era dance hall, ragga muffin e dub. Ninguém tocava isso, a coisa ficava sempre naquele feijão com arroz de Bob Marley, Jimmy Cliff... Foi no Rio Reggae que eu toquei, pela primeira vez, Skank. Era uma demo deles. Aí foi. Depois eu toquei na Festa Rio Soul, que era de soul misturado com reggae. Começou no Flamengo, depois cresceu, foi pra Fundição Progresso. Aí depois cresceu demais, a coisa se perdeu e eu saí fora.

- Quando você começou a tocar drum and bass?
Foi quando eu comecei a levar a sério essa coisa de DJ, de tocar vinil, mixagem, a aparelhagem toda, foi quando começou a Febre, em 1997 na Guetto. Até então eu era mais um tocador de discos.

- A Febre foi a primeira festa de drum and bass do Rio. Você sabia se ia ter público para uma festa com um estilo novo?
Eu nem sabia. A coisa bate em você e você quer espalhar para o mundo. Mais ou menos como extensão da coisa que eu faço como jornalista escrevendo de música. Você quer falar sobre uma coisa legal, você escreve, se entusiasma só que você não pode fazer as pessoas ouvirem, só pode escrever, então é limitado, o cara do outro lado não tá ouvindo.

- Você acha que a coluna Rio Fanzine "educa" as pessoas para não caírem na música massificada?
A gente não tem essa pretensão de querer educar. Fica muito de cima pra baixo. É uma coisa mais horizontal, da gente ter acesso a uma coisa e querer passar adiante. A gente rastrear um universo que a gente vive e tornar aquilo público. Dar uma voz pra uma galera que, de repente se não for a gente e páginas como a nossa, tem um submundo que nunca vai chegar à superfície. Tem uma cultura underground que precisa respirar. O Rio Fanzine na verdade é isso, é uma válvula para que o submundo respire. E é claro que existem outras pessoas, senão a coisa fica só no lançamento da grande gravadora. A entrevista de lançamento, o show de lançamento... Um saco. E não é só isso.

- Como você começou a escrever para o Globo?
Eu comecei no Globo há muito tempo. Em 1997, quando a Ana Maria Bahiana foi pra Los Angeles e a gente ficou no lugar dela. A gente, eu e o Tom Leão. As crias dela.

- Qual foi a melhor festa que você já tocou?
Cada festa é uma história. Mas uma festa que foi bem legal, com a galera em sintonia, que é a coisa mais legal, não adianta só tocar bem, tem que estar todo mundo em sintonia foi na primeira Bunker Rave. Curiosamente, o som tava horrível, a área não era muito legal, era uma quadra de futebol de salão. Mas pegou, ficou uma coisa só: eu tocando e a galera dançando. Que é o ideal mesmo, fica todo mundo junto. E tem noites na Febre que também são muito legais. Na Guetto também.

- Lugares que já tocou?
Já toquei em tanto lugar! Já toquei no Ballroom, no Rock in Rio Café e no festival, Guetto, Bunker, Les Artistes. Não tem muitos lugares que abram espaço para o som alternativo. Já toquei em São Paulo, no L.O.V.E., na primeira edição do Skol Beats em São Paulo. Foi muito legal.

- Como foi tocar no Rock in Rio?
Foi legal, mas podia ser melhor. A noite do drum and bass foi meio confusa pois foi na noite heavy metal, então não tinha um público exatamente destinado à dançar. Era essencialmente masculino, de blusa preta... Assim, nada contra. Era muito homem, e é natural que a coisa fique meio travada, não era uma noite misturada. Mas foi legal, divertido, mas podia ter sido muito melhor. Aliás, o rock in Rio podia ter sido muito melhor, eu acho que foi uma decepção.

- E qual é a melhor pista do Rio?
Eu obviamente sou suspeito para falar, mas eu acho o Les Artistes muito legal, não só na Febre como no sábado na Minimal Sessions, na noite de house, que é maravilhosa, com o pessoal da Rádio Rio Eletrônico. A Bunker têm também noites legais, se o Ziggy tiver tocando, a galera... Mal ou bem é um lugar que é uma referência no Rio. Em termos de som, pelo menos que eu tenha reparado, eu não vou a todos os lugares mais assim "convencionais", mas o som da BASE é muito bom. Mas a programação talvez não é ideal. Mas a única vez que eu estive lá eu fiquei impressionado, que o som é muito bom.

- Como você vê a noite na cidade? Você acha que a noite do Rio fica devendo a de São Paulo em opções?
Fica, fica. A comparação é inevitável, mas também não tem como a gente querer que seja a mesma coisa. São Paulo tem uma cultura e o Rio tem outra. Não é mesma coisa e não vai ser nunca. Aqui no Rio a coisa é mais pulverizada, a gente nunca vê uma coisa muito fiel. O público parece que tá pulando de galho a cada três meses. A turma mesmo que vai nas coisas legais, isso serve tanto pro rock alternativo como para a música eletrônica underground, parece que está sempre vendo as mesmas pessoas. Isso é meio triste sabendo que o Rio é uma cidade com tanta gente, com tantos jovens. Mas por aqui parece que ainda tem aquela coisa de pseudo de esperteza. E nessa o carioca fica se achando tão esperto que ele acaba não sendo tão esperto assim. E se retrai, não quer dançar, não quer fazer isso, aquilo. Eu acho muito chata essa obsessão de sair na noite pra azarar. Óbvio que qualquer pessoa quer, é natural, mas quando isso vira a finalidade da noite, é óbvio que não vai dar certo. Porque o cara pode se aborrecer porque pode não conseguir, como na maioria dos casos não consegue, se aborrece, não dança, aborrece as pessoas que estão dançando, enche o saco das meninas e as meninas não dançam, vão pra casa e não vão mais nas festas. Enfim, é um saco. E as pessoas têm que saber se divertir e se rolar alguma coisa, beleza.

- Quais são os DJS você curte?
Aqui no Rio tem uma galera de drum and bass muito boa que tá aparecendo. A galera que toca comigo, o Markinhos Mesquita e o Marcelinho Da Lua. Tem o Mário Bros. Eu adoro o Maurício Lopes. Todo mundo da Rádio Rio Eletrônico, eu acho ótimos djs além de ótimas pessoas: o Dudu Dub, o Gustavo, o Júlio. E o pessoal do B.U.M., que eu boto tapete vermelho pra eles. Pra gente que já está aqui na Zona Sul já é difícil, ainda mais pra galera do B.U.M. que faz música eletrônica na Baixada, com portas muito mais fechadas. E os caras são muito legais e ótimos, excelentes djs: o Péricles, o Jonas, toda a galera do B.U.M. é realmente de se admirar. E o Marky, que eu gosto pra caramba, está acima, não dá nem pra comparar. Ele é Jimmy Hendrix e todo mundo aqui é Eric Clapton, não tem como comparar ninguém. Marky, Patife, a galera de São Paulo é muito legal. Tem uma boa safra de djs aparecendo. Você vê que está tendo uma renovação legal.

- Você já gravou algum cd?
Eu cheguei a lançar um cd na época do Rio Reggae. Na verdade é uma compilação de músicas chamada "DJ Collection". O meu volume era dedicado ao reggae. E eu e o Tom fizemos um disco do Rio Fanzine, mas também uma compilação. Mas eu nunca fiz um disco meu como dj. Mas tudo bem. Tem gente fazendo e fazendo muito bem, então tá na boa. Se rolar, um dia eu vou fazer um cd pra deixar na festa pra vender ou pra distribuir pros amigos.

- E fora eletrônico, o que você escuta?
Escuto tanta coisa... Muita coisa de rock, de Robert Johnson a Van Morrison, The Who a Human Brothers, de Tom Waits a Santana. Eu cresci ouvindo rock, acompanhando a evolução e a decadência. Hardcore também gosto. Reggae. Na verdade, música negra sempre foi a minha paixão. Soul, blues, charm, funk, gosto muito de jazz também. Queria me aprofundar mais, mas são só 24 horas e 365 dias por ano e a minha capacidade de absorver é limitada. Eu queria ter um disco rígido maior. Queria conhecer mais música clássica, mas não dá.

- Quais são seus projetos para este ano?
Continuar tocando na Febre. Eu também tenho uma rádio na Rádio Click, que é um portal do Sistema Globo de Rádio, que é na Internet, com várias rádios. Tem duas estações de música eletrônica. Uma o Tom faz, outra eu faço, eu faço a programação, levo meus discos lá e faço jornalismo. A minha rádio é a e-beat e é toda de drum and bass. E é uma coisa que eu acho muito legal porque obviamente rádio é uma coisa que fascina muito. É aquilo que a gente tava falando no começo: você fala uma coisa no jornal, mas não consegue mostrar. E como dj você toca as coisas que você fala. E na rádio é melhor ainda que você pode tocar e falar. Esse caminho da Internet é uma coisa muito legal que eu quero estar me dedicando. E melhorar como dj.


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