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MOOD
- Como tudo começou?
Lucio K - Começou mesmo? Foi em 87, montando som no
playground e fazendo festas pros amigos... mas.. pensando
bem, acho que começou mesmo quando eu tinha uns 8 e
mexia no equipamento de som do meu pai escondido... não..
acho que foi antes... quando eu estudava no Imaculada Conceição
(RJ), com 5, e matava aula pra ir me esconder atrás
do piano duma freira que dava aulas, só pra ficar ouvindo...
;)
MOOD - Quais as suas influências?
Que som rola nas suas festas?
Lucio K - Hoje em dia, felizmente, toco somente o que eu gosto,
o que realmente me envolve, e coincidentemente é sempre
black music - do jazz "roots" ao drum'n'bass, passando
por funk (não confundir com "funk carioca"),
samba e ritmos latinos (que também têm a raiz
negra muito presente). Em ritmos eletrônicos, o que
mais gosto de agulhar é drum'n'bass, pois é
um ritmo com várias facetas, influenciado por várias
tendências musicais, como o jazz, techno, rock e o funk.
MOOD - Em que festas você
já tocou, e em quais toca atualmente?
Lucio K - Já toquei em todo tipo de lugar, todos mesmo,
desde em suburbios até em Ibiza... Festas, especificamente,
produzi uma que foi marcante na minha carreira chamada PlastiK,
que rolou em 98 (foi a pioneira em breakbeats no Rio, e a
primeira usar percussão e MC's com drum'n'bass), depois
fiquei os 8 primeiros meses da festa LOUD! como DJ residente
na pista de d'n'b e a partir daí em diversas festas,
minhas ou como convidado. No campo não-eletrônico,
faço há anos uma noite lounge-brasileira, onde
mostro as coisas mais bacanas da década de 60, que
considero a mais criativa na história da música...
Como prefiro lugares menores, minhas melhores festas atualmente
estão na Casa da Matriz (www.casadamatriz.com.br),
que há algum
tempo considero a minha casa, um lugar sem igual.
MOOD - Muito bacana esse trabalho
com músicas brasileiras dos anos 60 e 70. De onde vem
o gosto por esse período?
Lucio K - A musica dos anos 60 sempre me atraiu, nao sei explicar
exatamente porque. Talvez pela sonoridade, tão rica
e original que continua sendo redescoberta a todo momento,
inclusive pelos melhores (pra mim) produtores do mundo (como
Kruder & Dormeister, Chemical Brothers, Norman Cook...)
Quando começei a ter um contato mais profundo com a
musica brasileira dos 60, garimpando discos com capas engraçadas
em sebos e com amigos que a apreciavam, começei a descobrir
que além da sonoridade mais rica e menos preocupada
com vendagens como é hoje em dia, encontrava varias
pérolas - obscuras até para a própria
época, as vezes - que estavam fadadas a serem totalmente
esquecidas pelo tempo. "Alguem tem que divulgar essas
coisas, tocar, mostrar que essa cultura veio antes e faz parte
de tudo que está hoje aí", pensei,
e resolvi incluir cada vez mais no repertório das minhas
noites lounge, apesar de o interesse do publico brasileiro
não ser tão grande como o do resto do mundo,
como percebi mais tarde. A musica brasileira dos 60 e 70 é
muito cultuada na europa, por exemplo, varios gringos tocam
musica brasileira pelo mundo, e por isso estou decidido a,
a partir desse ano, fazer pelo menos uma
turnê por ano divulgando ela, não é justo
que só gringos a prestigiem e toquem nossas coisas.
MOOD - Até hoje, em que
lugar houve uma melhor sintonia entre público + seu
som + local?
Lucio K - Sempre há quando é um publico que
não quer coisas óbvias, formulaicas. E quando
o pessoal quer se largar, se divertir, sem poses, sem pudores.
Sempre que há gente de teatro, são noites memoráveis,
não sei bem por que. Houve duas que me lembro agora,
uma que as pessoas estavam tão eufóricas que
de repente a maioria das pessoas na pista simplesmente tirou
a camisa (principalmente as mulheres!), o clima foi de euforia
total... Outra no teatro Carlos Gomes, o que era pra ser um
som ambiente de um coquetel, se transformou em pessoas enlouquecidas,
dançando extasiadas. Quem curtiu delirou e quem assistiu
ficou boquiaberto.. O publico era uma mistura de pessoal de
teatro, de dança, publico gls e um pessoal largadão,
meio neo-hippie (na falta de um rótulo mais justo),
acho que essa mistura deve ser a perfeita pra ouvir meu som,
não sei... ;)
Com o drum'n'bass, há momentos em raves que são
memoráveis, quando a cada musica vc sente o publico
pular e delirar, aquela massa enorme de gente vibrando ao
mesmo tempo, principalmente quando você vê que
proporcionou aquilo, que com os outros dj's nao foi exatamente
daquela forma, é maravilhoso.
MOOD - Sabemos como é
difícil viver de música no Brasil sem participar
da roda gigante da indústria. Nesse sentido, como é
ganhar a vida como DJ, produtor e compositor independente?
Dá para viver numa boa no Brasil fazendo o que você
faz? Tocar na gringa vale mais a pena pela grana?
Lucio K - No Brasil, ser um dj de verdade - ou seja, tendo
como prioridade levar musica nova, e/ou original e/ou de valor
ao publico e não priorizando ganhar dinheiro com modismos
e com o que é facilmente consumivel - não sustenta
ninguem, por melhor que o dj seja. Isso porque não
faz parte da nossa cultura buscar/consumir música através
do dj. As pessoas tão acostumadas com o tocador de
cd's, ou seja, aquele que não tem estilo próprio,
não se especializa em uma linha de trabalho, fica a
mercê do modismo, a unica prioridade é divertir.
Nada contra, é um bonito trabalho divertir pessoas,
mas são coisas diferentes. O dj completo, na minha
concepção, vai bem além disso. Mas varios
dj que querem ter seu estilo estão batalhando pra que
essa cultura - de escolher o dj pelo seu estilo - cresça
por aqui, espero que isso continue crescendo.
No exterior ser dj é realmente uma profissão,
pode-se viver disso
normalmente. Quando trabalhei na europa cheguei a ganhar cerca
80 dólares por dia, tocando todo dia. As pessoas sabem
que o dj é o especialista em musica e realmente dão
crédito, respeitam seu estilo e o lado artístico
do seu trabalho.
Quanto à produção, acabei de terminar
um cd com uma proposta bem fora do convencional, só
de recortes sonoros, samples. Gostaria de lançar aqui
no Brasil, mas como as gravadoras grandes não se interessam
por projetos experimentais e as pequenas estão em crise,
acho que minha única saida é fechar com algum
"label" gringo... E por aí vai, os produtores
procuram onde seu trabalho pode ser consumido, e a internet
é uma ótima ferramenta para isso.
MOOD - Quais
são as suas principais fontes de pesquisa para encontrar
raridades ou artistas esquecidos da música brasileira
dos anos 60 e 70?
Você usa a internet de alguma maneira nessa pesquisa,
seja buscando informações ou baixando músicas
em MP3? Como era fazer essa pesquisa antes das facilidades
que a rede trouxe?
A fonte prioritária sempre foi a dos sebos, onde vc
realmente encontra coisas esquecidas no tempo e que nunca
serão encontradas em cd, menos ainda em mp3.
Troco muitas coisas com colecionadores também. Também
tenho um contato em SP que sempre tá pesquisando e
passando raridades pra mim. Aí seleciono o que é
dançavel, o que cabe na minha sequência.
A internet é muito útil pra encontrar aficcionados
por música brasileira pelo mundo, as vezes gente que
paga centenas de dolares por um vinil. Uma vez me correspondi
com um grego (ainda lembro o nome dele: Stravos Zanos), trocamos
cd's, e por incrível que pareça, ele me mandou
coisas brasileiras que eu não tinha! Em foruns de discussão
e listas de discussão virtuais tb encontro sugestões,
set lists, vejo o que o pessoal lá fora gosta mais
etc. Nisso que a net é mais útil.
MOOD - Como pesquisador de música
retrô e tambem de estilos tão atuais como o drum'n'bass,
como você vê a caminhada da música ao longo
das últimas décadas do século passado
e do início desse século? A música evolui
esteticamente e tecnicamente falando? Ela é cíclica?
Ou é um organismo vivo e mutante que assume / incorpora
/ transforma formas e conteúdos aleatoriamente?
Lucio K - Vejo a história da música como uma
grande árvore: Começa em um tronco e daí
vai pra 2, 4, 6 grandes galhos, e a tendência é
se dividir em cada vez mais ramificações. Nasce
um estilo e logo surgem duas ou mais tendências que
os diferencia, aí naturalmente (ou não) surgem
novos rótulos e por aí vai. Há a revolução
tecnológica que influencia em toda a musica pop, como
foi nos 80 quando surgiram as baterias eletrônicas a
preços populares e nesses últimos anos, onde
está tão fácil fazer musica com o auxílio
do micro caseiro. Mas acho que coisas criativas e realmente
inovadoras são raras, o que mais se vê são
reciclagens musicais, e as vezes um novo ritmo aparecendo
que é um híbrido de dois já conhecidos.
Mas uma coisa é clara, a novidade sempre vem das margens,
do alternativo. O mundo pop se "alimenta" dessas
novidades "marginais", e muitas vezes transforma
numa fórmula e a esgota. E volta pra buscar mais alimento
nas novas tendências.
MOOD - Na sua opinião,
quem ou que grupos no Brasil de 2003 fazem a música
mais original, contemporânea, criativa e inteligente
do país?
Lucio K - Ah, muitos, cada um tem sua "inteligência"..;)
A originalidade do Cordel do Fogo Encantado, a esperta fusão
do regional X mundial do DJ Dolores, A competência pop
do Ultramen, as raízes da mpb reformuladas no Los Hermanos,
a competência de timbres do Xerxes de Oliveira... Mas
infelizmente o que mais se vê é música
previsível, desatualizada, descartável. Há
quase 2 anos ouvi pela primeira vez um grupo chamado Zuco
103, e pensei: uma
brasileira vai à Holanda, compõe tudo em português
e chama dois produtores gringos que incorporam com maestria
o feeling brasileiro com elementos da musica eletrônica
e tendências retrô... isso é o futuro da
musica, isso é genial, fusão de coisas sem preconceitos,
tendencionismos... (Há poucos meses eles lançaram
o segundo disco ainda mais surpreendente nesse sentido, chamado
"Tales of
high fever".) Quero ver cada vez mais esse "futuro"
aqui no Brasil, como via quando surgiu o CSNZ, por exemplo...
E como produtor musical, vou trabalhar nesta direção...
MOOD - Quais caminhos você
indicaria para quem está começando a produzir
sons e a tocar na noite poder tirar um sustento?
Começe nisso como um trabalho paralelo a um sustento
principal, porque não tem como tirar um sustento a
partir disto a curto prazo, mas leve a sério, a força
motriz deve ser a vontade de espalhar o amor à música.
E como música é arte e cultura, não priorize
dinheiro ou reconhecimento. Para ser dj, recomendo ir eliminando
qualquer preconceito musical, mesmo quando vai se trabalhar
só com uma linha musical. E para ser produtor, recomendo
dedicação, ser produtor é 10% inspiração
e 90% transpiração.. ;)
MOOD - Uma mensagem final:
Lucio K - Música é uma viagem sensorial, que
deve ser guiada e exercitada por nós mesmos. Precisa
ser sentida com atenção, portanto é algo
extremamente pessoal, portanto não se pode afirmar
o que é ruim e o que é bom, cada um tem o seu
gosto, a sua onda. Acredito na música como uma ferramenta
pra melhorar a qualidade de vida, acho que o mundo seria melhor
se as pessoas
consumissem mais música, procurassem ouvir diferentes
estilos musicais - e diferentes dj's - e consequentemente
selecionassem melhor o que mais lhes agradasse.
site Lucio K (currículo, agenda, contato) - www.luciok.cjb.net
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