A
Avenida Atlântica, na zona sul do Rio de Janeiro,
é um dos pontos mais concorridos de prostituição
da cidade. O turismo sexual carioca se concentra basicamente
ao longo da bela avenida com vista para o mar. Ou seja,
lugar ideal para procurar as personagens da minha matéria:
travestis. Pelo preconceito da sociedade que gera escassez
de oportunidades, muitas "meninas" acabam
trabalhando nas ruas e o transexualismo acaba sendo
ligado à prostituição.
Numa quarta-feira, por volta de três da manhã
eu saí para procurar minha entrevistada e acabei
conhecendo Keith e Perla. A dupla, uma morena e uma
loira super produzidas, chamava a atenção
da maioria dos carros que passavam.
Elas me contaram suas histórias enquanto esperavam
os clientes. Muita gente parou falando gracinhas ou
tentando pechinchar o programa, que sai a partir de
R$50,00. As fotos da matéria, infelizmente tiveram
que ser feitas à distância porque as duas
não podem ser reconhecidas pela família
que acessa muito a Internet.
O que mais me atraiu para fazer esta matéria
além da curiosidade, foi a questão da
coragem dos travestis. Tem que ser muito "macho",
ter muita personalidade, para assumir o desejo de ser
de outro sexo em nossa sociedade conservadora. E elas
estão firmes e fortes lidando com o preconceito
e exclusão. Então estão aí,
especialmente para o leitor de Mood, duas maravilhosas
figuras da noite carioca: Keith e Perla.
Keith é uma morena de parar o trânsito.
Super simpática, sorridente e falante, ela segue
um estilo jovem com roupas cheias de purpurina e calça
justa à la Madonna em Music. Seu nome vem de
Keith Richards dos Rollings Stones, a quem seu pai homenageou
. Aos 25 anos ela ganha a vida na Avenida Atlântica
depois que a empresa em que trabalhava faliu. Com muito
bom humor, ela espera ter oportunidades de mudar de
profissão. Apesar do sucesso que faz com os gringos,
Keith conta que gosta mesmo é do homem brasileiro.
Mood - Como
surgiu isso de ser travesti em você?
Keith - Travesti eu sou há uns 3 anos. Gay eu
já sou desde de o bercinho, desde que eu me entendo
por gente.
Mood - Como a sua família viu,
primeiro seu homossexualismo e depois o fato de você
ter virado travesti?
Keith - Tirando minha mãe, da família
todo mundo parou de falar comigo. Hoje levam numa boa.
Mood - Como
você passou a ter interesse de usar roupas de
mulher?
Keith - Isso eu sempre tive. Quando eu era criança
eu colocava roupa da minha mãe mas era escondido.
Com todo mundo acontece isso. Mas a primeira vez mesmo
foi com 17 anos. Eu tinha um namorado e ele falou: "vestido
de garoto você não vai comigo". Aí
eu peguei umas roupas com as minhas primas, fui e adorei.
Aí foi gradual, não foi de uma vez. Aí
eu comecei a diminuir o comprimento do short, depois
cortando as blusas e fazendo baby look. E foi até
chegar nisso.
Mood - Você
já colocou silicone?
Keith - Ainda não, só tomo hormônios.
Eu pretendo mas tenho um pouco de medo. Tem uma amiga
minha que está na Itália que aconteceu
de um silicone atravessar de um peito para o outro.
Deu um problema sério.
Mood - Como
você veio trabalhar aqui na Atlântica?
Keith - Eu falo pra você, eu não me prostituía
antes. Eu estou na prostituição há
cerca de uns oito meses, desde que eu saí do
emprego que eu tinha antes. Eu trabalhava em uma confecção.
Mas a confecção faliu, eu me vi cheia
de dívidas, não tinha oportunidade alguma
e caí aqui.
Mood - Você
acha que a imagem do travesti é ligada à
prostituição?
Keith - Normalmente a imagem que ligam ao travesti é
essa: travesti - prostituição, travesti
- escândalo.
Perla - A sociedade não dá oportunidade
para a gente. Você não vê um travesti
trabalhando numa loja. O único lugar que você
vê um travesti ou um transexual trabalhando é
num salão, ou algo ligado à estética.
Mood - Se você
arrumasse um outro emprego você ia largar as ruas?
Keith - Tranqüilamente, sem problemas. A margem
de lucros com certeza ia ser bem menor mas seria bem
melhor. Principalmente para a minha consciência
porque meus pais não sabem que eu faço
isso. Eu falo para a minha mãe que venho para
Copacabana e tomo conta de uma casa. Minha mãe
sabe, mas meu pai não. Ele era policial militar
e é um pouco rígido com essas coisas.
Mood - Qual
é o público que você costuma a atender?
Keith - Eu particularmente costumo a sair mais com estrangeiro
por causa da minha cor de pele. Se eu fiz dois programas
com brasileiros foi muito. Alguns vêm pra cá
procurando travestis e outros confundem com mulher.
Mood - Você
conhece muitos casos de travestis que casaram com estrangeiros?
Keith - Já. Uma amiga minha está casada
com um suíço e morando lá.
Mood - Você
se casaria com um gringo?
Keith - Honestamente não é o meu biótipo
preferido mas é o que aparece e eu acabo me conformando.
O que me agrada é o bolso deles.
Eles preferem as loiras
Apesar da minha insistência,
Perla não me disse o seu nome original: "Eu
não falo. Não uso, já até
esqueci meu outro nome", conta. E a moça
tem estilo. Segue a linha mais clássica, com
roupas mais para "patricinha", cheia de colares,
pulseiras e anéis dourados, combinando com seu
cabelão loiro. Aos 23 anos, ela está fazendo
tratamento para fazer a operação de mudança
de sexo e diz que operada, vai se realizar como mulher.
Mood - Quando
você começou a se transformar na Perla?
Perla - Aos 15 anos eu comecei a me transformar na Perla.
Eu sempre fui feminina desde pequena. Quando começa
a fase da puberdade, aquela coisa dos hormônios,
a gente vê no que a gente vai se firmar. Além
de querer ir para o lado feminino, eu comecei a tomar
os hormônios e fui ficando cada vez mais feminina.
Mood - Você
só trabalha aqui?
Perla - Agora só. Antes eu trabalhava em um salão
só que a renda estava muito baixa, não
estava dando para pagar as minhas dívidas.
Mood - Você
já sofreu preconceito?
Perla - Já. Sempre teve mas isso aí eu
tiro de letra. Você vai ao shopping, no restaurante,
você tem que saber se impor dependendo do que
você seja. Eu sempre soube entrar e sair dos lugares,
porque eu sempre soube o meu lugar.
Mood - Como
é a sua relação com sua família?
Perla - Antigamente, quando eu comecei com essa história
de tomar hormônios, houve preconceito porque meu
pai é militar, então foi aquela coisa.
Já houve muita repressão. Mas depois de
um tempo eles vêem que não jeito mesmo,
é uma coisa da gente mesmo, da natureza. O amor
vem acima, é filha. No final acaba tudo bem.
Mood - E você
atende a que tipo de cliente?
Perla - A maioria dos meus clientes são brasileiros.
De vez em quando eu saio com americanos. Eu saio muito
com advogados, engenheiros, pessoas assim da alta. E
às vezes, a pessoa se sente muito sozinha e sai
pela noite rodando. E querem conversar. Chegam "Olha,
eu nunca saí com boneca. Mas eu quero te conhecer.
Qual é o seu nome?", e começam a
fazer várias perguntas, querem saber de tudo
da sua vida.
Mood - Se você
pudesse escolher, você teria nascido mulher?
Perla - Com certeza. Inclusive eu vou operar a daqui
a um ano e meio. Já estou me tratando há
oito meses na UFRJ e se tudo correr bem, por volta de
2003 vou realizar minha cirurgia. A Keith também
está querendo fazer a cirurgia. Então
é correr atrás, coragem e persistência.
Coragem eu tenho. A questão é que eu não
me enquadro como travesti, eu me vejo como transexual.
A travesti é um homem que se veste de mulher,
é só as vestes. Até mesmo a travesti
pode ser feminina mas ter a cabeça de homem.
Você vê muitas vezes uma travesti superfeminina
falando: "Eu só vou ser ativa, não
vou ser passiva". Então, a maioria dos caras
que passa por aqui querem até sair com a gente
mas a gente vai ser ativa, que vamos querer come-los.
Mas tem muita travesti passiva. As travestis que são
ativas geralmente não querem operar senão
terão graves problemas de cabeça. O transexual
tem a cabeça, uma criação feminina.
Mood - Qual
é o seu grande sonho?
Perla - As pessoas falam que eu quero operar pra se
casar com um homem rico. Mas eu não quero. Se
um homem gostar de mim, ele vai gostar do jeito que
eu sou. Eu não sou operada, mas eu tenho uma
cabeça de operada. E por eu ser assim, eu sofro
preconceito do meu próprio meio. Eu quero me
operar para me realizar como mulher e não para
satisfazer homem algum.
|