No Rio de Janeiro se, em matéria de música, você não é um ávido consumidor de CDs de pagode, axé, música sertaneja, trilhas de novelas, acústicos do Roberto Carlos (aliás, desse monte de acústicos em geral), coletâneas e discos ao vivo caça-níqueis, então você tem um problema. E não estou falando de convivência social, nem das “diferenças” que fazem de você uma seleta minoria, muitas vezes taxada de alternativo, underground, moderninho (só para citar os rótulos que não ofendem tanto). Estou falando de um problema que realmente dói. Dói no bolso.

Tudo bem, tem a Internet, tem o MP3, tem a revolta com esse mercado fonográfico imbecil que está aí… tem tudo isso. Existem inúmeros motivos para que você deixe de gastar o seu dinheiro com CDs. Mas tem também a paixão de ter o álbum bonitinho, com encarte original, de achar aquela preciosidade que você procurava há tempos… tem isso também. Mas é aí que a gente se ferra. Sermos obrigados a pagar, em média, de 20 a 40 reais por um disco, só porque não iremos encontrá-lo em nenhum outro lugar já é demais. Aí já é tirar proveito de um sentimento puro que é a paixão pela música.

O melhor negócio é pesquisar. Tem que garimpar muito. Buscar os melhores preços. É movido por um certo sentimento de peregrinação que, a começar por esta, farei uma série de matérias sobre os melhores lugares do Rio para comprar CDs (e vinis). O caminho das pedras dos melhores preços e dos álbuns difíceis de achar. Se o lado A é feito pelas megastores, seja bem-vindo ao lado B.

OUTSIDE CDs

Você só acredita vendo. Ou melhor, ouvindo.

Muita gente por aí fala em levar uma vida alternativa. Bem, se tem alguém que, de um certo modo, sabe direitinho o que é isso é um carinha chamado Eduardo Pletch. Além de, praticamente, “tirar seu sustento” da sua loja de discos e afins – a Outside CDs -, ainda arruma tempo (e disposição) para tocar; empresariar e promover duas bandas (a Sensorial Estéreo, sua principal, já é figurinha carimbada no circuito indie); estar em tudo que é show e festa; escrever sobre discos e bandas; produzir os disputados shows acústicos que rolam na própria loja, aos sábados à tarde; e, ainda por cima, conseguir chegar aos consumidores que não vão à loja: ele faz como Maomé e vai até eles, adotando o esquema “camelô do underground”, levando a sua “barraquinha” de CDs para tudo que é evento alternativo. Conversei com esse ilustre empreendedor e descobri que, por mais ele seja meu amigo de muito tempo, ainda consegue me surpreender com as histórias de sua loja – o lugar onde já encontrei CDs sendo vendidos até mesmo por 50 centavos. Dê uma olhada:

Quais são as vantagens, para quem procura por discos, da sua loja em relação às megastores?

Na Outside, e em qualquer outra loja pequena, a pessoa tem mais facilidade pra achar os CDs que não vai encontar de jeito nenhum nas grandes lojas, por exemplo, discos de bandas independentes.

O mesmo para CDs de artistas que não tocam nas rádios, que têm um público pequeno, porém bom pra uma pequena loja como a minha. Esse público, de meia dúzia que seja, para as grandes lojas é nada. Mas pra mim é tudo. São fãs de Dead Fish, Zumbi Do Mato, Autoramas, Skylab, My Bloody Valentine, Gorky’s Zigotic Mynci, Le Tigre, Sonic Youth, mil bandas! O consumidor sabe que numa lojinha assim digamos, segmentada, especializada, sei lá… ele vai ser bem atendido, fala direto com o dono, vira amigo até e vai achar o CD que ele quer.

E a vantagem não é só encontrar o CD difícil-de-achar, mas também de conhecer outras pessoas que freqüentam a loja, trocar idéias, saber de shows, festas alternativas etc. Sem contar que o processo de compra/venda é contínuo: o cara que entra aqui e compra um CD do Frank Jorge, volta volta e pega um do Ack, por exemplo. Eu vi que segmentar o negócio dá retorno. E meu público quer isso mesmo, que na loja tenham esses CDs que ele não acha numa megastore.

Como você descreveria os freqüentadores da sua lojas?

Visualmente? Cara, se a minha mãe viesse aqui, iria achar todos um bando de malucos. Os caras que vêm à loja são viciados em música. Chega a ser algo exagerado. Um fã de tal banda e se veste como “O” fã dessa banda: anda largado, espeta alfinete na calça, rabisca na mochila tudo quanto é nome, esculacha o cabelo… Mas fora isso, são pessoas muito ligadas em música mesmo, algo acima da média. Resumindo, poderíamos dividir meu clientes nas seguintes categorias:

a. Os que só ouvem aquele rock mais batido: só falam coisas de música, ainda são adolescentes e gastam a mesada em CDs.

b. Os “antenados”: são os que já leram algo sobre os White Stripes na revista, os que já ouviram falar do Mogwai, os que baixaram na net uma do Alien Ant Farm… os que, por curiosidade, correm atrás mesmo. Seus assuntos preferidos são música e cultura em geral. Estes já não são mais adolescentes e freqüentam os mesmos lugares, festas e shows alternativos. São estes que, aliás, compram os CDs que eu mais gosto de vender.

c. Gente que toca algum instrumento: o povo daquela banda a qual ainda vamos ouvir falar por aí num Garage da vida. Estes ficam num meio termo, ainda têm na memória resquícios da época de grunge, de metal ou de punk melódico, mas querem mesmo saber o que é esse tal de Belle & Sebastian. Esses não compram nada, vêm aqui mesmo é pra ficar de bate papo, o dinheiro deles vai todo pra pagar ensaios em estúdios e coisas de instrumentos musicais.

Quais os diferenciais específicos da sua loja?

Aqui na Outside eu consigo ter uma variedade boa de CDs porque também trabalho com usados. Por isso o preço fica em conta. Sempre tem uma menina ou um menino para trocar ou vender um CD importado que não ouve mais. Daí eu vendo a mais ou menos R$16,00, o que tá bem em conta. O preço baixo pra mim é o que diferencia. E isso corre de boca em boca. Especializar a loja num só estilo de música é que não dá. Não dá pra ser tão radical assim. Mas de um modo geral, a Outside é especializada em música alternativa em geral. É o metal alternativo, o rock alternativo, música eletrônica etc.

Cite algumas das “preciosidades” que um cliente poderia encontrar agora em sua loja.

Fora os bootlegs que aparecem, nessa semana eu peguei um boxe do REM. O cara que me passou tinha comprado numa viagem aos EUA. Vem numa caixa de papelão, formato luxo, muito bonito, por R$ 30,00 e um single do Cocteau – o Otherness – a R$ 8,00, tudo usado, mas bonitinho. O Unzipped EP do Pizzicato Five a R$12,00. O #1 Chicken do Red Aunts (riot girrrrls) a R$16,00. Um boxe de 3 CDs do Magnetic Fields, europeu, a R$58,00 (o preço de catálogo fica por mais do dobro nas lojas de importados). São coisas que tem um ou no máximo dois compradores. Mas é bom ter uma coisa que não tem por aí, né? E não é por isso que eu vou botar o preço lá no alto. Acabei de vender o Downward Spiral e o March Of Pigs (um CD single duplo) do NIN a R$40,00 os dois.

Alguma história engraçada…

Um cara outro dia quis encomendar um importado do Brian Wilson dos Beach Boys e acabou pedindo um tal de Bryan Wilson, com “y”. O sujeito ficou fulo da vida pela burrada que fez e deixou aqui pra vender pra ele. Eu falei que aquilo nunca ia vender, nem dando de graça. A começar pela capa, um menino que parecia coroinha de igreja. A música era um R&B chinfrim dos anos 60. Mas veio outra figurinha… um cara que ficou alucinado pelo CD e o comprou. Esse, aliás, coleciona tudo o que for de ruim e encalhe. Ele me desencalhou os Míopes, os dois Virgulóides… Tem um outro que só vem aqui pra comprar rock nacional. ”É nacional?” é o bordão dele. São várias figurinhas. Dá pra formar um time de futebol. Tem um que é maluco mesmo. Ele só ouve rock inglês e tal. No dia que ele viu um CD do Voluntários Da Pátria, cara, ele pegou o CD e ficou falando o quanto a banda era tudo pra ele, aí ele começou a chorar! Tem um outro que sempre que ouve música boa tocando aqui ele já pergunta confirmando se a banda é inglesa. “São ingleses, né?” é o bordão dele. Cada um com sua mania, com seus bordões. Eu me sinto como no banco da Praça É Nossa! Ganho pouco mas me divirto.