Busco nos últimos tempos o máximo de parcimônia possível para quando quero me proclamar sobre política. Não está nada fácil dialogar no atual cenário e cada vez mais um trecho do livro “Segredos à direita e à esquerda na Ditadura Militar”, de José Mitchell, me vem à cabeça: “Os dois lados (direita e esquerda durante a Ditadura Militar) sufocaram a democracia em nome da mesma democracia pela qual diziam lutar. Pior de tudo: os dois lados efetivamente acreditavam no que faziam, a demonstrar que as ideologias amoldam e amaldiçoam o comportamento humano e podem cegar os espíritos mais esclarecidos”.

Trazer esse pensamento para nossa conjuntura é essencial para entendermos os malefícios da polarização política, econômica e social. Desafio você a encontrar formas de convergência quando as crenças partidárias e/ou religiosas são colocadas à prova, por exemplo. São chamados de antolhos o acessório que se coloca na cabeça de um animal de montaria ou carga para limitar sua visão e forçá-lo a olhar apenas para a frente, em uma única direção. Assim caminham os mais fervorosos defensores de uma determinada posição, que além de uma visão limitada parecem também não ouvir aquilo que não lhes convém.

Os intolerantes sociais não conseguem se autoidentificar, apenas os outros. Isso talvez até não seja culpa deles, pois todos nós somos um pouco egoístas e moralistas diante d’outro. Apontar falhas é rotineiramente mais fácil do que as admitir, um clichê mais verdadeiro do que nunca. Fico chocado com o nível de injustiça que diariamente assistimos no Brasil; políticos e mais políticos, coitados, precisam se declarar inocentes de seus atos, os quais negam até mesmo terem cometido. Santas almas gloriosas que abençoam nossa nação com sua pureza celestial. Não há sequer um político corrupto para justificar tamanha descrença de nossa parte e chamarmos de nosso.

(Pausa dramática para assimilar a ironia)

Nossa então presidente em exercício, Dilma Rousseff (PT), ao se defender de acusações sobre ela, disse: “Posso ter cometido erros, mas sou inocente”. Fazendo uma analogia, ela poderia ter dito: “Atropelei uma pessoa, mas não tinha a intenção de matar”. Criminalmente podemos concordar que não houve o dolo, mas a culpa, senhoras e senhores, essa é inegável. Ainda assim, mascaram em seus discursos os fatos em si e fogem da responsabilidade. Com dados referentes apenas aos repasses da Caixa Econômica Federal, as pedaladas fiscais de Dilma foram 35 vezes superiores ao saldo de FHC e Lula, juntos. Ela, enquanto economista, deveria saber que não há inocência em compactuar com isso.

Ainda assim, sou contrário ao processo de impeachment em andamento, sem fazer nenhum julgamento de méritos do processo legal, algo que divide até mesmo os juristas mais experientes. Mas os aspectos morais, sociais e de competência política envolvidos não me deixam dúvidas de que nada está certo. A condução dos trâmites é absolutamente imoral e desqualificada se levarmos em conta os agentes diretamente envolvidos. O principal opositor, Aécio Neves (PSDB), é a figurinha mais tarimbada nos autos da Lava Jato. Eduardo Cunha (PMDB) samba na cara da sociedade e se configura como o maior “poker face” da história recente. Suas contas fora do país e suas manobras internas já são conhecidas e copiadas pelos mais ardilosos falcatruas da praça. Já Michel Temer (PMDB) merece um capítulo à parte.

Temer goza da soberba. Destila confiança por onde passa e dança conforme a música. Na verdade, Temer é a personificação clássica do PMDB moderno, um dinossauro que sobreviveu ao apocalipse se adaptando às novas necessidades do ambiente. Logo após ele ser alçado interinamente à presidência do Brasil, li a seguinte manchete autoexplicativa: “PMDB assume presidência pela terceira vez sem ganhar eleição”. Pois vejam só, o retrato daqueles que durante anos atuaram nas sombras enquanto outros se digladiavam por aí. Não faz muito que escrevi sobre isso no texto “Quem é que manda no Brasil e você nem sabe”.

Vejam, meus amigos, que não é difícil separar alhos de bugalhos quando apenas os fatos são importantes, quando não há interesses ideológicos. E para deixar explícita minha opinião, afirmo o seguinte: ideologias são limitadoras, ideologias cegam, ideologias nos tornam prisioneiros em nós mesmos. Parte da descrição dessa palavra encontrada em dicionário a descreve como um “sistema que considera a sensação como fonte única dos nossos conhecimentos e único princípio das nossas faculdades”. Isso significaria que eu não posso ser contra o governo Dilma e ao mesmo tempo contra o impeachment da mesma. Que se eu apoio uma ideia eu automaticamente desprezo a outra. Não há confluência, nunca.

Sejamos mais radicais ainda. Comunismo versus capitalismo liberal. Duas das vertentes mais vigorosas e antagônicas da história, ambas, se levadas ao pé da letra, com potencial destrutivo. Ao final de uma das versões do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, consta a seguinte declaração: “Os comunistas se recusam a dissimular suas opiniões e seus projetos. Proclamam abertamente que seus objetivos não podem ser alcançados senão pela derrubada violenta de toda a ordem social passada. Que as classes dominantes temam diante de uma revolução!”. É provável que dentro do contexto em que foi escrito o Manifesto não seja assim tão apavorante. Mas são raízes sólidas de uma linha de pensamento que até hoje incendeia as mentes mais perturbadas.

Já no liberalismo, que tem em Adam Smith o seu maior expoente, a famosa “mão invisível” que guiaria o mercado representaria vantagens para todos. Mas isso, comprovado pela história, é falso. A livre concorrência não é justa entre desiguais. Nem todo rico é assim por que trabalhou mais e nem todo o pobre o é por que foi preguiçoso. Gosto de pensar que, enquanto o comunismo é pobre em políticas econômicas viáveis, o capitalismo liberal é pobre em políticas sociais que ofereçam um real bem-estar social. O comunismo coloca a culpa exclusivamente no sistema, enquanto o liberalismo culpa unicamente o indivíduo. No fim das contas, nem um nem outro consegue se libertar das suas próprias amarras.

Não concordar com nenhum deles não significa ficar em cima do muro, mas sim entender onde estão os erros e acertos em cada lado e moldar um sistema com base no diálogo, na aceitação de ideias complementares. Tenho amigos e conhecidos assumidamente liberais ou apenas de direita que não entendem como eu posso ser favorável a determinadas políticas de distribuição de renda por parte do Estado, pois consideram isso pura “esmola”. Na outra ponta, comunistas assumidos e pessoas de esquerda com as quais convivo me jogam para a direita simplesmente por eu não concordar que a culpa é apenas do sistema capitalista. Agora, dito isso, encerro aqui apenas com um pedido: critique com educação, por favor. Comunistas, capitalistas liberais, de direita ou de esquerda, ainda somos considerados uma sociedade democrática, apesar dos pesares.