|
De
comer, todo mundo gosta. Alguns vão mais além:
aventuram-se nos meandros da cozinha, aprendem a fazer
um macarrão que não precise ser cortado
com a faca e são os primeiros a dizer “Deixa
que eu cozinho!” quando a turma resolve fazer
um jantar. Não raro, foram crianças fascinadas
pela alquimia dos ingredientes, magicamente misturados
para transformar-se naquele manjar branco, na torta
de chocolate, dos sequilhos de polvilho dos pais ou
dos avós.
Anthony Bourdain não tem nada a ver com essa
história. Era um moleque enjoado cujo aventura
culinária máxima consistia em descobrir
quantos litros de catchup conseguia colocar num prato.
Seus “momentos mágicos” foram dois:
o primeiro, ao provar uma vichyssoise, a tradicional
sopa francesa servida fria; o segundo, quando comeu
ostras recém saídas do mar, a bordo de
um barco de pescador. Essas duas experiências
mostraram ao pequeno Tony que a comida podia ser instigante,
interessante, diferente.
De qualquer forma, isso foi apenas um pensamento passageiro
na sua mente. Aos dezoito anos, perdido, mimado, sem
vontade de nada nem perspectivas, foi atraído
pelos amigos para Provincetown, cidade portuária
dos Estados Unidos, para passar o verão. Arranjou
um emprego como lavador de pratos num restaurante decadente.
E lá acabou descobrindo, pela primeira vez, que
desejava tornar-se chef de cozinha. O que ele viu? Ex-presidiários,
roubo de comida, toneladas de drogas e sexo fácil.
Cozinha Confidencial (Companhia das Letras, 376 páginas),
autobiografia de Anthony Bourdain, é cortantemente
sincero. O chef executivo da brasserie Les Halles (www.leshalles.net)
mostra-se também escritor de prosa fácil
e bem articulada, neste seu quarto livro – o primeiro
de não-ficção. Lançado em
2000, chegou aqui no final do ano passado e permanece
meio perdido nas prateleiras das livrarias – ora
na seção de gastronomia, ora nas biografias,
ora em não-ficção. E se houvesse
uma categoria chamada “denúncia”,
também estaria lá. Porque se algo de podre
pode acontecer na parte de trás de um restaurante,
Bourdain descreveu no volume. Não com um tom
de reprimenda, nem com ares de moralista: o chef-escritor
simplesmente conta o que viveu – e vive até
hoje – sem temer represálias. Sem pompas
de justiceiro ou vergonha de dedo-duro, mas com a mesma
crueza com que os fatos descortinaram-se para ele. Talvez
distante da realidade dos restaurantes brasileiros (Bourdain
não imaginava que o livro fosse mais longe do
que a Filadélfia). Ou não. Eu não
saberia afirmar. Mas dê-lhe sua justa contextualização
e aproveite a leitura.
Ao contrário do que pode parecer, o livro não
é uma ode hippie – muito menos jornalismo
investigativo. Bourdain descobriu que sabe contar histórias,
e é o que faz ao longo das páginas de
Cozinha Confidencial. Levando a contracultura a seus
ápices e politicamente incorreto até o
último fio de cabelo, o autor destrincha o mundo
da culinária profissional – sempre com
afirmativas peremptórias e coberto de verdades
absolutas, mas lembrando o tempo todo: eu posso estar
errado, e eu devo estar errado. Entre um baseado e uma
aspirina, Bourdain leva o leitor para a cozinha e explica
como ela funciona, como tornar-se um chef, por que não
abrir um restaurante, por que não comer peixe
às segundas-feiras, por que não pedir
seu filé bem passado, por que um brunch é
uma péssima escolha, por que devemos sair para
jantar à terças-feiras. E, o tempo todo,
mostra por que a culinária é uma arte
tão fantástica e fascinante.
|