Quero deflagrar o ódio da esquerda reacionária, incitar a raiva da direita golpista e calar a boca de petistas populistas, que neste momento não sabem para qual lado balançam. Se você não se sentiu “ofendido” já nesse trecho, estamos de boa. Aos outros, desculpem pelos adjetivos, não sou favorável a estereótipos e generalizações, mas é preciso chamar atenção. Hoje estamos divididos, de lados opostos, uns contra os outros e, sob o ponto de vista de todos, favoráveis ao Mundo. Será mesmo? Nessa lógica alguém está errado e o outro está certo. O maior prazer é meter o dedo na ferida de cada um e evocar o quanto o “meu” lado é mais justo, íntegro e cheio de conquistas no presente, no passado e, óbvio, no futuro. Uma guerra infernal de partidos, pontos de vista, opiniões e ideologias.

Quando falo disso, gosto sempre de citar a frase a seguir, de José Mitchell no livro Segredos à direita e à esquerda na Ditadura Militar*: “Os dois lados (direita e esquerda durante a Ditadura Militar) sufocaram a democracia em nome da mesma democracia pela qual diziam lutar. Pior de tudo: os dois lados efetivamente acreditavam no que faziam, a demonstrar que as ideologias amoldam e amaldiçoam o comportamento humano e podem cegar os espíritos mais esclarecidos”. Com todos as ressalvas possíveis, basta trazermos esse exemplo para nossa atual realidade. A diferença mais marcante, talvez, é que agora temos uma infinidade de lados que se acham donos da verdade, moral e bons costumes.

Somos todos virtuosos, ou alguém aqui se acha errado e insiste nisso? Particularmente, tento me afastar de qualquer extremo e enxergar os prós e contras dos diferentes discursos postos à mesa. Mas não me engano. Assim como qualquer um, tomo o meu lado. Mantenho uma linha de pensamento. Não há como ser diferente. Mesmo aqueles que são ditos ou se dizem em cima do muro optaram por ali estar. O maior desafio para mim e para qualquer um que esteja ou não lendo este texto é não acreditar cegamente nas próprias convicções, uma atitude absolutamente antagônica, mas com alta capacidade de nos tornar esclarecidos.

No budismo, o nirvana significa o estado de libertação atingido pelo ser humano ao percorrer sua busca espiritual. Por que não ampliarmos isso nos mantendo também em busca do nosso nirvana político, econômico, sociológico e cultural? O que perderíamos com isso? Aposto em ganhos significativos. No entanto, esperar que as grandes instituições preguem essa prática é o mesmo que esperar sentado por milagres. Cabe a nós esse movimento.

A história sempre foi marcada pelos bons e pelos maus, pelos heróis e pelos vilões. Clamar por justiça, igualdade, responsabilidade e etc. é um dever e um direito que temos. Gandhi, Mandela, Luther King, Lincoln e outros tantos se tornaram icônicos por essas lutas. Eles, acima de tudo, eram antes pessoas esclarecidas, de mente aberta e com coragem. Ideológicos? Pode ser. Também cometeram erros? É claro. Mas fizeram do diálogo uma de suas principais armas, a mais potente de todas. Se sacrificaram e foram sacrificados. Quantos de nossos pseudo-heróis atuais têm culhões para isso? Se não temos esses personagens, sejamos eles, coletivamente. Na era do conteúdo e da informação livre, é possível sermos menos cegos, narcisistas, partidários, religiosos e nos tornarmos mais humanos, pois hoje os adjetivos que usei no início deste texto podem ser aplicados a qualquer um que se ache dono da razão e eximido de culpa.

 

*MITCHELL; JOSÉ, 2007, p. 259