Bate que eu gosto

Quem nunca se sentiu tentado a dar um belo de um tapa na cara do(a) namorado(a), que atire a primeira pedra. E com força, por favor, porque eu gosto!

A frase acima, assim como outras atitudes masomasoquistas, são capazes de assustar os não adeptos da prática. Mas os iniciados garantem ser impossível parar depois de ter provado o gostinho da dor, seja sentindo, ou proporcionando-a.

Antes, é bom esclarecer as diferenças entre as duas práticas, bem distintas por sinal: o sadismo e o masoquismo. A palavra sadismo se originou do nome do conde e marquês de Sade (1740-1814), acusado de ter uma “imaginação demente sem rival”. Condenado duas vezes à morte, Sade explorava o prazer sem limites, o que levou inúmeras pessoas à morte, devido à violência que empregava nas práticas sexuais. Seu prazer provinha do sofrimento dos outros.

Já o masoquismo, origina-se de Leopold von Sacher Masoch, e consiste em sentir prazer sexual ao ser maltratado física ou moralmente. Nascido em 1836, Masoch foi um escritor conhecido principalmente por “Venus in Furs”, obra onde escreve detalhadamente sobre suas fantasias masoquistas. O mais impressionante é que o romance conta a história verídica de uma de suas “brincadeiras”.

Teoricamente, todo sádico precisa de um masoquista, e vice-versa. Mas o que faz do sadismo uma perversão, é exatamente o não consentimento da vítima. A dor sentida pelo masoquista vem acompanhada do prazer, e o que o sádico procura é acarretar uma dor verdadeira.

Conversamos com algumas pessoas que curtem integrar práticas SM ao sexo. Todos deixaram claro que não gostam de nada que chegue perto da morte, apenas tapas, unhadas e arranhões. Amanda*, 19, estudante de jornalismo, admite que quando seu namorado lhe pediu que lhe desse um tapa no rosto, se assustou. Mas bastou experimentar para não deixar mais que o coitado saísse sem marcas da cama. “O sexo já é uma forma de extravasar.

Quando eu bato, então, tudo fica mais intenso e sensível”. Bater no namorado durante o sexo também pode ser uma forma de se vingar de atitudes inadequadas do parceiro. “Bastava eu me lembrar de algum deslize dele para ter mais vontade ainda de bater. Ele gostava, é claro, mas nem sempre na intensidade que eu empregava a força”, se diverte Amanda.

Para Pedro*, 20, a questão não é bater ou apanhar, mas sim interagir. Mas sempre dentro de certos limites. “Como envolve duas pessoas, os dois têm que topar. E se envolve sangue, estou fora.”

A maioria dos SM fica mesmo na brincadeira, mas nem sempre é assim. Roberto, 21, estudante de farmácia, prefere coisas mais reais. “Eu sou a favor do pesado, mas sem deformação”, diz ele.

O jovem não se importa nem um pouco em ficar marcado, muito pelo contrário: gosta das marcas e faz delas uma lembrança. Diferente da maioria, que acaba tendo preferência pelo sadismo ou pelo masoquismo, Roberto gosta igualmente de apanhar e bater, confirmando-se um autêntico sadomasoquista, e com muito orgulho.

Outro lado muito interessante da dor misturada ao sexo é o poder que ela tem de prolongar e atrasar o prazer. O namorado de Amanda* pedia que ela não lhe batesse quando estivesse próximo do orgasmo. “Ele dizia que cortava o tesão, pois desconcentrava. Mas depois que soube disso, passei a me aproveitar para que ele acompanhasse meu ritmo.” Se ela percebia que ele estava quase lá, mas ela ainda ia demorar, aplicava-lhe uns tapas na cara e retardava o orgasmo. Já Roberto prefere se utilizar de acessórios para retardar o orgasmo: prendedores de mamilo (“básicos e fundamentais”, de acordo com ele), cera de vela, tudo o que possa fazer com que a relação se prolongue e proporcione alguns minutos a mais de êxtase.

Apesar de estar bem resolvido com sua opção, Roberto ainda não pôde concretizar suas maiores fantasias pela dificuldade em encontrar outros adeptos: “O ideal é que as duas pessoas tenham os mesmos limites.” Mas, enquanto não encontra alguém na medida certa, utiliza as práticas SM desligadas do sexo: “Se não encontro ninguém, vou sozinho mesmo. Ou então, acabo convencendo a pessoa a me dar uns tapas.” Isso já assustou os mais conservadores, mas Roberto não se arrepende: “Mesmo tendo que ensinar, adorei. Eu me sinto superior à pessoa quando domino, e superior à dor quando apanho.”

Saindo do campo do prazer, até os que curtem ser amarrados, amordaçados, e açoitados, preocupam-se com a segurança. “Pode ser perigoso. Não gosto de perder o controle da situação”, analisa Roberto. Mas quem disse que o medo não pode causar muita satisfação? Como em qualquer relação sexual, não há regras. O importante é que cada um respeite seu próprio limite, o do parceiro, e se permita experimentar novas sensações. O que você está esperando?

 

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