Para comemorar seus 10 anos de vida, o Festival Multiplicidade ocupa por um mês o teatro do Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro (a partir de sábado, 21/06) com a exposição NÓS– uma revisão de sua história num espaço de múltiplas experiências. A expo, que ocupará o 8º andar, terá 17 projetores simultâneos sincronizados com softwares de mapping e robótica utilizando uma trama de cordas e nós como suporte para projeções com tecnologia desenvolvida por um grupo de artistas e colaboradores que passaram por edições anteriores, entre eles Alvaro Uña, Bebeto Abrantes, Glauber Vianna, entre outros.

 

Junto com a inauguração da exposição, acontece o lançamento do novo livro do festival, com direção de arte assinada por Leonardo Eyer através de seu premiado escritório BOLDº a design company, e novamente a presença do inglês Scanner(artista que esteve em 2011 no festival), reeditando ao vivo a trilha de dois curtasdo celebrado cineasta francês Alain Resnais, “Toute la mémorie du monde”, de 1956 e “Le Chant du styrene”, de 1959. Scanner apresenta também uma performance em homenagem a Derek Jarman, utilizando imagens do cineasta em Super 8 junto a novos arranjos das músicas de seu elogiado CD, The Garden is Full of Metal. O melhor de tudo é que o evento é gratuito.

 

Conversamos com o curador Batman Zavareze sobre este momento emblemático do Festival Multiplicidade, confira:

 

> 1. Primeiro, parabéns pelos dez anos. Como analisa esta trajetória de imagens + sons inusitados?

Quando me surgiu a ideia de realizar o Festival, tinha clareza que a cena da arte eletrônica era muito desarticulada, estereotipada e renegada. Para fugir de rótulos, decidi nortear o Festival para uma zona inclassificável de linguagens artísticas, embora vinculadas à arte digital. Nesse sentido o nome “Multiplicidade” apontava para uma programação plural, exatamente como o DNA do que foi sendo construído.

Um dos grandes diferenciais e, possíveis motivadores dos encontros inusitados que promovemos, é o fato de que o formato privilegia performances inéditas e singulares. Não temos palcos sobrepostos com mais de um artista dividindo atenções. Assim, cada apresentação tem a possibilidade de pensar uma experimentação única.

De nossa parte, a plataforma do Festival incentiva que o artista busque algo novo em sua trajetória. Hoje podemos dizer com orgulho que isso aconteceu com nomes consagrados. Para efeito de ilustração cito o Chelpa Ferro, que se apresentou junto com uma orquestra sinfônica regida por Jaques Morelenbaum. Outro exemplo foi o Arnaldo Antunes + Marcia Xavier + Edgar Scandurra realizando uma performance, que ele mesmo dizia, ser impossível de montar no Brasil. Na outra ponta, devo destacar performances com grupos e artistas de uma novíssima geração, ávida de palco e energia, como por exemplo, o Letuce. A banda montou uma piscina de isopor, onde a platéia assistia imersa, mas que tambem era suporte de projeções.

É possível também enumerar uma série de construções cênicas memoráveis, que deixam um legado para o artista e para o público, que os marcam na lembrança, como algo diferente e inusitado. Esta sempre foi e é nossa maior busca.

 

> 2. Porque você criou o Festival e o que você acha que ele traz para a cidade? Está crescendo em popularidade?

Criar o multiplicidade foi uma oportunidade diante de um enorme desejo pessoal.

Arto Lindsay, certa vez me disse: “Eu detesto quando as pessoas dizem que no Brasil nada funciona… A gente precisa ver as oportunidades únicas daqui.”

Este nome Multiplicidade, vem de observar estas oportunidades preciosas. Multiplicidade é um nome auto-referencial. Eu sou o reflexo profissional e espiritual desta avalanche de informações que o conceito de multiplicidade nos sugere e revela. Eu amo a rabeca e a pick-up, a Bossa Nova e o Break-Beat, o lápis e a internet. Sou um apaixonado por toda essa multiplicidade. Sou um “remix” destes tempos atuais. Um antropófago aglutinando informações das coisas que vejo nos festivais que frequento, ou nos links e pacotes enviados pelos artistas interdisciplinares que pretendem participar do Festival.

Tenho uma curiosidade que não cabe em mim, e isso me instiga a enxergar as belezas e oportunidades, mesmo aquelas que a princípio desprezo. O Festival Multiplicidade é um projeto de que adoraria participar um dia como artista. O fato é que tive o privilégio de propô-lo, quando surgiu o primeiro Centro de Arte e Tecnologia no Rio de Janeiro. Posso dizer que nasci e cresci artisticamente junto com o Espaço Cultural Oi Futuro.

A Projeto veio ao encontro de uma ansiedade artística: abrir um espaço para unir imagem e música, através da tecnologia que despontava com toda a força, no inicio do século XXI. Essa temática estava no ar e viria a transformar nossas vidas. A idéia era propor uma plataforma cultural contemporânea com regularidade, para formar público e fomentar a produção de conteúdo digital e isso vem acontecendo, claramente, com os nossos 10 anos de existência.

Já havia visto diferentes formatos de festivais na Europa — Sónar, Ars Electronica, Netmage, Transmediale, Mapping, etc. O desafio, no Rio, seria formatar algo com originalidade que privilegiasse a autoralidade e o deslocamento de seu olhar. Por isso somos à cada performance, damos atenção plena ao artista que irá se apresentar. Este formato ajudou a fazer uma curva de amadurecimento, na formação de plateias, pois temos uma programação por um período de 6 meses. E, também, na compreensão de nossas propostas, as mais estranhas e as novidades.

O Festival ocupa um calendário da cidade de junho à novembro com um repertório amplamente rico de artistas nacionais e internacionais. O conjunto de artistas não se limita ao universo eletrônico, construindo um encontro singular e inusitado entre imagem e som. O crescimento é natural e sem cobranças, externas ou internas, pois não queremos ser populares. Pelo contrário, a ideia é cada vez mais se aprofundar em algumas discussões – técnicas e estéticas – para consolidar lentamente um público cada vez maior. Hoje o desafio é unir cultura e educação nas ações do festival.

 

> 3. Qual é o tema da décima temporada do Festival Multiplicidade?

O tema principal são os “NÓS”. Por isso começamos com uma exposição em forma de instalação imersiva que ocupará por um mês o teatro do Oi Futuro Flamengo – 21/6 a 20/7 – revisitando a nossa história num grande mashup. Promovemos uma série de embaralhamentos ao longo das últimas temporadas e a 10ª, em 2014, com uma programação artística igualmente não linear, não será diferente. Vamos ter um grande recorte desde as tecnologias do passado e do futuro, até chegar em novembro com um mergulho no universo artístico atual da Dinamarca. O mundo nórdico me instiga muito.

Simbolicamente queremos mostrar o nó, ou melhor, os “NÓS” que precisamos desatar para construir os próximos 10 anos de diálogos entre Arte & Tecnologia.

Para ser mais preciso entre: Arte, Tecnologia & Vida.

Temos o grande desafio que é abrir diálogo para um publico mais jovem. Um publico que não tem medo de tecnologia, porque eles já nasceram com múltiplos estímulos de telas e informações, num mundo que não distingue o que é real e virtual.

Um público que compreende com mais facilidade as experiências sensoriais que promovemos porque eles nunca usam uma única tela para compreender e sentir o mundo.

A geração Z que abordamos no nosso livro de 2012 com reflexões sobre a era digital, em 11 textos de pensadores (poetas, jornalistas, educadores, tecnológos, psicanalistas, etc), apontam com clareza que este jovens são múltiplos e hiper conectados. Essa é a nova natureza desta geração, ou seja, o que é novo para a geração que nasceu no século passado, é normal para a que nasceu nos anos 2000.

Queremos cada vez mais atrair este novíssimo público, sem distanciar os pais que nos frequentam há uma década. Independente das linguagens artísticas, do jazz ao eletrônico, queremos estimular um olhar diferente para estes dois públicos, pais e filhos, conviverem no mesmo festival. No Parque Lage em novembro do ano em curso, isso ficará ainda mais evidente, através das programações que incluem experiências de piquenique, às instalações sonoras na natureza.

 

> 4. Como a idéia de produzir um livro junto com o Festival se originou?

Normalmente os catálogos dos festivais reproduzem a programação com imagens e textos do que acontecerá, uma espécie de serviço do evento. Isso me incomodava profundamente porque excluía o papel do designer como autor neste processo visual, do escritor como autor dos textos e mesmo as reflexões do artista sobre o que ele estava desenvolvendo exclusivamente para o Festival Multiplicidade.

Desde as primeiras edições do festival realizamos livros de arte que incluem os conteúdos do catálogo do festival e uma documentação original. Por isso lançamos os livros 6 meses depois do acontecimento, assim tempo para digerir o que foi feito e desenhar um livro que seja autoral, tanto no uso das fotos, dos textos e do design, assim como no tratamento da performance realizada.

No início havia uma incompreensão nesta lógica, lançar um livro do que aconteceu no ano passado, mas hoje tenho certeza que qualquer um de nossos livros são atemporais. Pode abrir numa página aleatória que ainda continuará sendo um assunto atual.

 

> 5. Fale um pouco mais sobre a Exposição NÓS?

Será uma instalação com 17 projeções no teatro do Oi Futuro Flamengo, que vai apresentar técnicas de mapping e múltiplas telas projetadas simultaneamente numa sensação bem imersiva.

“NÓS” promove uma revisão imersiva através de experiências que apresentamos no festival ao longo de nossa história. Não é uma exposição convencional, pois tem um recorte cronológico completamente não-linear, com uma cenografia absurda (são 500 metros de linhas cruzadas) e estímulos simultâneos.

“NÓS” investiga os desafios que temos ao mexer com uma programação plural e inclassificável

“NÓS” representa uma nova forma de compartilhar os conhecimentos, com uma rede de coletivos que compartilham ideias em busca de modelos de conhecimentos multidisciplinares.

“NÓS” é o futuro de uma geração que vive e respira tecnologia.

 

> 6. Por que o artista Scanner foi escolhido para a abertura Festival este ano?

 

Em 2012, Tom Zé, descendo as escadas do Oi Futuro Flamengo me falou: “não conte a sua história de 10 anos num único ano, é um desperdício intelectual”. Ruminei intensamente a partir deste comentário. Por isso começamos a rever o que aconteceu já no ano anterior. Foram 2 ou 3 anos revendo este diálogo de arte sonora e visual junto a tecnologia, sempre olhando o presente, o passado e o futuro. O que iremos propor novamos com Scanner, é um projeto que acompanha toda a transformação das tecnologias e das linguagens artísticas de alguém pioneiro, como ele.

Scanner é um artista sonoro com 50 anos de idade, que teve o privilégio de viver no início e no ápice desta revolução digital sempre com trabalhos de vanguarda.

Hoje, diria que é um artista que sabe absorver as linguagens do início do século passado e remixá-las com ferramentas ultra-modernas. Ele sintetiza em vários níveis o DNA do Festival Multiplicidade e tudo que acontecerá ao longo de 2014 e muito do que promovemos em 10 anos.

 

> 7. Qual é o futuro do Festival Multiplicidade?

Construir NÓS para embaralhar ainda mais. Permanecer inquieto. Tenho uma ambição enorme, porque sei que ainda exploramos timidamente a potência deste dialogo das artes & tecnologia com a vida. Falta inserir poesia no uso do Ipad que reina em nossas mochilas que são usadas basicamente em reuniões. Continuarei buscando o público que espera por experiências que permaneçam dentro de nós, seja pelo embelezamento ou pela estranheza.

O festival só existe para ser provocador, para criar fagulha, para incitar, para restabelecer as ligações entre o público e os espaços da cidade, além de replicar a vontade de se criar e propagar obras e experiências capazes de nos tocar no plano do sensível. Nossa vocação como plataforma artística de ações continuadas, age diretamente no jogo entre artista(s) e público(s), criando uma engrenagem móvel, volátil, sempre diferente do que planejamos, impulsionado pela presença de todos. Particularmente quero que nossas ações gerem “ecos” nas pessoas.

NOS3

 

Serviço

Curadoria: Batman Zavareze

Oi Futuro Flamengo

Data: 21 de junho

Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo

Horário: A partir das 19h

Classificação etária: Livre

Entrada: gratuita

 

Horários e programação no dia 21 de junho:

19h Exposição NÓS (7º nível/ Teatro)

20h Scanner / Performance: Toute la mémorie du monde (área externa)

21h Coquetel de lançamento do novo livro do Festival Multiplicidade 2013 (1º nível)

Saiba mais:

 

Festival Multiplicidade 2014 – Ano 10

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