Bossa Nova vai bem, obrigado

Inovar é preciso. A boa música se presta a inúmeras variações. Novos arranjos podem trazer à tona riquezas que antes passavam despercebidas. Ruy Castro (eu acho que foi Ruy Castro, mas a memória pode estar falhando) conta que Tom Jobim nunca tocava “Garota de Ipanema” da mesma maneira, procurando sempre explorar vertentes harmônicas diferentes. E o resultado continuava a encher os ouvidos e aquecer corações.

O novo CD “Brasilidade”, unindo Roberto Menescal e o conjunto Bossa Cuca Nova, passa por inovação. Menescal, bamba do violão e da guitarra, é o compositor de tantos clássicos da Bossa Nova como “O Barquinho”, “Você”, “Copacabana de Sempre” e “Telefone”. Fez também música inspirada com Chico Buarque, a deliciosa “Bye Bye Brazil”. Já o Bossa Cuca Nova é composto por Márcio Menescal (baixo), Marcelinho da Lua (programação e scratch) e Alexandre Moreira (teclados). O casamento de um dos pioneiros do movimento com a garotada nova da pesada deveria render bons frutos. Por que, então, “Brasilidade” acabou sendo um CD que não enche os ouvidos e deixa frios os corações?

Talvez porque os autores não definam a razão por trás destas novas versões. Elas não têm motivo de ser. Pegaram uma porção de canções famosas e encheram de samples e loops sem sentimento. Para quê? O fã mais purista vai repudiar com certeza, pois lá se foi a bateria do Dom Um Romão e em seu lugar entrou uma batida eletrônica. Já o pessoal que não conhece os originais pode até achar interessante o novo som, mas dificilmente as músicas vão emplacar nas pistas ou em festas. A bem da verdade, só consigo imaginá-las como pano de fundo num filme do Austin Powers, com aquele tom kitsch e exagerado.

Que ninguém me entenda mal. Há grandes virtudes envolvidas na produção, como o sax de Léo Gandelman em “Telefone”, os teclados envenenados de Moreira e, sobretudo, a participação luminosa de Ed Motta em “Garota de Ipanema”. Ed Motta é um arraso. Entra com todo seu suingue cantando em edmottês, misturando português e inglês até elevar a canção a um novo patamar. Nota dez para ele. Mas também assim não vale: Ed Motta seria capaz de encontrar ouro em “Cai Cai Balão”.

Existe a noção de que fazer música eletrônica é moleza, basta apertar uns botões e pronto. Não é bem assim. Deve ter dado um trabalho danado criar as batidas que permeiam as músicas. Pena que foi em vão. Elas não enobrecem, não animam, não tornam a atmosfera mais sedutora (como toda boa Bossa). Tirem as batidas, preparem uma nova mixagem com destaque para os teclados e chamem o Ed para acompanhar o Menescal em todas as faixas. Taí a receita de um álbum com potencial.

Talvez o melhor momento do CD seja a canção-título, uma das três compostas por Menescal em parceria com o Bossa Cuca Nova. Tem uma melodia original e contagiante, solos delicados de violão e uma idéia arrepiante: a voz de Vinícius de Moraes usada em scratch. Nunca ouvi isso antes. Soa quase como uma heresia, mas funciona, e creio que teria divertido o próprio Vinícius. Se ao menos a batida não fosse tão desnecessária… No final das contas, o todo é menos do que a soma das partes. Se esta é a Bossa Cuca Nova, podem me afogar em Bossa Cuca Velha a qualquer hora.

O som de Bebel Gilberto: Parecido mas nem tanto

Chega a ser curioso: na mesma linha do revival eletrônico, já tinham feito algo parecido antes, e melhor. O CD “Tanto Tempo” de Bebel Gilberto, lançado com estardalhaço no exterior há dois anos e por essas bandas no ano passado, consegue deixar “Brasilidade” na poeira. A voz de Bebel domina todas as faixas. Rouca. Contida. Sublime. Ao contrário da experiência com o Bossa Cuca Nova, “Tanto Tempo” conta com batidas mixadas de forma mais discreta e consegue cativar por completo. O repertório mistura músicas originais de Bebel com clássicos de Baden Powell, Chico Buarque e Marcos Valle. O álbum tem um senso de unidade e bom gosto que convence.

O mesmo se aplica a “Tanto Tempo Remixes“, ousadia na qual as canções de Bebel são reinterpretadas com resultados alucinantes. É a inovação da inovação, chegando a uma nova categoria de música que tem apenas um sopro de Bossa Nova, aproximando-se muito mais dos ritmos contemporâneos, porém com convicção e um objetivo claro – botar a galera para dançar. O que consegue sem muito esforço. Decepciona apenas a nova versão de “Samba da Benção” em que o original foi tão diluído que sobra pouco para curtir.

A resposta da turma do jazz

Já quem for conservador e estiver procurando ecos mais tranquilos da Bossa pode apostar em “Double Rainbow” sem medo de perder. O saxofonista Joe Henderson, acompanhado de um time de craques que inclui Herbie Hancock inflamado ao piano, revisita alguns clássicos de Tom Jobim com uma dedicação que impressiona. “Lígia” nunca soou tão perdidamente apaixonada como em sua interpretação slow jazz. O CD surgiu na praça há alguns anos mas ainda não decolou. Será que algumas batidas eletrônicas teriam ajudado? (Vade retro!)

Para a turminha do papai-e-mamãe musical, em “No Tom da História” o baixista Tibô Delor oferece versões corretas de outros clássicos de Jobim e algumas canções menos alardeadas de nosso compositor-mor, como “Valsa de Porto das Caixas” e “Meu Amigo Radamés”. Comparece ao violão o filho do homem, Paulo Jobim. Falta um pouquinho de entusiasmo, no entanto, a este CD que soa como música de câmara. Passa longe da expansividade de Henderson e assume ares decididamente introspectivos.

Enfim, não faltam opções. Não há como negar que a Bossa Nova revolucionou o modo de fazer e ouvir música. O forte apelo do movimento continua a conquistar admiradores e garante o lançamento de novos CDs a cada mês. Ao mesmo tempo, a incorporação de batidas eletrônicas é sinal de que a juventude anda ouvindo e comprando as novidades e pedindo mais. Quem sabe o que pode surgir daí? Dentre os CDs recentes, alguns acertam o alvo. Outros passam longe. Mas todos têm em comum o fato de que despertam sentimentos positivos. Sentimentos de um mundo no qual as pessoas se respeitam e apreciam a vida e suas pequenas dádivas. A Bossa Nova, com batida e tudo, é a trilha sonora de um mundo melhor.

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