Ao sentar em frente ao computador para escrever esta matéria, penso no performático Edu K, líder do DeFalla, e por algum motivo me vêm à mente Hunter Thompson e seu “jornalismo gonzo“. Pena que Thompson não estava no Circo Voador no último dia 15 de janeiro. Pena que o DeFalla só subiu ao palco lá pelas 4 horas da manhã, após apresentações de B Negão, Arkham, Jimi James e MCs HC. Muitos tinham ido embora e outros lutavam contra o sono nas arquibancadas do Circo Voador.

De FallaGaranto, entretanto, que valeu a pena esperar. Sono e mau humor desapareceram tão logo os integrantes do DeFalla subiram no palco. Edu K fez de tudo: jogou-se no chão, mostrou as nádegas, fuçou uma bolsinha de cosméticos, passou batom, desceu do palco, agarrou uma menina da platéia e correu por todos os cantos. O público, composto em grande maioria por jovens de 20 e poucos anos, riam com as peripécias de Edu e seus comentários auto-depreciativos – “Vocês não sabem o que faço no centro geriátrico aonde moro…” e “Ajudem um velho ancião!” foram apenas dois deles.

O clima era de entrosamento total, os ares eram de improviso, e o DeFalla executou com competência e novos arranjos canções da longa estrada percorrida pela banda, que retornou à ativa com formação muito semelhante à original. Um dos pontos altos do show foi a versão funk , no sentido mais clássico da palavra, de “Satisfaction”, dos Rolling Stones.

Edu K dedicou uma das músicas para Castor, primeiro baixista do DeFalla (que atualmente mora em Maceió), a quem se referiu como “grande amigo, mentor e mexilhão da galáxia”. “Castor não tem 45 anos e está viajando de van. Ele está num mundo melhor”, completa. Na formação atual estão a baterista Biba Meira, o baixista Flavio Santos (também conhecido como Flu) e Edu K, além de Rafael (Planet Hemp) e Peu (ex-Pitty), guitarristas que acrescentaram muita energia e qualidade ao som da banda.

Entrevista DeFalla

Numa conversa muito descontraída, os integrantes do DeFalla -uma banda mutante, que já passou por diversas formações – falam sobre sua história e a decisão de voltar à ativa.

Como surgiu a idéia de voltar com a banda, depois de tanto tempo separados?

Flu – O Edu quis voltar com a banda em 1998, após ter trabalhado por três anos com publicidade e seu trabalho musical solo. Chegamos a fazer um disco sem o Edu e isso foi muito estranho, porque ele é uma figura muito forte na banda. No início, o Edu gravava os discos sozinho, ele sempre foi a entidade “defálica”.

O DeFalla já passou por diversas formações e fases, é impossível definir o som de vocês.

Flu – É verdade. Trabalhamos com a Paula e o Toni, do Ultramen, e sem o Edu tivemos a oportunidade de compor músicas muito diferentes, sem aquela coisa de vanguarda, pós-modernismo… Então o Edu quis voltar para a banda e eu saí. O Z entrou e rolou um esquema doidão, um som meio Marilyn Manson.

E quem propôs a volta do DeFalla, digamos, como era antes?

Biba – Fui eu. Eu e o Flu tínhamos trabalhado juntos nesse tempo, compondo músicas com o Wander Wildner para um filme. Foi muito interessante. Eu tinha saído da banda brigada com o Edu, ficamos 10 ou 12 anos sem tocar juntos. Daí nos encontramos no Parque da Redenção, um lugar muito famoso em Porto Alegre, e tivemos uma conversa muito louca. Combinamos voltar com a banda e tocar o primeiro e o segundo disco na íntegra, coisa que nunca tínhamos feito. O Edu prometeu mil coisas… (risos). Só não deu para o Castor voltar a tocar conosco, já que ele tinha se mudado para Maceió e assim ficava impossível.

Como rolou a entrar do Rafael e do Peu?

Edu – A Carol (empresária do DeFalla) viu o Peu num show da Pitty e começamos o contato. Liguei pro Peu, ele entrou na banda e de cara o som já foi muito bom. Essa volta da banda foi meio ao acaso, nada combinado, queremos ver o que rola com essa formação pseudo-antiga, e fazer coisas novas. Nós já conhecíamos o Rafa e sempre gostamos desse vibe 80sque ele tem, então o chamamos para tocar conosco.

Vocês todos moram em cidades diferentes – Peu em São Paulo, Edu em São Paulo, Biba em Porto Alegre, Rafa e Flu no Rio. Como estão lidando com isso?

  Flu – Primeiro rolou uma fase de reconhecimento de área. De fato, é muito mais difícil compormos juntos morando em três cidades diferentes, mas também existem vantagens, pois temos três bases.

Edu – O Flu se mudou de Porto Alegre e isso foi muito bom, porque ele que começou a fazer os contatos por aqui. O Porto Alegrense é um povo muito provinciano… É bom cada um morar em um lugar, porque cada um tem uma coisa diferente na cabeça. Eu continuo com meus projetos solo, como o SUPA PUNK DJ, meu projeto eletrônico; o DeFalla é meu parque de diversões.

Soube que vocês moraram juntos por um tempo.

Flu – Eu, Castor e Edu moramos juntos por um ano. Na verdade, eu dividia a casa com o Castor, mas o Edu se mudou pra lá, e depois o Mario Gil também foi. Os dois moravam no corredor da casa.

Biba – É, o Edu realmente morava no corredor da casa! Ele é muito doido, pegava roupas da minha mãe e saía por aí, andava vestido com um maiô por Porto Alegre. Se aqui no Rio já é esquisito um cara andar de maiô na rua, imagine só em Porto Alegre! Às vezes ele saía com uma roupa da Branca de Neve.

E o que as pessoas podem esperar do show de hoje?

Edu – Quero fazer um freak show ! Essa volta está sendo muito interessante. No tempo em que a Biba esteve fora da banda, muita coisa aconteceu, nós vimos o que realmente acontece no cenário de rock, mudamos a visão que tínhamos na época em que estávamos juntos. Acho que a Biba está tendo esse choque agora, com a realidade atual do rock. Vamos tocar qualquer coisa, uma mistura de Grateful Dead com Mothers of Invention. Cansei de ser o ditador-mor do DeFalla. Já brinquei muito de Barbie com os membros da banda, isso cansa.

 

Por Isabela Vecchi Alzuguir