O que as marcas Kink, de Curitiba; a paulista Lucky Dice; e as cariocas Popdesign, Gotta Rock e Amélie têm em comum?

Todas elas nasceram para matar a vontade de seus criadores em usar peças que não encontravam à venda. Fizeram sucesso instantâneo entre os amigos, ficaram conhecidas através do bom e velho “boca a boca”, responderam encomendas e, em pouco tempo (em média um ano), dão lucro e são distribuídas para todo o Brasil.

“A roupa deve ser, antes de tudo, cômoda e prática. É a roupa que deve adaptar-se ao corpo e não o corpo que deve deformar-se para adaptar-se à roupa”.(Gabrielle Coco Chanel)

pop1Giselle Arruda deve concordar totalmente com esta citação. Carioca, estudante de programação visual na UFRJ, trabalha como designer em uma empresa de marketing esportivo e é a responsável pela Popdesign. Afinal, o que pode ser mais confortável do que uma t-shirt?

“As pessoas viam meus desenhos no meu Fotolog e comentavam que ficariam legais numa camiseta. Junta com essa coisa de estarmos em tempos bicudos… resolvi fazer um lance e ganhar um dinheiro para ajudar nas despesas”, diverte-se Giselle, que é quem faz tudo, dos desenhos até a produção das peças. Quando criou a Popdesign, achava que seu público-alvo seria mais feminino, de 18 a 25 anos; mas com a demanda de trabalho descobriu que a maioria do seu consumidor, além de ser masculina, tem idade bastante diversificada.

Olhando pra frente, Giselle pretende não só vender camisetas on-line mas estar em lojas: “A idéia é ter um material mais profissional e vender em lojas multimarca. Mas para isto é preciso ter capital de giro e uma maior disponibilidade de tempo que ainda não tenho”.

kink1Outra marca que mistura design e moda é a curitibana Kink, que produz camisetas e bottons. Surgiu em março de 2004 e já é a queridinha de um público grande de rockers e designers em todo o Brasil. Quem assina a Kink são os designers gráficos Giusy de Luca e Fabiano Vianna, mais o empresário Roberto Paulo Fiedler.

Todo o estilo é pensado em conjunto e eles agora começam a desenvolver peças de vestuário, já que pretendem trabalhar com uma linha completa de moda masculina e feminina. Querem crescer, e rápido, como revelou Roberto: “Quando nos reunimos já pensávamos em algo grande, não apenas num projeto que fosse um hobby”.

Mesmo que no momento eles ainda estejam em fase de criação e difusão da imagem da marca, a Kink já tem projetos ousados, como ter um galpão que será ao mesmo tempo o lugar de venda da coleção, um espaço para shows com bandas locais, exposições de arte com artistas novos, café e outros eventos que tenham a cara da marca.

“Queremos nos tornar uma marca forte, conhecida em todo o país, vendida em todos os cantos – sempre com propostas inovadoras, conectadas às tendências contemporâneas”, conclui o empreendedor Roberto.

dice2A paulistana Lucky Dice, da jornalista e webdesigner Aline Castro, é dos colares, pulseiras, brincos, alargadores, correntes e chaveiros também voltados para o público rocker. “Comecei montando alguns colares pra uso próprio. Os amigos gostaram, começaram a perguntar, vieram as primeiras encomendas. Com o dinheiro das vendas comprei algumas peças para montar, entre elas dados de acrílico. Foi amor à primeira vista. Montei alguns colares com eles e logo vendi todos. Voltei e comprei praticamente todo o estoque de dadinhos. Foi o feedback dos compradores que acabou impulsionando e dando nome para a marca – afinal, 90% da minha produção eram colares ou pulseiras com dos tais dados”, conta Aline.

A Lucky Dice começou a participar como expositora em shows e eventos de rock no interior de São Paulo, além de ser distribuída para skateshops e estúdios de tatuagem. Aline explicou que no início a maioria dos compradores da marca era ligada a movimentos alternativos como o punk, hardcore, psychobilly e rockabilly: “Sempre rolou uma identificação com esses grupos. Para eles os dados são uma espécie de ícone, são temas de tatuagens, camisetas e outros objetos. Pessoas ligadas ao skate e ao hip-hop também procuram as peças da Lucky Dice. Hoje em dia temos um público bem diversificado, as peças são vendidas de estúdios de tatuagens às tradicionais lojas de shopping. Comecei a receber encomendas de vários cantos do país… até para a Flórida eu já mandei colar!”, emenda, feliz, a dona da marca. Aline pensa em produzir camisetas, moletons e outros acessórios, uma linha especial só para a Lucky Dice.

“A moda é passageira como as pessoas. Mas ressuscita, e elas não”
(Carlos Drummond de Andrade)

amelie1Por trás da Amélie estão as diretoras de arte cariocas Viviane Ferreira e Fabiana Pomposelli, que sempre foram apaixonadas por acessórios e antiguidades. Tudo começou há pouco mais de um ano, inicialmente para uso próprio. “Começamos a investir no design de bijuteria como uma nova forma de expressão visual e assim nasceram os nossos primeiros ‘colares-relíquias’: desconstruindo o que já existia e misturando materiais antigos e raros com peças contemporâneas. Fazemos a releitura moderna do velho ‘colar da vovó’”, conta Viviane.

As amigas da dupla adoraram. Além dos colares, elas começaram a vender pulseiras e brincos. Hoje, peças da Amélie espalham-se por lojas do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Espírito Santo e Natal. As criações são sempre produzidas em número limitado, o que garante certa exclusividade.

amelie2As coleções misturam peças em pérolas, pedras semi-preciosas (quartzo, jade, ametista), muranos, louças, cristais, vidros e materiais nobres, raros e antigos. “As criações atingem desde o público jovem ligado em novidades até uma faixa etária mais alta. É muito bacana poder ver essa diferenciação e, ao mesmo tempo, essa convivência democrática de atitudes”, diz Viviane.

“Em caso de dúvidas, exagere!”, 
(Vivienne Westwood)

O fim da Segunda Guerra Mundial criou uma nova tendência na moda: o “new look”, criado pelo estilista Christian Dior. A mulher, cansada do minimalismo forçado pela falta de materiais têxteis causada pelo conflito, ansiava pela volta da feminilidade, do luxo e da sofisticação. Começava, assim, o culto a uma das mais explosivas combinações: ingenuidade e sensualidade, encarnada pelas pin-ups. O cinema lançou a rebeldia, simbolizada por James Dean no filme “Juventude Transviada” (1955), que usava jaqueta de couro e jeans; e por Marlon Brando em “Um Bonde Chamado Desejo” (1951), que transformou a camiseta branca num ícone. Eis o universo que Ana Cristina Bandarra e seu namorado, Eduardo Vila Maior, da Gotta Rock, apostam.

Gotta Rock é a marca-mãe, que engloba as submarcas Lady Luck Jewelry (bijuteria), Voodoo Doll (moda feminina) e Gato Caolho (moda masculina). “Posso dizer que todas as nossas marcas só existem por causa do tipo de som que curtimos. Desde adolescente sempre vivi a cultura do punk rock, do rockabilly e do psychobilly. Apesar de termos no Brasil uma cena crescente em termos de eventos e bandas, sempre tivemos uma carência enorme em onde comprar roupas e acessórios que traduzem este estilo. Por isso, ao invés de ficar reclamando, resolvemos fazer algo a respeito”. Ana, que trabalha em uma agência de publicidade carioca, e Eduardo, que além de webdesigner é músico e mantêm três bandas, arrumam fôlego para criar todas as coleções de suas marcas.

A especialidade da Gato Caolho são as camisas estilo bowling, muito populares na década de 50. Já a Voodoo Doll propõe vestir por completo as pin-ups modernas, desde roupas íntimas como calcinhas, anáguas e sutiãs estilo bullet até roupas para o dia-a-dia, como calças capri, camisetas e vestidinhos de algodão. Também tem as roupas glamourosas para a noite, roupas de banho vintage e até mesmo flores para o cabelo. Para a Lady Luck , a dupla cria todo o tipo de bijuterias, mas Ana diz que o forte são as com dados, que vêm sendo bastante explorado no mundo do rock. Os braceletes, colares e chiquinhas para o cabelo são o que mais vendem.

Ana diz que atualmente vende para todo o Brasil e acredita que isso aconteceu porque sempre procuraram estar presentes em todos os eventos relacionados ao público-alvo: shows de rock, festivais de psychobilly de Curitiba e Belo Horizonte, convenções de tatuagem. No entanto, alega que seu consumidor é bem diversificado: “Acho que não tenho realmente um consumidor padrão . Apesar de criar tudo bem em cima dos meus próprios conceitos, atingimos um pessoal bem maior do que o universo que eu vivo. A coisa não fica limitada ao gueto do psychobilly… a marca é consumida por todo tipo de gente e idade. Muitas vezes as pessoas nem sequer entendem o que estou querendo dizer… apenas acham bonito, diferente e compram. Acho isto muito positivo”.
Para os próximos meses os planos incluem o lançamento do portal Gotta Rock, onde serão divulgadas matérias sobre o estilo de vida retrô: música, receitas de drinks, como fazer cabelos e maquiagem vintage, eventos. “Eu e o Edu sonhamos um dia fazer um festival de rock anual fixo aqui no Rio de Janeiro, com bandas nacionais e internacionais patrocinado pela Gotta Rock e suas marcas!”, finaliza Ana.

 

Por Valeria Cotta