Já se foi o tempo em que oficialmente era intitulado estagiário. Um período de quatro anos, com muita vontade de aprender, pelo menos o suficiente para me tornar um profissional qualificado. Formado e já com alguma bagagem nas costas, aprecio aquele momento como crucial para tudo e qualquer coisa que ocorra daqui em diante. E quando digo isso vou além da questão das experiências, dos erros e também dos acertos. Quando penso no estagiário que fui me recordo do fator mais importante de todos: ser estagiário é não estar pronto, é um estado beta.

O bom estagiário é curioso o suficiente para perguntar até mesmo o que não interessa pra ele naquele momento, ousado o necessário para se impor enquanto alguém já dotado de conhecimentos, mas principalmente humilde ao extremo ao assumir suas limitações. Lembro que olhava com admiração para aqueles profissionais que dividiam ensinamentos comigo e vislumbrava estar naquela posição o quanto antes, ao mesmo tempo em que a insegurança era um grande desafio a ser enfrentado.

Hoje, passados alguns anos que deixei esse posto, tento dividir alguma coisa com a atual geração, da mesma forma atenciosa e respeitosa que muitos fizeram comigo. Pelo menos é o que tento. Estudantes em início de carreira normalmente precisam, mais do que nunca, de um norte, de uma base firme e confiável para se apoiar. Eu certamente me encontrei nessa fase por ter convivido com pessoas talentosas e generosas. Dois fundamentos complementares e absolutamente dependentes, por sinal.

Agora, confesso que só entendi por completo o “ser estagiário” depois que não era mais oficialmente um deles. Ou melhor, quando percebi que é fundamental e inerente para qualquer carreira ser sempre um “estagiário”, o melhor que você puder. A curiosidade, a ousadia, a humildade de não saber tudo, o vislumbre por um passo a diante, a insegurança e a necessidade de estar cercado por pessoas que te agreguem o tempo inteiro serão constantes durante a vida. Aceitar e acreditar nisso só vai facilitar as coisas. O ciclo profissional é sistemático, ele se repete, se repete e se repete sem limites, sem que o horizonte do novo desapareça. Hoje eu aprendo com quem sabe mais, aprendo com quem sabe outras coisas e aprendo com quem sabe menos, não necessariamente nessa ordem.

Este texto não é para estagiários, pois esses precisam ser o que devem ser e serão de qualquer forma. Isso é uma reflexão para mim, para você e para quem tenha esquecido que nunca estaremos prontos, que somos permanentemente betas. CEO, presidente, diretor, gerente, coordenador, especialista, analista, assistente, nada disso tem mais significado que “ser estagiário”. Então é melhor ser dos bons, daqueles que merecem uma chance. Tornar-se sempre um profissional melhor depende disso, exclusivamente disso.