Antes de falar do show de abertura do 11º Humaitá para Peixe – Edição Piracema, é preciso dizer que “Coleção Nacional”, primeiro disco do projeto-selo-grupo de produção INSTITUTO, é um dos melhores lançamentos nacionais de 2002.

Adotando o modelo de produção inaugurado no Brasil pelos paulistanos do Mamelo Sound System, o coletivo INSTITUTO armou uma rede de músicos e produtores pernambucanos (Nação Zumbi, Fred 04, Otto, Bonsucesso Samba Clube e Cila do Coco), cariocas (Bnegão e o DJ Zé Gonzales, no disco apenas Zégonz), paulistas (Sabotage, Rappin’ Hood e Z’África Brasil) e gaúchos (Flu, ex-DeFalla, e o projeto Traidores da Babilônia, com integrantes das bandas Ultramen e Comunidade Nin-Jitsu).

Humaitá pra PeixeO resultado capitaneado pelos engenheiros de som, músicos e produtores Daniel Ganja Man, Rica Amabis e Tejo Damasceno é um disco que tem habitado as seções de hip hop das lojas, mas que mistura com uma fineza extraordinária elementos do dub, ragga, samba, drum n’ bass, jazz, funk, coco e eletrônica como se fossem ritmos irmãos.
“Coleção Nacional” é um disco que inegavelmente pertence a sua época: está livre de pressões mercadológicas por causa do barateamento dos custos de produção independente, não possui fronteiras muito delimitadas de autoria e vem sem rótulos fáceis de gênero.

Antes de “Coleção Nacional”, o grupo já havia conquistado o público, a crítica e alguns prêmios com a trilha sonora feita em parceria com o rapper Sabotage para o filme “O Invasor“, do caça-talentos Beto Brant. O trio que encabeça o INSTITUTO também foi o responsável pela produção de seis faixas do último disco da Nação Zumbi.

O sucesso repentino credenciou a banda e seus convidados a encerrarem com pompas outro conhecido festival de novas bandas em São Paulo, o Upload, realizado em dezembro passado.
Com tantos elogios na bagagem em tão pouco tempo, o INSTITUTO veio para o Rio lançar o seu “Coleção Nacional” escalado para abrir a prestigiada 11ª edição do HPP. A expectativa entre os cariocas era grande, o que resultou num Sérgio Porto lotado por cerca de 500 pessoas do lado dentro e apinhado de gente sem ingresso do lado de fora. Um bom apanhado de antenados da cena musical carioca, entre músicos, produtores, críticos e aficionados, estava lá para conferir de perto o som do INSTITUTO.

É verdade que o show não empolgou muito a platéia de notáveis, que preferiu apenas observar e mexer com
a cabeça. Dá para entender. “Coleção Nacional” é um disco novo, pouco conhecido, e fonte principal do repertório da banda para a apresentação. Dos convidados anunciados para o show do Sérgio Porto, Otto, Black Alien, Zé Gonzales, Sabotage e BNegão, apenas os três últimos compareceram. A pouquíssima experiência da banda INSTITUTO em performances ao vivo também contou para o show morno que durou apenas uma hora e quase não teve bis. Mesmo com tantos contras, o rapper Sabotage conduziu o primeiro dia de HPP na ponta dos cascos e mostrou porque ganhou os prêmios de revelação e personalidade do hip hop nacional no Hutus 2002. Com um jeitinho meio bamba de ser, ‘Sabota’ abriu com “Cabeça de Nêgo”, mistura de hip hop com samba e um dos pontos altos de “Coleção Nacional”. São Paulo pode até ser o túmulo do samba, mas é a capital brasileira do rap. E a união dos paulistas INSTITUTO e Sabotage fazendo o mesclado de hip hop com samba é de fazer a casa cair.

Sabotage mandou na sequência duas músicas que fazem parte da trilha sonora de “O Invasor”: “Invasor” e “Na Zona Sul”, esta originalmente do seu disco “Rap é compromisso” de 2001. O público logo reconheceu alguma familiaridade no som e correspondeu com maior receptividade. Mas os tradicionais probleminhas de acerto do som, longos intervalos entre as músicas, quando os músicos não sabiam muito bem o que fazer, pouca interação da banda com os espectadores (Sabotage tem o hábito de falar um vocabulário próprio muito perto do microfone e de costas para a platéia) e algumas bases longas e repetitivas fizeram o público dar uma dispersada.

Lá pela metade do show, foi a vez de BNegão destilar a sua verve no microfone do Sérgio Porto. Em clima de protesto, mas com a serenidade característica de Bernardo Negão, Mr. Funk Fuckers mandou “O Dia Seguinte”, um ragga rasgado que canta em parceria com Otto na faixa cinco de “Coleção Nacional”.

Sabotage logo voltou para conduzir o show ao ponto alto com a cabulosa “Mun-rá”, também da trilha sonora de “O Invasor”. Sem deixar esfriar, o rapper emendou na sen-sa-cio-nal “Dama Teresa”, mais um hip hop com samba de breque, violão e cavaco que começa com Sabotage evocando Mestre Marçal, Pixinguinha e Dona Ivone Lara. ‘Sabota’ acaba com tudo mandando a letra com uma prosódia musical só sua. Trabalha as palavras repartidas em silabas e encaixa tudo no sapatinho do samba. “O rap é o novo partido” e Sabotage é samba da melhor qualidade. O rapper ainda conta história em cima da música. Diz que quando o pessoal do INSTITUTO encomendou-lhe um samba, resolveu mostrar que não só poderia fazer um samba de bamba, como faria toda a letra rimando em i. E fez. Sabotage ainda levou algumas músicas de seu único disco “Rap é compromisso”, que anda sumido das lojas por causa de uma peleja entre o selo Cosa Nostra (dos Racionais MCs) e a gravadora Sony.

Com uma hora de duração, o INSTITUTO e Sabotage resolveram encerrar o show e ponto final. Saíram do palco deixando a galera olhando para o relógio e pensando: “Mas já!”. As luzes se acenderam e Bruno Levinson, produtor e apresentador do HPP, entrou no palco meio constrangido, ainda sem entender que ninguém  acreditava que o show já tinha acabado. A persistência da galera e um rumor de bis fez INSTITUTO e Sabotage voltarem para o palco para mandar “Mun-rá” mais uma vez. E aí sim teve fim o primeiro dia do HPP 2002.

Por Leo Lima e Joca Vidal


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