Natal Tropical

Faltam alguns poucos dias para o Natal. Mais uma vez, a cidade se enche daquelas luzes que estamos muito acostumados a ver, num excesso proposital. Quanto mais luzes e menos economia, melhor. A cidade ganha um clima de ostentações e brilho, além do espírito consumista que desperta misteriosamente (ou obrigatoriamente) nas pessoas.

Fato é que o Natal já tem uma tradição que perdura desde que adquirimos alguma consciência do mundo ao nosso redor. O bom velhinho Papai Noel, o trenó, as renas, o saco de brinquedos, a chaminé… O Espírito de Natal tem seu charme, mas na verdade se formos pensar isoladamente, é um categórico ícone da nossa cultura importada. Nossa árvore de Natal tem floquinhos de neve, ao passo que no nosso Natal estamos no ápice do verão, andando pela rua e suando como bodes velhos cansados.

O espírito natalino que vivemos é aquele imposto pela cultura dominante. Lá, no topo do mundo, é inverno no Natal. Aqui, é verão escaldante. Quando eu era pequeno, às vezes ficava frustradíssimo porque minha casa não tinha uma chaminé para Papai Noel poder entrar de madrugada. Minha mãe me consolava, dizia: “filho, ele entra pela janela mesmo”. Grande coisa, uma janela. Queria que Papai Noel entrasse na minha casa por uma chaminé e achasse minhas meias penduradas pra enchê-las de tralhas e doces. É uma decepção pela qual não precisaria ter passado, se nos preocupássemos um pouco em afirmar lendas que condissessem com nossa realidade.

Os brasileiros são o povo mais criativo, sofisticado e desenvolto do mundo. O que custava para nós termos inventado um Papai Noel Tropical? Trocaríamos as canções americanizadas por outras que enaltecessem as belezas da nossa terra, a magia das cidades brasileiras, do povo que sofre sorrindo e sorri sofrendo. Falaríamos todo ano de nossa solidariedade, do clima de confraternização que todas as famílias compartilhariam nesta data. E do nosso bom velhinho “tropicano”! Papai Noel usaria uma bela bermuda e uma camiseta, para não sofrer se esmagando nas chaminés com um casacão vermelho peludo em pleno verão assassino. Aliás, chaminés estas que por aqui são raras… O bom velhinho só precisaria apelar para este meio de invasão domiciliar quando não houvesse nenhum outro mais simples.. A única coisa: livremo-lo das pencas de bananas e colares de flores, coitadinho. Esta é a imagem um pouco limitada que o povo lá de fora tem de nós, longe de como somos realmente.

Essas são apenas algumas divagações sobre como afirmar a riqueza de nossa cultura perante um mundo onde os valores são impostos e assimilados. O Espírito de Natal Norte-Americano seria muito mais admirável, se não fosse fruto direto desta influência cultural. Se existisse paralelamente com outras crenças.

Devo ressaltar que a diversidade de culturas é fator de extrema importância para a humanidade. Acharia também um grande tédio se abolíssemos por completo termos vindos da língua inglesa, e vivêssemos sob o vão medo de ser influenciado por culturas externas. Não há nada de errado com influências. Porém, desde que sejam escolhas de um povo, fontes de inspiração. A partir do momento em que são impostas e pobremente acatadas, perdem seu valor.

Enfim, Natal não é época de críticas, e sim de harmonia. Este texto é apenas uma pequena reflexão sobre como um país como o nosso, absurdamente rico em diversidades e contrastes, com um povo privilegiadíssimo em relação a qualquer outro por seu calor humano, se deixa levar por uma cultura que se impõe apenas por um fator de uma importância que deveria ser infinitamente menor do que as citadas sobre nosso Brasil: o poder econômico.

É chato, mas quem disse que as coisas são certas e justas nesse mundo? Há muito tempo não são. Enquanto isso… HO HO HO, um Feliz Natal para todos vocês… e não se esqueçam de limpar bem as chaminés para Papai Noel entrar direitinho por elas na noite de Natal.

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