Tirando o Los Hermanos, é difícil encontrar no cenário pop brasileiro uma banda de rock que faça sucesso com músicas que bebam na fonte do chamado “rock alternativo”. Muitas tentam. Mas é bem verdade que ainda não se chegou, no Brasil, a uma maturidade nessa área. São poucos os artistas que pensam suas músicas para ouvidos brasileiros. E isso não tem nada a ver com misturar elementos regionais brazucas com guitarras distorcidas. Muitos optam pelas letras em inglês porque é muito, mas muito difícil mesmo criar em português para um estilo que a gente, na maioria das vezes, aprende a gostar com sotaque britânico.

Bem, o Gram está querendo mudar um pouco essa história. Formada por Sérgio Filho (voz, piano e guitarra), Marcelo Pagotto (baixo e voz), Luiz Ribalta (guitarra), Marco Loschiavo (guitarra) e Fernando Falvo (bateria), a banda não nega influências de Beatles, Coldplay e outras bandas do britpop em geral.

E essas influências têm história. Sérgio e Pagotto chegaram a ter uma banda cover dos rapazes de Liverpool – a Beatless – chegando até mesmo a se apresentar no lendário Cavern Club britânico. Depois, vieram as composições próprias e nasceu o Mosva, com músicas todas em inglês.

A banda evoluiu. As influências também. A opção pelo nosso idioma natal foi um grande salto do Gram. Tanto que o povo da Deckdisc gostou e acaba de mandar pras lojas seu primeiro álbum. Ouvindo o disco, puxado pela ótima “Você Pode Ir Na Janela”, dá pra lembrar direitinho do “The Bends”, o segundo do Radiohead. A própria “Você pode…” repete um pouco da fórmula de “Fake Plastic Trees”: aquela da música começar lentinha, sugerindo uma balada e que, de repente, nos ataca com uma explosão de guitarras. Bem legal.

As músicas seguintes mantêm o ritmo e a qualidade da primeira, mas sem superá-la. Mesmo assim, o disco está aí, mostrando um ótimo nível de produção e composição. A gente da MOOD bateu um papo com Sérgio Filho, que nos falou um pouco mais do Gram (a banda e o álbum). Dá uma olhada.

Qual faixa do álbum vocês escolheriam para definir “o som do Gram”?

Sérgio: A maioria das faixas do disco definiriam o Gram. Mas, se tenho que escolher uma, “Você Pode Ir Na Janela”.

Ouvindo o CD do Gram, pessoas já detectaram influências que vão de Arnaldo Baptista a Coldplay. Vocês ainda mantêm Beatles, Oasis e outras bandas do britpop como principais referências?

Sérgio: Temos inúmeras influências. Cada um da banda tem as suas. Elas variam muito. Eu e o Luiz Ribalta somos mais a parte do rock inglês. O Pagotto adora os Mutantes e o Arnaldo, principalmente. O Marco e o Fernando têm influências que vão de Snoop Dogg a João Donato. Os Beatles sempre serão referência para nós, para nossos filhos e netos.

Cantar em português é melhor? Pessoal e comercialmente falando. 

Sérgio: Não penso comercialmente. Acho melhor cantar em português porque este é o nosso idioma e a pronúncia fica melhor, além de ser uma língua riquíssima. Mas se acharmos que uma letra em espanhol ou inglês se encaixa bem em uma música, faremos sem problema.

Ter começado como uma banda cover de Beatles (pelo menos para metade dos integrantes) foi uma escola, uma preparação para chegar ao som que vocês fazem hoje ou isso é uma outra história?

Sérgio: Pra mim foi uma escola, sem dúvida. Tirar todos aqueles acordes, arranjos, vocais e backing vocals foi um tremendo aprendizado. Mas, como falei, o som do Gram tem muitas entradas. Apenas eu e o Pagotto fazíamos parte do cover dos Beatles, somos minoria.

E agora, com o CD sendo lançado e tal, quais são os planos para o futuro próximo? E até onde vocês querem chegar?

Sérgio: Queremos evoluir musicalmente a cada disco e tocar muito! O palco é a nosso maior desejo. Continuar sendo honestos com a nossa carreira e ganhar respeito por isso. Acho que se conseguirmos bater essas metas, seremos felizes no final da carreira.

O mercado internacional ainda é um desejo da banda? 

Sérgio: Sim, acho que não podemos pensar em fronteiras, elas são para os políticos, não para arte.