Descobri ainda há pouco que a simples idéia de ligar minha televisão me causa repugnância. Não consigo mais me aproximar do maldito aparelho: para buscar água na cozinha sou obrigado a dar uma volta enorme a fim de fugir ao alcance da tela maligna. Minha “telefobia” aguda tem justificativa.

Quando se fala em TV, no Brasil, torna-se obrigatória a associação imediata com duas palavras: Rede Globo. Não conheço, na história da Humanidade, exemplo maior de lavagem cerebral: parece que ninguém consegue dormir sem o diabo da novela. Por um desses milagres da Natureza, nasci imune à atração exercida por esse veículo de alienação – digo, comunicação… Não sou o primeiro nem o último que se espanta com o sucesso das telenovelas Globais. Já tentaram relacioná-lo aos dramas vividos pela população, que são fartamente representados na telinha, i.e., a adolescente que engravida, a mulher dividida entre o dinheiro e o amor, rivalidades entre famílias…

Talvez a chance de poder acompanhar essas histórias toda noite, após o trabalho, sirva como uma válvula de escape para as pessoas que, graças à engenhosidade dos autores, sempre encontram um personagem com o qual se identificam. As novelas, vistas por essa ótica, representam uma fuga ao cotidiano tedioso, oferecendo uma oportunidade para que a população mergulhe num mundo que lembra o seu próprio, porém tem a vantagem de ser mais emocionante e povoado de estrelas. Um mundo perfeito onde, invariavelmente, o Bem vence o Mal.

Que me desculpem os noveleiros, porém eu não me conformo com a mesmice das novelas, que se limitam a reciclar ad nauseam as mesmas histórias, os mesmos clichês.

Nunca se viu uma novela de ficção científica ou de terror, por exemplo, provavelmente porque não é isso que o público quer, e a intenção primordial da novela é atender aos anseios dos telespectadores. Jamais suportei o modo como as novelas – em especial a das 8 – oscilam entre núcleos urbanos e rurais, ocasionalmente centrando-se em comunidades específicas como baianos ou imigrantes italianos. Ainda assim, os conflitos insistem em permanecer os mesmos.

Recuso-me a comentar a qualidade das atuações, que volta e meia esbarram no ridículo. Como se não bastasse, os cenários são pobres, reduzindo o interior de todas as casas a um clone asséptico, as câmeras não saem do lugar e a trilha musical nada acrescenta.

Ainda assim, num dia qualquer, só a programação da Globo reserva mais de 5 horas para a exibição de novelas – incluindo aí uma reprise num programa chamado “Vale a Pena Ver de Novo”. Eu pergunto: vale?

O que mais teria a televisão a me oferecer, além das pouco auspiciosas novelas? Filmes, talvez. Mas como a seleção anda fraca… A tela, que já foi Quente, agora anda glacial. A maioria dos filmes oscilam entre comédias para adolescentes mentalmente deficientes e pornôs-soft para adultos desocupados (ou seria o contrário?), passando pelos obrigatórios policiais B que povoam as noites. Quando pipoca uma obra-prima, tipo Interlúdio ou Glória Feita de Sangue, não começa antes das duas da manhã e ainda é preciso torcer para que passe…

Muito me perturba, por falar nisso, o hábito desconcertante de não programar filmes pela manhã seguido por todas as nossas emissoras. Parece que existe algum código que as obriga a exibir, antes do almoço, programas infantis aerobicamente comandados por lourinhas sem-sal ou a pregação fervorosa do pastor Fulano. Vade retro!

Logo chega a hora dos telejornais. Melhor seria telemassacres, uma vez que não existe mais qualquer ênfase aos aspectos positivos da vida, apenas uma sucessão de carnificinas e artimanhas políticas. Não afirmo, bem entendido, que estejamos vivendo uma utopia; minha intenção é apenas criticar o destaque que os jornais, em especial os abertamente sensacionalistas, tipo “Cadeia” ou “Cidade Alerta”, dão à violência e à sordidez. Nem o futebol escapa.

O que me lembra de domingo, dia do Show do Esporte. A Bandeirantes espera que eu me ajoelhe e agradeça pela oportunidade única de acompanhar 12 horas ininterruptas de esporte – de preferência aproveitando para fazer algumas ligações para o Tele Sorte… Mas, por algum motivo, não me sinto entusiasmado pelo privilégio de acompanhar o boxe amador em Londrina ou uma pelada do interior com público de 10 gatos pingados.

Se bem que o esporte, mesmo desinteressante, ainda seja preferível à mediocridade dos programas de auditório que reinam no fim-de-semana, uma prolongada batalha para ver quem consegue oferecer mais vulgaridade, Gugu ou Faustão. E há quem assista…

Diante da total ausência de atrativos na atual programação da televisão pública, muitos se voltam para a alternativa da TV por assinatura.

Vã esperança: livram-se das novelas da Globo para se sujeitarem aos enlatados americanos. E os filmes que passam de manhã são, com frequência maior que a desejada, produções obscuras para a telinha ou atrações que ninguém jamais aceitaria alugar na locadora.

Depois destas breves considerações, torna-se possível compreender meu pavor de ligar a TV: temo que o apelo fácil de programinhas ou filmecos acabe por me enfeitiçar por horas e horas, no fenômeno que os americanos chamam de zapping. Não posso me dar ao luxo de um desperdício assim.

Volto a olhar para a tela cinzenta de minha TV e estremeço, com a impressão de que ela sabe que, cedo ou tarde, eu vou me aboletar à sua frente para que ela infiltre suas idéias em minha cabeça.

Mas ela que se cuide: um dia eu me farto disso tudo e vendo a desgraçada para usar seu suporte como descanso para os pés enquanto eu estiver lendo um livro decente ou apreciando música. Aí ela vai ver o que é bom.

Mas será que estou sendo duro demais? Afinal, ainda existe vida inteligente na TV?