TV Trash

Tomemos, como ponto de partida, alguns conceitos:
– Madrugada: período compreendido entre a hora que meu pai vai dormir e o Globo Rural.
– TV aberta: a prova viva de que a democracia tem lá seus contras.
– Programa de TV: tudo o que aparece na grade de programação do jornal.
– Trash: programas com o Selo Ataíde Patrese de Qualidade.

Pois é, foi no meio disso tudo que eu descobri a solução para o excesso de pilosidade. A mágica chama-se Epil-Stop, e é um spray vendido no programa do Grupo Imagem (será que as facas Ginsu cortam as meias Vivarina?). Basta espraiar um pouquinho em qualquer buço, suvaco ou até nas costas mais peludas, passar uma toalha e voilá: o amarfanhado de pêlos sai como se tivesse sido colado com farinha e água. A demonstração é um tanto desagradável, verdade, mas impressiona. Quer dizer, os americanos dublados do programa pareciam bem impressionados.

O mais legal é que o programa seguinte, Polishop, prometia a mesmíssima coisa com o igualmente revolucionário Hair No More. É a guerra dos depiladores em spray, onde armas de toda sorte têm seu lugar. O Polishop apela pra história, creditando a invenção da dolorosa depilação à Cleopátra.

Já o Grupo Imagem parte para uma linha emotiva, lançando mão do depoimento de um senhor que sonhava com o dia em que poderia usar a camiseta regata que seu filho lhe deu.

Tudo isso acontece diariamente na Meca da TV Trash: a CNT. A explicação é simples: enquanto canais como SBT, Record e Rede TV! produzem seus próprios
programas, a CNT vende amplos espaços de madrugada para produções independentes. E aí, minha gente, é um circo de deixar qualquer João Kléber no chinelo.

Ouro 18 quilates!

Um dos programas mais geniais do trash televisivo chama-se Mil e Uma Noites. Trata-se de um leilão de jóias. Explico: uma dupla composta por uma apresentadora e um leiloeiro vão mostrando jóias e recebendo lances por telefone. O trash em questão começa pelas próprias jóias. Só não vou dizer que elas ultrapassam qualquer limite tolerável de breguice porque tem pessoas que gostam. Graças a Deus, não conheço nenhuma.
Continuando, as jóias são mostradas em detalhe numa modelo viva. E quando eu digo “em detalhe”, pense numa câmera digna de exame dermatológico, com vista privilegiada para os cravos, poros e pêlos da mulher (Epil-Stop nela!).

Mas tudo isso é só o apertivo. Show mesmo são os apresentadores. Noite após noite (são mil e uma, né?), duas duplas se alternam, cada uma com seu atrativo especial. A apresentadora Meire Nogueira, por exemplo, é um espetáculo à parte. Ela já começa o programa se credenciando:

– Eu amo toooodas as jóias! Amo algumas mais do que outras!

Isso, claro, numa estridência que só encontra par quando ela brada os atributos das jóias:

– Oooouro, 18 quilates!!!

Mas, justiça seja feita, Meire tem auto-crítica. Preparada para eventuais ataques de sono do telespectador, ela faz questão de invocar periodicamente o som de um galo cacarejando.
A outra apresentadora Maria Cristina Kastrup, é mais contida. Aliás, tão, mas tão contida, que dá vontade de chamar o galo da Meire para gritar no ouvido dela. Nessas noites, a atração é o leiloeiro Gustavo. A voz dele é praticamente inimaginável, algo próximo do que seria um Júlio Barroso fazendo papel de galã-cafetão numa pornochanchada. E o texto da figura não deixa por menos:

– Olha só esse brinco, uma verdadeira tetéia! São 50 pontos de diamente e uma ametista ma-ra-vi-lho-sa! Quanto vale, 800, 1.000, 1.500 reais? Claro que vale! Mas aqui no Mil e Uma Noites, você paga, na parcela, 300 reais! 300 reais na parcela por essa tetéia de brinco! Claro que essa irresistível persuasão surte efeito, e não custa para surgir um grito deseperado de “Vendido! Vendido!” de alguma menina do telemarketing, diante do que a inerte Maria Cristina faz questão de parabenizar o feliz comprador.

Projetos?

E tem o campeão. O melhor de todos. O mais trash dentre os trash. Nada que a televisão brasileira já produziu supera o Sabbá Show. O apresentador desta raridade é o impagável (até porque ninguém em sua sã consciência pagaria ele para fazer aquilo) Daniel Sabbá. O moço, para quem não lembra, ficou famoso ao protagonizar um escândalo de ciúmes na sede do SBT, por conta dos amassos que sua ex-mulher, a roqueira-e-atriz Syang, andava dando na Casa dos Artistas.
Como trocentos outros programas, de Amaury Júnior ao chato do Otávio Mesquita, o Sabbá Show é dedicado à cobertura de festas e eventos sociais. Acontece que a aptidão de Sabbá para o trato social beira o zero Kelvin.
O bichinho é o Joselito da vida real. Só para ilustrar a falta de noção, imagine alguém chegando pra Maitê Proença (atenção, não era a Nana Gouvêa ou a Viviane Araújo) e irrompendo:
– Que saúde, hein, Maitê? Dá uma voltinha pra gente, dá!
Sabbá cobre uma variedade de eventos, desde ensaios de escola de samba a
inaugurações de loja, passando por festas de socialites. Outro dia, por exemplo, foi bater ponto na vernissage do pintor Albery, aquele que pinta o corpo das siliconadas da Sapucaí. Resultado:
– Albery, parabéns, muito bonita a exposição! Mas agora me explica seus quadros aí que eu não entendi.
No ensaio do Salgueiro, Sabbá foi ter com os carnavalescos Márcia Lávia e Renato Lage, para saber detalhes dos preparativos da escola. E eis que, no
meio da prestativa explanação de Márcia, nosso gentleman bruscamente interrompe:
– Já vi que você não vai falar nada. Vamos ver se o Renato me diz alguma coisa.
E assim, com seu tato nulo e um certo ar disléxico-autista, Sabbá vai conseguindo proezas inimagináveis. Para se ter uma idéia, até atores da Malhação fogem dele, alimentando uma produção em série de constrangimentos.
Mas mesmo assim, o apresentador consegue ter umas figurinhas recorrentes no seu programa, gente como a afetada Narcisa Tamborideguy, o gago David Brazil e os esquisitos André Ramos e Bruno Chateaubriand. E claro, o bicheiro Capitão Guimarães.
– Estou aqui com o grande nome do Carnaval, Capitão Guimarães. E aí, doutor Capitão, projetos?
Claro que basta o entrevistado começar a responder para o apresentador passar a ignorá-lo, olhando em volta em busca de outra vítima. E a pergunta “Projetos?”, diga-se de passagem, é uma das marcas registradas de Sabbá.
Algumas outras são o câmera com influências parksonianas, celebridades aborrecidas e coberturas, digamos, completíssimas. Como a do show da Sandra de Sá, que ele apresentou assim:
– A matéria do show tá bombando, só vou pedir desculpas aí pra Sandra, que eu não consegui falar com ela, fica pra próxima.
Mas não restam dúvidas: na corte do trash, Daniel Sabbá é a jóia da coroa.
Mil e Uma Noites nele!

Pérolas do Sabbá

– Onde é que você vai com isso tudo? (para qualquer mulher que ele considere gostosa)
– Ah, para São Paulo. (resposta de uma ingênua espanhola)
– O Maninho não tá aí não, né? (procurando gente bacana pra entrevistar no ensaio do Salgueiro)
– E aí, projetos? (para absolutamente qualquer um)
– É, a vida é um aprendizado. (num momento metafísico, ao saber dos cursos que um ator estava fazendo)
– Búzios… grande balneário! (em mais um momento de esclarecimento)
– Muito obrigado, tchau! (para qualquer entrevistado que ainda não tenha terminado uma frase)
– É isso aí, querem que a gente fique triste, mas a gente fica feliz mesmo não estando, teatro é show! (sobre suas aulas de teatro).

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