Uma surra sutil

— Vou aquecer a água para o café, tu quer?

Não consigo responder nada a Dora, tudo o que faço é balançar a cabeça em um aceno curto, afirmativo; mas ela, que acorda sempre, pontualmente, no mesmo horário, já está acostumada com a minha personalidade… sucinta, matutina. Ela tanto me conhece que antecipadamente me prepara um chá, não o café oferecido, pois, apesar de eu preferir o chá, a preguiça me retém as palavras na boca. Me sento à mesa, bebidas quentes já servidas, o pão já cortado em fatias. Toda a vez que enxergo a mesa prontamente arrumada, me sinto em extrema dependência dela; isso incomoda. O descontentamento, porém, dura segundos, durante os quais disfarço. Os outros que se seguem guardam preocupações diversas. Bebo o primeiro gole de chá. As palavras me retornam de súbito, como um soco.
— Onde tá a Isa?
A Isa sempre está lá. Eu que nunca a enxergo, eu que nunca percebo sua presença banhada em sutileza, passos leves e aquele toque amaciado nos objetos. Toda vez que escuta isso, a Isa suspira. Raiva, talvez? O suspiro é o som mais alto que ela produz durante todo o dia, dentro de casa. É verdade que me preocupo; mas não é menos verdade de que tenho certo prazer em deixar ela nos nervos.
— Ô Dora, eu sempre acho que ela tá me escondendo alguma coisa.
Não preciso dizer mais nada, que ela já aparece.
— Bom dia. E não me leve a mal, mas tudo o que acontece é que teus olhos não conseguem enxergar como eu voo tão bem. Aliás, acho que a cada dia tu me perde um pouco mais. Triste saber. Triste te dizer, também.
Voa tão livre como uma mosca, certamente; penso, mas guardo, não digo nada. Será que ela não consegue pensar de forma racional? Pra me trazer umas informações mais concretas… Ou ela mente, ou se esconde. Já a Dora, ela raramente dá opinião nessas horas. Acho bonito que se guarde. Simplesmente nos olha e sorri cheia de comiseração, crianças na beira da mesa comendo pão com margarina e geleia, bebendo café, bebendo chá. A Dora não come nada, ela só nos observa, ela é só um mistério da manhã, Dora, tu nasceu pra ser decifrada, mas então, tu também fala como se fosse os bichinhos que voam? Não? Mas por que? Eu vejo o ponto… Vocês acham: “Eles são tão bonitos. Eles são tão livres… Mágicos.” Mas que vão embora. Vocês! Vocês não ousem ir embora!
A Dora, ao contrário de mim, aprendeu a nunca perder ninguém. Talvez por isso saia de casa antes que do meu primeiro grito.
Elas pegam uns trapos que parecem bolsas, uns trapos que parecem chapeis e outras coisas e elas são uns trapos. São só uns vultos, uns vultos coloridos, que saem pra algum lugar dessa cidade. Fico feliz que agora estou, novamente, dentro de minha solidão, em minha casa. Mas lá fora, o que elas fazem? Tenho certeza de que saem cochichando. Ainda algum dia as sigo para ouvir o que cochicham.

Pode ser que, do outro lado do muro,

as coisas não sejam saudáveis
não exista a beleza nem
coisa alguma que valha a pena
Mas do outro lado do muro…
Sem o outro lado muro,
Não tem como tornar maleável a certeza

— Tu que, então, sabe o certo, seja livre comigo —
O que é ser livre, afinal?
Não precisamos desse adjetivo
— Não precisamos daquela casa sufocante —
Tu não precisa, certamente
E eu?
— Eu trouxe água —
Desculpe, não posso correr
Quanto falta ainda, muito?
— Muito. —
Sandra Couto nasceu em uma manhã de novembro. Morou, até o momento, em seis cidades e quatorze casas; estudou em sete escolas e duas faculdades. Ainda ontem, tentou juntar suas bagunças para dar espaço à escrita. Sem sucesso, percebeu que a escrita é o paradoxo de sua bagunça. Seu trabalho, assim, psicológico, enlouquecido, interpretável até a última vírgula, todo bagunçado e, não por isso, menos aprazível, pode ser acompanhado em um de seus muitos tumblrs: http://milemuitos.tumblr.com/

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