Almodóvar – O retrato da Essência Humana

Quando se pensa em Almodóvar, e tenta-se teorizar ou postular alguns tópicos sobre sua obra, chega-se a conclusão de que não há tópicos, ou pontos, ou aspectos determinados. Há, sim, uma fusão de idéias e sensações. Pensar na obra almodovariana é o mesmo que tentar encontrar algo da essência humana, se é que isso seja possível de ser determinado. É ir em busca de uma verdade não única, mas plural. Uma verdade que caiba em todos – digo, todos os sexos, todas as escolhas, todas as interpretações e, acima de tudo, todas as vivências. É descobrir que não há sujeitos absolutos, porque o sujeito é para lá de dissipado. Para entender o que esta busca almodovariana quer dizer, tentaremos separar ao máximo os aspectos principais de sua obra – aspectos tão truncados e fundidos.

Observamos que em sua filmografia há uma linha coerente que torna verdadeiro, ou melhor, verossímil não apenas seu enredo, mas também seus personagens. As questões tratadas são sempre de ódio e paixão – sem meio termo, num mundo possível apenas dentro da lógica de Almodóvar.

Quando começa a escrever um filme, o diretor parte de uma cena central que funciona como o centro de um redemoinho. É a partir daí que surge o resto do roteiro que não é, necessariamente a cena dos coadjuvantes. Na verdade, poderíamos tratar vários personagens como protagonistas em seus filmes, considerando a importância e a riqueza de detalhes que há em cada um deles. Almodóvar é considerado um “reescritor nato de seu próprio material”, na medida em que chega a desenvolver várias versões de uma mesma história, até se encontrar realmente seguro com o que tem em mãos.

Antes de começar a rodar o filme, ele estuda o próprio roteiro de uma forma tão intensa que conhece e trata seus personagens como se fossem reais – não como meros veículos através dos quais sua história virá a ser contada. Sabe exatamente como falam, como se movem, o que sentem. Personagens que passam a ter vida própria.

Sua obra pode ser definida como híbrida, uma vez que é duplamente tragicômica e melodramática. Com a mistura de gêneros, ele reforça a sensação que dá mais importância em seus filmes: a ênfase na emotividade. Os sentimentos e as emoções determinam pontos extremos nos enredos que são, acima de tudo, paródias da sociedade pós-moderna.

Seu trabalho funciona como uma crítica à sociedade da forma mais irreverente possível, podendo ser relacionado com cineastas como Bergman ou Buñuel. Um aspecto marcante desta paródia é o encontro – e/ou desencontro – sexual como este se dá atualmente. Sua obra é, claramente, uma “crônica da carne trêmula” a partir de idéias originais e provocantes.

Um dos elementos mais sedutores em Almodóvar é, sem dúvida, a cor. Conta-se a história que sua mãe vestiu luto desde os três anos, na morte de seu pai, até o nascimento de Pedro. A partir daí, ela nunca mais vestiu roupas escuras. Segundo entrevista dada pelo cineasta, este fato foi considerado por ele como sendo a causa primeira de sua relação tão intensa com o cromatismo: “Depois de tantos anos de escuridão, minha mãe representa a vingança contra o negro. Eu decidi que minha vida estaria determinada pela cor, que se experimenta pelo excesso de cor”. Em filmes como “Mulheres à beira de um ataque de Nervos”, “Ata-me” e “De Salto Alto” são a prova concreta desse excesso de cores kitsch, vivos e marcantes. Vermelho, azul, laranja, rosa e verde se fundem em uma desordem com manifestações geométricas, trazendo à tona quadros de Mondrian ou Gatti. Em Almodóvar, a intertextualidade entre a pintura e a linguagem cinematográfica tende a abolir a existência de fronteiras entre essas disciplinas. A linguagem visual é tratada cada vez mais como una, caracterizando os extremos das sensações.

Por todas as questões mencionadas e pelo que sentimos ao assistir um filme deste diretor, sabemos que ele tenta fazer com que os espectadores vivam as emoções que se encontram em questão. E que, geralmente, são emoções femininas. Seu ponto de vista não é androcêntrico – fato inédito em se tratando de diretores masculinos. Em “Tudo sobre minha mãe”, ele quase que reduz os homens à marginalidade. “Matador”, “A lei do desejo” e “Carne Trêmula” são seus únicos filmes denominados, por ele, de testiculares. Apesar de que, neste último, as ações ocorrem em função das mulheres. Inversão de sexos – esta é a semente da paródia espanhola.

Especialista em registrar um retrato feminino emotivo, desesperado e ambíguo, a heroína almodovariana geralmente é uma figura tragicômica vivendo situações de traição e abandono, em um estado de solidão, sofrimento e desespero. Como mulheres espanholas, suas questões dramáticas se dão ao ritmo do bolero. Ritmo que determina o exagero dos sentimentos com sua melodia cálida, compensando todo e qualquer sofrimento.

Para o cineasta, a mulher tem um interesse em ser um sujeito dramático, afirmando que “Os homens também choram, mas penso que as mulheres choram melhor. Elas não conhecem nem o pudor nem o sentido do ridículo, nem essa coisa horrível que chamam de amor próprio”. Eles as escolhe como representantes na busca da essência humana – onde, quem sabe, pode estar a verdade. A busca que sempre fez parte do homem, como comprova a inscrição no templo do deus grego Apolo, “Conhece-te a ti mesmo” – entenda seus limites, tenha consciência de si.

Almodóvar emoldura um povo tentando resgatar a consciência de si. Tentado resgatar as questões culturais, políticas, sociais. A transição de uma Espanha franquista para uma Espanha que valoriza a diversidade – a identidade do homem pós-moderno. A vontade de beber, cantar e dançar – símbolos da era liberdade pós-franco. Seu apogeu é retratado em “Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón”. Em “Carne Trêmula” temos as menções à ditadura que acabava de cair, exercendo o papel de prólogo ao entendimento do comportamento da sociedade na denominada ‘movida madrileña’.

Ao mostrar a sociedade espanhola em sua busca pela identidade ou o homem em busca de respostas para suas questões, Almodóvar não poderia ser mais verdadeiro. É a síntese da representação da busca humana. A busca do sonho, da essência. A procura por pessoas que nos entendam, que compreendam nossos desejos. Que compartilhem sentimentos, que vivam demasiado. “Uno es más auténtico cuanto más se parezca con lo que se sueña de si mismo”, disse seu personagem Agrado em “Tudo sobre minha mãe”. Verdade seja dita, autenticidade que a gente bem que tenta encontrar.

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