Jackass, humor ácido e escatológico

No início de novembro de 2001, estreou no Brasil um programa que ja estava com os dias contados na televisão americana. Jackass (na tradução, estúpido, burro, idiota) quando lançado entrou para a lista das 10 maiores audiências da TV paga.

Idealizado pelo protagonista Johnny Knoxville e co-produzido pelo queridinho dos alternativos Spike Jonze (diretor de “Quero ser John Malkovich” e de clips cultuados como “Buddy Holly” do Weezer e “Sabotage” dos Beastie Boys), Jackass é um picadeiro de demonstrações grosseiras com o mais puro teor politicamente incorreto. Johnny Knoxville, Bam Margera e mais uma meia-dúzia de jackasses queimam a mufa e usam toda a criatividade para bolar situações estúpidas que se superam a cada programa, do tipo: correr do telhado de uma casa para pular dentro de uma piscina Tone cheia de bosta de elefante; testar na própria pele os equipamentos usados pela polícia para dar choques; descer uma ribanceira vestido com aquelas roupas de personagem de parque de diversões a bordo de bicicletas para duas pessoas; ou pedalar em alta velocidade e usar uma rampa para dar de cara com arbustos espinhosos; vestir uma roupa de amianto e tocar fogo no próprio corpo para testar a eficácia do equipamento; ou, que tal (?), fazer um piercing de argola para juntar as metades das nádegas – texto abaixo são listadas outras pérolas do programa.

Jackass é a versão em video digital de uma linha de entretenimento que antes só era possível ou imaginada em desenhos animados como Beavis and Butthead, Garoto Enxaqueca, South Park ou nos não menos sádicos Pica-pau e Pernalonga. O humor escatológico, para não usar o desgatado ‘trash’, aparece agora com a estética de video caseiro, sem qualquer iluminação especial, claquete ou tripé. E foi nesse exato ponto que a massa de infâmias desandou. Lembra quando a Xuxa levava contorcionistas bolivianos em seu programa e aconselhavaenfaticamente para os baixinhos de casa não tentarem as aventuras ali mostradas? Pois é, o Xou da Xuxa acabou faz tempo, mas sempre vai existir um moleque disposto a fazer merda inspirado em programas de televisão. Foi o que aconteceu. A MTV americana bem que tentou usar o método Xuxa, mas os alertas em letras vermelhas no início e fim de cada episódio de Jackass não surtiram o efeito esperado. Uma versão já modificada do aviso dizia mais ou menos assim: “ADVERTÊNCIA: as atrações desse programa são desempenhadas por dublês profissionais ou sob a supervisão de profissionais. A MTV e os produtores de Jackass alertam para que ninguém tente recriar ou imitar os atores e as performances apresentadas. A MTV insiste para que os telespectadores não mandem videos. Nós não veremos e não julgaremos a qualidade de qualquer video enviado. Não perca o seu tempo.” A avalanche de fitas recebidas pela MTV foi acompanhada por notícias em todo o país de casos de queimaduras de 2º grau e outros acidentes domésticos sofridos por moleques de 11 a 17 anos que se diziam inspirados pelas aventuras de Johnny Knoxville e amigos. O conteúdo do programa e seus desdobramentos igualmente estúpidos estimularam uma série de debates na sociedade americana que resultaram no fim de Jackass.

Johnny Knoxville, a celebridade de Jackass

Piscina de Merda - Jackass

Mas tudo não acaba aí. O corajoso Johnny Knoxville é hoje uma celebridade nos EUA e em outros países em que Jackass é exibido, com direito a uma centena de sites fã-clube espalhados pela rede e repletos de fotos, biografias e entrevistas. E como em Hollywood ninguém é tão jackass assim, o galã foi chamado para fazer “Homens de Preto II”, filme que já está sendo rodado com os mesmos Will Smith e Tommy Lee Jones. Resta saber que tipo de alien masoquista Johnny Knoxville vai interpretar.

 

Por Leo Lima

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